Suspensão dos testes traz até mais segurança, diz voluntária da vacina de Oxford

“Essa suspensão dos estudos me traz mais segurança de que os testes estão sendo feitos com clareza e método,” disse Larissa Voss, médica e voluntária

Da CNN, em São Paulo

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Se para muitos a notícia da suspensão dos testes da vacina contra a Covid-19 da AstraZeneca com a Universidade de Oxford foi um grande balde de água fria, para a médica e voluntária dos estudos Larissa Voss a notícia deixou clara a seriedade do projeto.

“Essa suspensão dos estudos me traz mais segurança de que os testes estão sendo feitos com clareza e método,” disse Larissa.

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 Larissa Voss
A médica voluntária Larissa Voss
Foto: CNN (09.set.2020)

“As vacinas estão sendo feitas em ritmo acelerado e essa suspensão ratifica que não estão burlando as fases de segurança. Qualquer estudo de fase 3 é feito com um grande número de pessoas. A suspensão é comum com testes de vacinas e medicamentos.”

A médica disse ainda que a suspensão dos estudos a deixou com ainda mais vontade de continuar participando dos testes e que o momento não é de pânico.

“Com certeza continuarei como voluntária até o fim do estudo. Pode ser que a vacina atrase um pouco, mas é importante oferecermos a vacina com segurança.”

Entenda a suspensão

Possível vacina contra Covid-19 é desenvolvida pela Universidade de Oxford
Possível vacina contra Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford
Foto: Sean Elias – 04.abr.2020 / Divulgação / Reuters

Para garantir que as vacinas experimentais não causem reações graves nos participantes, as farmacêuticas suspendem os testes como uma medida de precaução padrão.

Segundo a AstraZeneca, trata-se de uma “ação de rotina que tem que ser tomada sempre que houver uma enfermidade potencialmente inexplicável em um dos testes, enquanto se investiga, garantindo que se mantenha a integridade dos testes”.

Em um comunicado enviado à CNN, a farmacêutica explicou que “como parte dos testes globais controlados e aleatórios em curso da vacina contra o novo coronavírus de Oxford, nosso processo de revisão padrão provocou uma pausa na vacinação para permitir a revisão dos dados de segurança”.

“Nos grandes testes, as doenças acontecem por acaso, mas eles devem ser revistos de forma independente para verificar com cuidado”, afirmou a empresa.

“Estamos trabalhando para acelerar a revisão de somente um evento para minimizar qualquer potencial impacto no cronograma de testes. Estamos comprometidos com a segurança de nossos participantes e os mais altos padrões de conduta em nossos estudos”, explicou.

Suspensão “demonstra seriedade”

A suspensão dos testes de estágio final da vacina da AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford, demonstra a seriedade com que está sendo feito o ensaio clínico. Esta é a opinião de Jarbas Barbosa, médico sanitarista, epidemiologista e diretor-adjunto da Organização Panamericana de Saúde (Opas).

“Demonstra que não há e não deve haver nenhuma correria e que se devem cumprir todos os requisitos para assegurar que a vacina seja segura e eficaz”, disse Barbosa nesta quarta-feira (9) em entrevista à CNN.

De acordo com o especialista, é um procedimento padrão a interrupção de testes quando se tem um evento adverso nos imunizantes experimentais.

“Quando é detectado algum evento que pode ter relação com a vacina, imediatamente se suspende o estudo para que aquele evento seja analisado”, explicou. 

E há, segundo ele, sempre duas possibilidades: o que aconteceu com um voluntário pode ser relacionado à vacina ou pode ser uma “mera casualidade”. 

“A [vacina] de Oxford foi a primeira que iniciou a fase 3 de testes e, por isso, há uma expectativa do mundo inteiro para que ela possa ser uma das primeiras vacinas a estar disponíveis”, disse o diretor-adjunto da Opas. 

O médico sanitarista e professor de saúde pública do Centro Universitário São Camilo (SP), Sérgio Zanetta, também destaca que os estudos da fase 3 de testes clínicos existem para detectar problemas que não foram observados em outros estudos menores, justamente para proteger os usuários finais.

“Temos dezenas de vacinas e existem fases para cumprir. Estamos no terceiro estágio da fase clínica onde já foi testada segurança e atividade biológica num grupo pequeno de pessoas. Agora, é testada novamente a eficácia e segurança em alguns milhares de pessoas”, esclarece. 

A decisão de se suspender os testes foi anunciada após uma suspeita de reação adversa séria em um participante do estudo. Um porta-voz da AstraZeneca disse que o problema ocorreu com um voluntário no Reino Unido, e os testes do imunizante foram interrompidos em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Se o efeito adverso for persistente, é possível – e já aconteceu isso – que o estudo não possa prosseguir. Se isso for revertido, o estudo retoma e pode ser eventualmente concluído até o julho de 2021, que é o seu prazo”.

Zanetta reitera ainda que, quem diz que a vacina estará pronta para uso antes da finalização do ensaio clínico da fase 3 “ou não sabe o que está falando ou realmente tem conflito de interesses”.

(Edição: Sinara Peixoto)

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