Testes com vacina de Oxford contra Covid-19 podem levar um ano

Unifesp mantém conversas para testar em voluntários brasileiros uma vacina em pesquisa na Itália

Soraya Smaili, reitora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
Soraya Smaili, reitora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Foto: Amanda Perobelli - 24.jun.2020 / Reuters

Ouvir notícia

Os estudos para comprovar a eficácia de uma potencial vacina contra o novo coronavírus desenvolvida na Universidade de Oxford podem levar até um ano na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A instituição brasileira mantém conversas adiantadas para também testar em voluntários brasileiros uma candidata a vacina criada na Itália, disse a reitora da Unifesp, Soraya Smaili.

Segundo ela, qualquer uma dessas vacinas que se provar eficaz contra a Covid-19 poderá ser produzida no Brasil, pois o país tem competência e infraestrutura técnica para isso.

Os testes com a potencial vacina da universidade britânica – uma das dez do mundo em estágio mais avançado de estudo – começaram nesta semana no Brasil e deverão incluir, inicialmente, 2 mil voluntários em São Paulo e outros mil no Rio de Janeiro.

Assista e leia também:

Voluntários brasileiros começam exames para receber testes de vacina de Oxford

Sanofi fecha acordo de US$ 2 bi para desenvolver vacina contra Covid-19

Covid-19: Fundação Lemann celebra início de testes da vacina de Oxford em SP

“Esta etapa, que é a fase 3, poderá levar até 12 meses”, disse Smaili. “Num prazo de seis meses, talvez a gente tenha um resultado preliminar. Mas não é possível dizer que em seis meses teremos a vacina. Isso não é possível dizer agora, temos que aguardar os resultados. Essa é uma etapa muito importante, é necessária concentração e a ciência tem o seu tempo.”

Após a aplicação da vacina nos voluntários (profissionais de saúde e funcionários do Hospital São Paulo, ligado à Unifesp, com idade entre 18 e 55 anos que estão expostos ao vírus), eles serão acompanhados por alguns meses, para detectar se a substância gerou a produção de anticorpos contra o vírus.

Os estudos em São Paulo estão sendo financiados pela Fundação Lemann, do empresário bilionário Jorge Paulo Lemann. No Rio, o programa é bancado pela Rede D’Or de hospitais.

Em vez de um vírus inativado, a vacina em estudo na Unifesp usa um vetor viral, com base em um vírus modificado que atinge chimpanzés, mas não humanos, ao qual é acrescida uma proteína que o novo coronavírus usa para invadir células e induzir a produção de anticorpos. O vírus inativado é a tecnologia adotada no candidato a imunizador desenvolvido pela empresa chinesa Sinovac e que será testado em voluntários brasileiros pelo Instituto Butantan a partir de julho.

A vacina britânica não é a única em estudo na Unifesp. A instituição participa de experimentos liderados pela Universidade de São Paulo (USP) para desenvolver uma vacina brasileira contra a Covid-19, que está em etapa pré-clínica.

Pesquisa na Itália

Além disso, a Unifesp pode fechar parceria para realizar no Brasil testes de comprovação de eficácia de uma candidata italiana para imunizar contra o novo coronavírus.

“Estamos já em fase avançada de conversas com o Instituto Nacional Lazzaro Spallanzani, da Itália, de Roma, que é um instituto voltado totalmente para doenças infecciosas e já produziu diversas vacinas, inclusive contra o ebola”, disse Smaili, que também é doutora em Farmocologia pela Unifesp e pesquisadora da instituição.

“Eles estão interessados para termos a fase 2 e depois a fase 3 também. É possível que nós tenhamos um número grande de voluntários envolvidos e esse esforço poderá envolver mais do que uma instituição, não só a Unifesp, o que é desejável”, afirmou ela.

A fase 2 dos testes com uma vacina, segundo Smaili, inclui ensaios em um grupo mais restrito de voluntários. Além disso, o fato de ela ter chegado neste ponto já indica um grau de segurança para a aplicação em humanos, com a necessidade de monitoramento dos pacientes.

Já a potencial vacina cujo estudo é liderado pela USP é desenvolvida desde o início no Brasil e está em um estágio anterior, pré-clínico. “Essa vacina está caminhando bem, ela foi construída de uma outra forma e ela também será promissora”, disse Smaili.

Produção local

De acordo com a reitora da Unifesp, qualquer vacina que se provar eficaz na proteção contra a Covid-19, doença que já infectou quase 1,2 milhão de pessoas e matou mais de 53 mil no Brasil, poderá ser produzida no país, em instituições como a Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Butantan, por exemplo.

“Tendo o registro, nós temos a capacidade no Brasil de produção, sem sombra de dúvida, como já fizemos com inúmeras vacinas e fazemos”, disse ela.

Nesta semana, o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, afirmou em audiência em comissão mista do Congresso Nacional que o governo federal pode assinar ainda nesta semana uma parceria para produzir no Brasil a potencial vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford, em parceria com a empresa biofarmacêutica AstraZeneca.

A reitora da Unifesp acredita que, pelo fato de ter participado do estudo da vacina potencial, o Brasil fica em posição privilegiada para recebê-la, assim os estudos clínicos comprovarem sua eficácia.

Mais Recentes da CNN