50 anos da missão Apollo 13: reflexões sobre um ‘fracasso bem-sucedido’


Ashley Strickland, da CNN
13 de abril de 2020 às 11:34 | Atualizado 27 de abril de 2020 às 15:39
Nave da missão Apolo 13 em preparação para lançamento

Nave da missão Apollo 13 em preparação para lançamento

Foto: Divulgação/Nasa

Na tarde de 13 de abril, há exatos 50 anos, os astronautas da Nasa (Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço, em inglês) James Lovell Jr., John Swigert Jr. e Fred Haise Jr. estavam prestes a dormir no módulo de comando da Apollo 13 — voo espacial que tinha o objetivo de realizar o terceiro pouso tripulado na Lua. 

Eles estavam a cerca de 322 mil km de distância da Terra e seguiam em direção à Lua. A partir desse momento, tudo mudou, forçando a tripulação a abortar a missão. Veja detalhes do que aconteceu abaixo.

Explosão

Os astronautas tinham acabado de realizar uma transmissão de TV mostrando o módulo lunar, que pousaria na Lua. Na Terra, no Centro de Controle de Missões de Houston, o diretor de voo da Apollo 13, Gene Kranz e sua equipe estavam prestes a encerrar o turno.

Leia também:
Ministério do astronauta Marcos Pontes investirá R$ 100 milhões contra COVID-19

Em um áudio da missão, pediu-se à tripulação que agitasse os tanques de oxigênio líquido. Swigert apertou um botão e foi então que se ouviu uma explosão. “Houston, temos um problema”, disse Lovell.

Quando um dos tanques de oxigênio explodiu, danificou outro. Lovell se lembra de ter visto que duas das três células de combustível, que forneciam oxigênio, não existiam mais.

“Eu vi uma substância gasosa saindo muito rapidamente de trás da nave espacial e me ocorreu que havíamos perdido algo. Quando olhei os indicadores de oxigênio, um estava em zero e outro estava se esgotando”, disse Lovell.

A nave Apollo 13 era composta por três partes principais. O módulo de comando abrigava a tripulação e funcionava como um centro de controle, permitindo que o grupo voltasse para a Terra. O módulo de serviço fornecia oxigênio, energia elétrica, água, propulsão e sistema de manobras para o veículo. E o módulo lunar permitiria que a equipe aterrizasse na Lua.

A explosão impactou o módulo de serviço e o destruiu, acabando com todos os itens essenciais contidos ali para a realização da missão. Como resultado, a energia do módulo de comando estava acabando. Sem ela, os astronautas não poderiam voltar para casa.

Nesse momento, a tripulação sabia que não chegaria à Lua. Agora, eles precisavam descobrir uma forma de retornar à Terra.

Os astronautas e a equipe de Controle de Missões tinham que agir rapidamente. O módulo de comando tinha apenas 15 minutos de reserva de energia e era preciso economizar para a reentrada na atmosfera da Terra. Eles trabalharam para mudar tudo, incluindo a navegação, do módulo de comando para o módulo lunar durante um curto espaço de tempo.

O projeto havia sido desenvolvido para chegar à Lua e manter dois homens por dois dias, mas depois determinou-se que seriam três homens por quatro dias. Os astronautas e os controladores decidiram, então, usar a estrutura como um “bote salva-vidas” para a tripulação.

Eles tiveram que fazer várias correções de rota para conseguir retornar. Para isso, Lovell, Haise e Swigert tinham que girar em torno da Lua. Os motores do módulo lunar, que ajudariam a pousar e decolar de um pouso lunar, foram usados para colocá-los no caminho que usaria a gravidade da lua para enviá-los de volta.

Quando chegaram à parte de trás da Lua, os astronautas perderam contato com o Controle de Missões, como previsto.

Lovell já tinha visto a Lua durante a missão Apollo 8, mas Swigert e Haise estavam vendo pela primeira vez. Eles fotografavam “como se fossem turistas”, relatou Haise.

“Farouk El-Baz, um dos nossos técnicos para geologia lunar, nos disse mais tarde que conseguimos imagens boas de locais que nunca tinham sido vistos antes. Acho que ele estava tentando nos fazer sentir bem, de que fizemos algo certo nessa missão”, contou Haise.

Retorno

Após a volta na Lua, foi necessário provocar uma explosão. Sem ela, a nave flutuaria para longe e os astronautas não conseguiriam retornar. A missão se tornou uma corrida contra o tempo, conforme os recursos ficavam cada vez mais limitados. Eles desligaram quase tudo, com exceção dos sistemas de suporte necessários à vida no módulo lunar. 

A temperatura despencou no local para aproximadamente 3ºC no dia em que eles deveriam aterrizar. Além disso, segundo Haise, a água invadiu todos os locais: compartimento de fiação, janelas, paredes e painéis de instruções.

Para manter o calor, Haise e Lovell vestiram as botas que usariam na superfície da Lua, e Swigert colocou roupas extras. Mesmo assim, não conseguiam vestir os trajes espaciais porque a umidade tornaria a tarefa impossível.

Também havia o problema do dióxido de carbono que os astronautas estavam exalando, que enchia o local rapidamente. Os engenheiros do Controle de Missões correram para encontrar uma solução e enviaram instruções ao grupo. 

Usando materiais que tinham na nave, como sacolas plásticas, fita e cartolinas, eles conseguiram construir uma conexão entre os tanques de hidróxido de lítio nos sistemas de módulo lunar e de comando. Esses tanques conseguiam limpar o dióxido de carbono e, dentro de uma hora, os níveis da substância no módulo lunar caíram.

Na Terra, as equipes de Controle de Missões faziam simulações para determinar como os astronautas poderiam reentrar na atmosfera da Terra e pousar. Nenhuma das simulações que antecederam a missão havia previsto isso.

Eles tiveram que ligar o módulo de comando novamente, abandonar o módulo de serviço morto e passar do módulo lunar de volta para o módulo de comando, para que também pudessem descartar o módulo lunar, já que por não ter escudo térmico ele seria inútil na reentrada.

Os astronautas precisavam ajustar o ângulo da nave em precisamente dois graus para evitar serem ricocheteados para fora da atmosfera ou queimar na reentrada, segundo Lovell. E eles precisavam fazer isso sem um computador.

Com base nas posições da Terra e do Sol, os três astronautas trabalharam juntos para ajustar o ângulo necessário. Quando os paraquedas da nave começaram a se abrir depois da reentrada, ouviu-se diversos aplausos no áudio do Controle de Missões.

Olhando para trás

“Você tem que ver o que tem e como pode voltar para casa”, disse Lovell. “Assim que superávamos uma crise após a outra, tentamos pensar positivo, até que finalmente conseguimos pousar.”

Ironicamente, a missão, considerada um "fracasso bem-sucedido" — já que os astronautas retornaram com segurança à Terra, apesar de o pouso lunar ter sido abortado —, chamou a atenção do público em geral para a Nasa e as viagens espaciais. 

Lições aprendidas com a malfadada Apollo 1 ajudaram a salvar os astronautas da Apollo 13. Após o incêndio da Apollo 1, foi feito um novo desenho da nave, com um novo esquema de fiação no módulo de comando. Assim, os fios eram à prova d’água nos módulos de comando e lunar, evitando uma queda de energia quando a água invadisse o local e a temperatura caísse, explicou Haise. 

Mas a lição mais importante que os astronautas aprenderam foi o que um verdadeiro trabalho em grupo pode fazer. “Aprendi que não se pode ter um problema, fechar os olhos e esperar que um milagre aconteça, porque o milagre é algo que você tem que fazer, ou ter pessoas que te ajudem”, disse Lovell.