Análise: smartphones podem estar colocando seus filhos em risco

Pesquisa com mais de 10 mil jovens mostra que acesso precoce a celulares está ligado a obesidade, depressão e problemas de sono

Kara Alaimo, da CNN
Professora da Universidade Fairleigh Dickinson ensina pais a gerenciar tempo gasto em frente às telas  • Unsplash
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Como muitos pais, Nicole Cannon enfrenta um dilema: se der ao filho de 13 anos o smartphone que ele tanto quer, teme que o aparelho monopolize sua atenção em detrimento de outras atividades, incluindo suas responsabilidades, tempo ao ar livre e até mesmo a necessidade de se alimentar.

Seu filho já possui um iPad, e Cannon percebe que ele frequentemente prefere usá-lo a sair para praticar esportes.

Consultora de sono residente em Cranbury, no estado norte-americano de Nova Jersey, Cannon também está preocupada que seu filho perca horas de sono. "E se ele estiver tendo picos constantes de dopamina com as coisas que faz no celular, e seu corpo não conseguir regular os hormônios do sono durante a noite?", questionou.

Por outro lado, ela acredita que seu filho estaria mais seguro em alguns aspectos com um smartphone. Agora que ele tem idade suficiente para sair sozinho com amigos, Cannon gostaria de ter uma forma de manter contato. Ele tem um relógio inteligente, mas nem sempre funciona.

"Minha preocupação é que às vezes não faço ideia de onde ele está", disse ela. "Esse é o conflito", explicou, dizendo que quer um telefone para poder rastreá-lo e manter contato quando for buscá-lo nas atividades, "mas não quero que ele fique viciado".

Independentemente da decisão que ela tomar, novas pesquisas sugerem que ela está certa em se preocupar. Adolescentes que recebem celulares em idades mais jovens têm maior probabilidade de desenvolver obesidade, depressão e não dormir o suficiente, segundo um estudo com mais de 10 mil jovens de 12 anos publicado nesta segunda-feira (1º) na revista Pediatrics.

"Muitos especialistas têm aconselhado os pais a adiarem o momento em que as crianças recebem seu primeiro smartphone devido aos possíveis danos à saúde dos adolescentes, mas até agora havia poucas evidências empíricas para apoiar esse conselho", afirmou por e-mail o Ran Barzilay, autor principal do estudo e psiquiatra infantil e adolescente do Hospital Infantil da Filadélfia. "Este estudo ajuda a preencher essa lacuna usando uma grande amostra nacional."

Barzilay, que também é professor assistente de psiquiatria na Universidade da Pensilvânia, disse que o estudo não analisou como as crianças usavam seus telefones ou quanto tempo passavam neles — fatores que também poderiam afetar sua saúde. Ele também afirmou que não há dados sobre a existência de padrões similares entre usuários de smartphones mais jovens e mais velhos.

Considere adiar a compra de smartphones

Este estudo é mais um motivo pelo qual acredito que os pais devem considerar adiar a compra de smartphones para seus filhos. Como já mencionei antes, existem outras formas de manter contato com as crianças, incluindo celulares simples e relógios. Também há outros meios para as crianças se comunicarem entre si, incluindo os tradicionais telefones fixos.

Para garantir que os smartphones não substituam o exercício físico quando as crianças os receberem, aconselho os pais a matricularem seus filhos em esportes organizados ou outras atividades físicas.

Embora seja fácil planejar atividades como caminhadas em família, frequentemente é difícil manter uma programação quando chove ou quando um amigo convida seu filho. Mas se você pagou por uma atividade extracurricular e um treinador e colegas de equipe contam com a presença do seu filho, é mais provável que mantenha o compromisso e garanta que seu filho pratique atividade física suficiente.

Outro benefício é que esse tipo de atividade tende a reduzir o tempo que as crianças passam nos smartphones. É praticamente impossível verificar o celular durante uma partida de futebol ou fazendo acrobacias na trave de equilíbrio. Se as crianças não se interessarem por esportes coletivos, há muitas outras opções para considerar — incluindo artes marciais, clubes de corrida ou ioga e outras aulas de exercícios no centro comunitário local.

Proíba celulares nos quartos

Barzilay recomendou manter os smartphones fora do quarto durante a noite para evitar que interfiram no sono. Pesquisas sugerem que o motivo pelo qual os smartphones interferem no sono das crianças é simples: elas os usam debaixo das cobertas.

Não dormir o suficiente coloca as crianças em risco de acidentes, dificuldades de aprendizagem e problemas de saúde — incluindo obesidade e depressão, segundo a Academia Americana de Pediatria.

Uma boa maneira de reduzir conflitos sobre o uso no quarto é designar um local central na casa onde todos — incluindo, sim, os pais — carregam seus telefones durante a noite.

Monitore a saúde mental do seu filho

Um dos motivos pelos quais os smartphones estão associados à depressão é provavelmente devido à cultura da comparação: nas redes sociais, as pessoas postam versões filtradas e glamourizadas de suas vidas. É fácil para qualquer pessoa — especialmente crianças impressionáveis e inseguras — cair na armadilha de sentir que não são boas o suficiente após consumir esse tipo de conteúdo.

Por isso é importante conversar com nossos filhos sobre por que eles não devem se comparar com o que veem online.

"Explique ao seu adolescente que ter um smartphone pode afetar sua saúde e que você quer ajudá-lo a desenvolver hábitos saudáveis com o celular", sugere Barzilay. "A cada algumas semanas, conversem juntos sobre como está o uso do aparelho."

Eduque seus filhos sobre o conteúdo que consomem online. Buscar conteúdo junto com eles pode ensiná-los a explorar temas saudáveis — como seus interesses e assuntos que consideram importantes. Também é uma maneira inteligente de informar aos algoritmos que seus filhos se interessam por determinados tópicos, aumentando a probabilidade de que conteúdos semelhantes sejam exibidos no futuro.

Ensine-os a evitar conteúdos inadequados ou prejudiciais à saúde mental, passando rapidamente por eles para sinalizar aos algoritmos que não há interesse.

Muitas crianças se envolvem em "dramas entre amigos" online — incluindo cyberbullying — que podem prejudicar sua saúde mental. Deixe claro que você está disponível para ajudá-los a lidar com situações delicadas sem julgamentos ou punições.

Certifique-se também de que os smartphones não substituam o tempo presencial com amigos, algo que as crianças precisam para serem saudáveis e felizes. Embora os pais frequentemente presumam que as crianças preferem ficar nas telas, elas dizem que muitas vezes não encontram amigos pessoalmente porque os pais não permitem.

É muito melhor para a saúde mental das crianças cultivar amizades com seus colegas do que passar o tempo rolando conteúdos de influenciadores que promovem imagens corporais e masculinidade tóxicas. Você pode até pedir que todos guardem os celulares durante o tempo juntos e incentivar brincadeiras ao ar livre, jogos de tabuleiro ou outras atividades.

Esta pesquisa mais recente confirma o que muitos já suspeitavam: ter smartphones muito cedo pode ser prejudicial para a saúde física e mental das crianças. Por isso, é importante considerar alternativas, especialmente para as crianças mais novas. Quando as crianças ganham smartphones, os pais também podem ser mais conscientes em proteger sua saúde mental e garantir que elas se exercitem e durmam o suficiente.

Esse conteúdo foi publicado originalmente em
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