Conheça o Projeto Athena, plano do indicado de Trump para o futuro da Nasa
Jared Isaacman, indicado por Trump para liderar a agência espacial, propõe mudanças controversas em documento de 62 páginas que veio a público

Um documento de 62 páginas escrito por Jared Isaacman, bilionário escolhido por Donald Trump para dirigir a Nasa, delineia um plano abrangente, ambicioso e por vezes controverso para a agência espacial.
Isaacman, que havia sido indicado para administrador da Nasa após a eleição de Trump em 2024, apenas para ver sua nomeação retirada meses depois, foi novamente indicado para o cargo máximo na última terça-feira (4).
Embora Isaacman tenha publicamente reconhecido a existência do documento vazado, datado de maio de 2025 e que chegou a diversos veículos de comunicação, ele afirmou em uma publicação nas redes sociais que "partes dele estão desatualizadas". Ele não especificou quais trechos estariam obsoletos.
Mesmo assim, o vazamento desencadeou uma onda de especulações sobre como a agência espacial funcionaria sob o comando de Isaacman.
Uma cópia do documento foi obtida e autenticada pela CNN.
Em sua declaração, publicada no dia de sua renomeação, Isaacman afirmou que o "Project Athena", como é intitulado o documento, "sempre foi pensado para ser um documento vivo, aprimorado através da coleta de dados pós-confirmação."
"Acredito que é melhor ter um plano ao assumir uma responsabilidade tão grande como a liderança da Nasa do que não ter plano algum", diz a declaração.
Entre os objetivos propostos estão a reformulação de alguns centros da Nasa para focar em propulsão elétrica nuclear, o estabelecimento de um novo programa de exploração de Marte e a adoção de uma filosofia de "acelerar/corrigir/eliminar" para remodelar a agência.
Se implementadas, muitas das políticas estabelecidas poderiam alterar significativamente o dia a dia dos funcionários da Nasa e transformar a agência de 67 anos.
"Acredito que está sendo apresentado um conjunto de mudanças mais dramático do que muitos na comunidade espacial esperavam", disse Casey Dreier, chefe de política espacial do grupo sem fins lucrativos de defesa da exploração Planetary Society, sobre o documento.
Alguns parlamentares também expressaram preocupação sobre como Isaacman poderia buscar reformar as instalações da Nasa em todo o país.
Isaacman ainda enfrenta uma votação de confirmação no Senado e precisaria de aprovação do Congresso para muitos dos objetivos delineados no documento.
Como CEO do setor de tecnologia — que fez sua fortuna fundando a empresa de pagamentos Shift4 aos 16 anos e já voou duas vezes para a órbita em missões autofinanciadas da SpaceX — Isaacman é uma escolha não convencional para o cargo máximo da Nasa.
Administradores de agências espaciais são tipicamente selecionados de um grupo de cientistas, engenheiros, acadêmicos e servidores públicos.
Mas Isaacman também conquistou amplo apoio dentro da indústria espacial comercial, onde é visto como um outsider energético pronto para conduzir a NASA a uma nova era.
Uma luta pelo poder
De acordo com uma fonte familiarizada com o assunto, o documento original do Project Athena tinha mais de 100 páginas. Isaacman fez apenas três cópias impressas de uma versão reduzida de 62 páginas e as distribuiu ao Secretário de Transportes Sean Duffy e seu chefe de gabinete
O vazamento — de acordo com um recente relatório do Ars Technica e uma fonte que confirmou o caso à CNN — parece ter sido parte de um esforço de Duffy, que está dirigindo temporariamente a Nasa, para provocar controvérsia e potencialmente impedir a renomeação de Isaacman.
A CNN havia informado anteriormente que Duffy manifestou privadamente seu interesse em manter o cargo de chefe espacial permanentemente, segundo uma fonte familiarizada com o assunto.
Um porta-voz de Duffy anteriormente negou que ele tenha manifestado desejo de permanecer no cargo de administrador da Nasa, e Isaacman disse em sua declaração nas redes sociais, publicada após o vazamento do documento "Projeto Athena", que acredita que Duffy tem "ótimos instintos e é um excelente comunicador". O porta-voz de Duffy não ofereceu comentários para esta reportagem.
"Se existe algum atrito, suspeito que seja mais por causa de operadores políticos causando a controvérsia", afirmou Isaacman.
Isaacman foi renomeado para o cargo na Nasa em 4 de novembro, um dia após as notícias sobre o documento Athena começarem a circular na imprensa.
"Acho que (as pessoas que vazaram o Projeto Athena) pensaram que isso causaria inquietação entre as delegações que se importam com voos espaciais tripulados", disse um ex-funcionário da Nasa, falando sob condição de anonimato para discutir um documento privado. "Posso dizer que não funcionou."
A CNN entrou em contato com cerca de uma dúzia de senadores cujos estados possuem centros da Nasa que poderiam sofrer grandes mudanças, de acordo com o documento do Projeto Athena. O senador Mark Warner da Virgínia e o senador
Chris Van Hollen, de Maryland — sede do Centro Espacial Goddard — ofereceu as respostas mais detalhadas.
Em comunicado, Van Hollen disse que se reuniu com Isaacman no início deste ano e "aguarda uma nova audiência para discutir com ele por que a próxima corrida espacial e a busca por planetas habitáveis passa por Maryland."
"Para proteger a liderança de inovação de nossa nação, ele precisa ser mais do que um mero avalista da abordagem draconiana da Administração em relação às nossas iniciativas de ciência espacial", afirmou Van Hollen.
Warner, cujo estado abriga o campus Langley da Nasa , instou Isaacman a "dialogar com o Congresso e reconsiderar qualquer plano que ameace essas instalações de classe mundial e as comunidades que dependem delas."
"As propostas relatadas para reduzir ou privatizar missões-chave em Langley e Wallops seriam um grave erro, colocando em risco capacidades científicas críticas e a força de trabalho talentosa cuja expertise mantém os Estados Unidos na vanguarda da pesquisa aeroespacial", diz o comunicado de Warner.
Nenhum legislador contatado pela CNN indicou como pretende votar na confirmação de Isaacman.
Uma missão a Marte e propulsão nuclear
Uma proposta surpreendente no Projeto Athena é estabelecer um novo programa para Marte, denominado "Olympus".
Grande parte dessa visão, segundo fonte familiarizada com o documento informou à CNN, tinha como objetivo alinhar a Nasa com o objetivo da SpaceX de enviar uma nave Starship não tripulada à superfície marciana no próximo ano.
O plano da SpaceX, que o CEO Elon Musk discutiu publicamente em maio, "seria uma missão praticamente gratuita que a SpaceX faria de qualquer maneira", disse a fonte. Segundo ela, a ideia era que a Nasa pudesse intervir para fornecer suporte através do programa Olympus com custo mínimo para os contribuintes.
O documento também inclui numerosas menções à criação de um programa abrangente para desenvolver propulsão nuclear elétrica — que envolve alimentar motores de espaçonaves com eletricidade proveniente de pequenos reatores nucleares. A tecnologia poderia um dia fornecer energia constante e duradoura para missões mais rápidas e flexíveis no espaço profundo, incluindo viagens a Marte.
Isaacman tem defendido publicamente a expansão dessa pesquisa, escrevendo em um artigo de opinião em agosto para o RealClearScience, em coautoria com Newt Gingrich, que a agência espacial deveria se concentrar em tarefas e pesquisas "que nenhuma outra agência, organização ou empresa é capaz de realizar."
A propulsão nuclear elétrica é um exemplo de tal área de foco, argumenta o artigo.
"Nossos competidores não estão esperando"
China e Rússia estão investindo pesadamente em tecnologias nucleares espaciais. "Se os Estados Unidos querem manter a liderança, a Nasa precisa enfrentar novamente os problemas difíceis e fazer o quase impossível", escreveram Isaacman e Gingrich no artigo.
De acordo com o documento vazado, o Projeto Athena também sugere estabelecer uma missão de demonstração para acoplar uma nave espacial de propulsão nuclear elétrica com um veículo tripulado em órbita.
A visão nuclear de Isaacman também propõe que os centros da Nasa que trabalham em projetos como o foguete Space Launch System — incluindo as instalações Marshall e Michoud no Alabama e Louisiana — redirecionem seu foco para o desenvolvimento de propulsão nuclear elétrica quando o programa SLS for concluído.
Quando procurado para comentar, um porta-voz do Senador Tommy Tuberville do Alabama disse que Tuberville ainda não se reuniu com Isaacman, mas que "certamente perguntará sobre Marshall".
A fonte familiarizada com o documento observou que ele foi elaborado na mesma época em que a Casa Branca de Trump redigiu a Solicitação de Orçamento do Presidente (PBR), que pedia o cancelamento do foguete SLS da Nasa e alguns outros grandes projetos que poderiam deixar vários centros da Nasa sem um programa principal.
A fonte disse que Isaacman começou a compilar o documento do Projeto Athena no final de 2024 e o atualizou conforme conversava com formuladores de políticas. A fonte também afirmou que Isaacman não ajudou a redigir o PBR.
Com o "Grande e Belo Projeto de Lei" deste verão estendendo expressamente o programa SLS por pelo menos as próximas quatro missões, parece que Isaacman pode adiar a implementação de um novo foco ousado na pesquisa de propulsão nuclear elétrica.
Isaacman disse em 4 de novembro nas redes sociais que espera concentrar-se nesses objetivos apenas após uma "base" de exploração lunar ter sido construída.
Para a lua
Quando o documento do Projeto Athena foi redigido no início de 2025, Trump já havia sinalizado um interesse renovado em Marte — chegando a mencionar a exploração do planeta em seu discurso inaugural, enquanto permanecia em silêncio sobre os esforços em andamento da Nasa para levar astronautas de volta à lua.
Isaacman ecoou as ambições marcianas de Trump durante uma audiência de confirmação em abril, dizendo que pretendia buscar a exploração do planeta vermelho em conjunto com o programa lunar da Nasa.
No entanto, pairavam questões sobre como ele financiaria tais projetos.
Nos meses seguintes, porém, a Lua emergiu como clara prioridade política em meio a uma renovada corrida espacial com a China, que pretende fazer seus taikonautas pousarem na superfície lunar até 2030.
O recente impulso para fortalecer as missões lunares da Nasa, incluindo um aporte de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 55 bilhões) que o Congresso concedeu aos esforços de voos espaciais tripulados da agência em julho, "traz clareza ao tema", disse Isaacman em sua declaração nas redes sociais.
Mas Isaacman está novamente na disputa pelo cargo máximo da Nasa em um momento em que os planos da agência para um pouso tripulado na Lua, chamado Artemis III, estão em transformação.
Mudanças nos planos lunares
A missão Artemis III, programada para ser lançada ainda nesta década, atualmente depende da Starship da SpaceX para transportar os astronautas da Nasa até a superfície lunar.
Mas alguns especialistas em políticas espaciais têm se mostrado cada vez mais preocupados que a Starship — o foguete mais poderoso já construído — seja grande, inovador e complexo demais para atender ao cronograma urgente da Nasa.
Duffy recentemente sinalizou disposição para retirar a SpaceX do projeto, dizendo que pediria à empresa e sua principal concorrente, Blue Origin, que demonstrassem como poderiam acelerar o desenvolvimento de seus respectivos módulos lunares.
Essas declarações provocaram uma resposta ácida de Musk, amigo de Isaacman, que se referiu ao líder interino da Nasa como "Sean Dummy" (Sean Idiota).
Isaacman não se pronunciou publicamente sobre se apoiaria o afastamento da SpaceX da missão Artemis III. Mas uma fonte familiarizada com o assunto disse que Isaacman expressou a intenção de fazer parceria com qualquer empresa que produzisse mais rapidamente um módulo lunar adequado para astronautas.
O plano do Projeto Athena "nunca favoreceu nenhum fornecedor específico, nunca recomendou o fechamento de centros, ou determinou o cancelamento de programas antes que os objetivos fossem alcançados", afirmou Isaacman em sua declaração nas redes sociais.
"O plano valorizava tanto a exploração humana quanto a descoberta científica", disse Isaacman
"Foi elaborado como ponto de partida para dar à Nasa, parceiros internacionais e ao setor comercial a melhor chance de sucesso a longo prazo."
Incerteza para a ciência
A fonte familiarizada com o Projeto Athena afirmou que alguns dos aspectos mais controversos do plano exigem mais explicações.
Um item do documento, por exemplo, afirma que Isaacman pretende "retirar a Nasado negócio de pesquisa climática financiado pelos contribuintes e deixá-lo para a academia determinar" — uma proposta que, segundo críticos, poderia prejudicar a capacidade do país de coletar dados ambientais cruciais.
O documento também delineia políticas semelhantes que poderiam ser aplicadas em várias iniciativas da Nasa, como recomendações para adotar o modelo de "ciência como serviço" em projetos futuros.
Tais medidas, que pedem aos pesquisadores que se concentrem na compra de dados do setor privado, poderiam representar uma mudança significativa para a agência.
Filosofias políticas semelhantes já foram testadas na Nasa, particularmente nos anos 1990 durante uma "reformulação melhor, mais rápida e mais barata", observou Dreier. Mas o entusiasmo diminuiu quando duas missões a Marte foram perdidas.
E a indústria espacial comercial pode não estar em condições de assumir todas as tarefas que o documento Athena de Isaacman sugere que pode, disse ele.
"Deposita muita fé no mercado comercial para entregar resultados de maneiras que ainda não foram totalmente testadas", afirmou Dreier.
A declaração de Isaacman nas redes sociais também reconhece que seu conceito de "ciência como serviço" "agitou as pessoas", mas esclareceu que pretendia focar na compra de dados de satélites de observação da Terra: "Por que construir satélites personalizados a um custo maior e com atraso quando você poderia pagar pelos dados conforme necessário de provedores existentes e redirecionar os fundos para mais missões de ciência planetária (como exemplo)?"
Isaacman também defendeu publicamente programas científicos como o Observatório de Raios-X Chandra, que estava programado para cortes orçamentários no PBR. E afirmou que estaria disposto a gastar seu próprio dinheiro para colocar o telescópio espacial Nancy Grace Roman em funcionamento. "Eu estava preparado para cobrir pessoalmente o custo do lançamento do Roman — se fosse isso que precisasse para chegar à ciência", disse Isaacman em uma postagem nas redes sociais em junho
Essa mesma promessa aparece no documento do Projeto Athena.
"Qualquer sugestão de que sou contra a ciência ou quero terceirizar essa responsabilidade é simplesmente falsa", afirma o comunicado de Isaacman de 4 de novembro.
Uma força de trabalho irritada
Entre outras propostas no documento do Projeto Athena, estão planos para acelerar a reorganização da Nasa. A agência já perdeu aproximadamente 4.000 de seus 18.000 funcionários como parte do programa de demissão diferida da administração Trump.
Em sua declaração nas redes sociais na semana passada, Isaacman disse que deseja se afastar de mudanças graduais e, em vez disso, implementar "uma única reorganização baseada em dados, com o objetivo de reduzir as camadas burocráticas entre a liderança e os engenheiros, pesquisadores e técnicos."
No entanto, mudanças extensivas podem desagradar ainda mais uma força de trabalho que já está abalada com os cortes orçamentários iminentes e com o que os funcionários descrevem como distrações políticas e comunicação desconexa da liderança.
O documento de Isaacman também detalha diversos outros planos para mudar o funcionamento da agência — como realizar uma ampla revisão dos conselhos e comitês da Nasa para suspender aqueles que "atrasam a tomada de decisões", e reimaginar a abordagem da agência espacial quanto à avaliação de riscos.
"Garantiremos que a segurança esteja na vanguarda de nossas decisões, mas cumprir a missão da Nasa significa aceitar que alguns riscos valem a pena", diz o documento.
O ex-astronauta da Nasa e consultor da SpaceX, Garrett Reisman, que há muito tempo afirma acreditar que a Nasa pode ter se tornado excessivamente avessa a riscos após o desastre da Columbia em 2003, disse à CNN em entrevista por telefone em 8 de novembro que ficou animado ao ver que Isaacman espera reavaliar esse aspecto da agência.
Ele acrescentou que seria imprudente começar a eliminar organizações de segurança — mas elas poderiam ser reformuladas para criar uma "tensão saudável" entre avaliadores de risco e engenheiros que buscam ultrapassar limites.
No entanto, ele alertou que "é realmente difícil saber no momento se você está indo longe demais ou não", disse Reisman.
"É algo muito difícil de fazer, então desejo boa sorte a ele."
Um líder de mudanças
Isaacman é geralmente bem visto em todo o setor espacial, onde tem sido amplamente considerado como um líder apaixonado capaz de implementar mudanças visionárias.
Em um comunicado por e-mail, Dreier, executivo da Planetary Society, reconheceu que o documento do Projeto Athena "foi preparado em uma era diferente." Desde então, a Nasa recebeu bilhões de dólares para projetos, incluindo exploração lunar, observou Dreier, e defensores da ciência demonstraram forte oposição aos cortes propostos por Trump em pesquisas.
A renomeação de Isaacman para o cargo de diretor da Nasa agora apresenta "uma boa oportunidade para discutir algumas dessas propostas, particularmente as relacionadas à ciência", acrescentou Dreier.
Em sua publicação nas redes sociais, Isaacman afirmou que, se o documento do Projeto Athena se tornar público, "defenderei seu conteúdo", acrescentando que acredita que "existem muitos elementos do plano que a comunidade espacial e a Nasa achariam empolgantes."
No entanto, ele não quis debater o plano "linha por linha enquanto a Nasa e o resto do governo passam por uma paralisação", segundo a publicação de 4 de novembro.
De maneira mais ampla, Isaacman sugeriu que pretende assumir o cargo na Nasa com a mente aberta e ajustar o curso com base no feedback recebido.
Em uma publicação nas redes sociais em junho, por exemplo, Isaacman escreveu que "não gostava" de ser abordado por "pessoas que se consideravam exclusivamente salvadoras da Nasa". Ele acrescentou: "Tenho pouco interesse em fazer o mesmo."


