Dinossauros de pescoço longo andavam sobre duas patas, revela estudo
Pesquisa investigou fósseis de sete espécies de saurópodes, os maiores dinossauros já relatados pela paleontologia

Cientistas investigam se os dinossauros de pescoço comprido, como o Brachiosaurus de "Parque dos Dinossauros", eram capazes de se levantar sobre duas pernas.
Um estudo recente, liderado por um pesquisador da Unesp (Universidade Estadual Paulista), utilizou simulações digitais para desvendar um mistério que intriga paleontólogos há anos.
Da ficção à ciência
No imaginário popular, os saurópodes — grupo de dinossauros que inclui os carismáticos "pescoçudos" — são sinônimo de imponência.
A cena de dois Brachiosaurus no filme de 1993, "Parque dos Dinossauros", de Steven Spielberg, capturou a atenção de gerações. O fato é que, apesar de sua fama em filmes e livros infantis, a maneira como esses gigantes se moviam ainda é um enigma para a ciência.
"No caso de dinossauros como o Tiranossauro Rex, temos aves como a avestruz que são parentes próximas, e isso nos ajuda a entender como eles andavam. Para os saurópodes, não existe nenhum modelo vivo", explica Julian C. G. Silva Júnior, pesquisador de pós-doutorado no Laboratório de Paleontologia e Evolução da Unesp em Ilha Solteira.
Gigantes em pé
Em sua pesquisa, Silva Júnior buscou responder uma questão antiga: esses animais, que incluem os maiores a já terem existido na Terra, seriam capazes de adotar uma postura bípede, levantando-se sobre as patas traseiras? Essa postura é comum em outros animais quadrúpedes para alimentação, acasalamento ou defesa.
Para testar a hipótese, o pesquisador, em colaboração com outros cientistas, utilizou uma técnica de engenharia conhecida como análise por elementos finitos (FEA), que permite simular forças e tensões em modelos digitais.
A equipe digitalizou e analisou os fêmures (ossos da coxa) de sete espécies de saurópodes, variando de animais menores, como o Neuquensaurus (cerca de 6 metros), a gigantes como o Dreadnoughtus (26 metros).
As simulações reproduziram dois cenários: um que considerava a massa total do animal sobre os fêmures (forças extrínsecas) e outro que analisava a tensão gerada pela musculatura (forças intrínsecas).
As "cicatrizes" deixadas por músculos nos ossos forneceram pistas para a simulação, permitindo que os pesquisadores modelassem a ação de nove músculos diferentes, incluindo o da cauda, o maior e mais estressante para o fêmur.
Nem todos com a mesma facilidade
Os resultados do estudo, publicados na revista científica Paleontology, sugerem que todas as espécies de saurópodes seriam capazes de se levantar sobre as patas traseiras. No entanto, a facilidade variava drasticamente.
O Neuquensaurus, de menor porte, apresentou menor estresse no fêmur e mais facilidade em se sustentar na posição. Já o colossal Dreadnoughtus enfrentava um estresse aproximadamente 16 vezes maior sobre o osso, indicando que a postura bípede seria um esforço muito mais raro para ele.
"Faz sentido que animais maiores tenham mais dificuldade para se levantar. Isso já era uma hipótese, mas nunca tinha sido testado para os saurópodes", diz Felipe Montefeltro, coordenador do Laboratório de Paleontologia e Evolução de Ilha Solteira.
Por que o esforço?
A necessidade de se erguer sobre duas pernas faria sentido no contexto do Período Cretáceo. A vegetação dominante, como as araucárias, podia chegar a mais de 40 metros de altura, exigindo que até os maiores dinossauros se esticassem para se alimentar.
Para os saurópodes menores, a postura bípede representaria uma vantagem, permitindo que alcançassem fontes de alimento menos disputadas nas partes mais altas das árvores.
Além da alimentação, os pesquisadores acreditam que a postura bípede também era utilizada para o acasalamento e para a defesa, permitindo que os animais intimidassem rivais ou predadores ao ampliar sua silhueta.
A pesquisa de Silva Júnior é um primeiro passo para criar um modelo biomecânico completo e detalhado desses gigantes. A falta de um animal vivo com características comparáveis aos saurópodes torna a investigação ainda mais fascinante. Como destaca Montefeltro, "estamos falando de animais terrestres que se aproximaram muito — em termos de tamanho — dos limites que a vida pode alcançar".


