Estudantes do ensino médio reformulam "disco da humanidade" da Nasa
Projeto contou com colaboração do designer do Disco de Ouro original, enviado ao espaço nas sondas Voyager em 1977; artefato foi lançado na época com intenção de se comunicar com possíveis formas de vida extraterrestre

Um grupo interdisciplinar formado por estudantes brasileiros e estadunidenses do ensino médio da Avenues São Paulo e da AEON School reformularam o Disco de Ouro da Voyager, enviado ao espaço nas sondas Voyager pela Nasa em 1977. O projeto foi apresentado durante a 13ª edição da Conferência Internacional sobre a Inspiração dos Fenômenos Astronômicos (INSAP), realizada em Belfast, Irlanda do Norte.
Inspirado nos discos idealizados por Carl Sagan, Jon Lomberg, Frank Drake e Linda Salzman Sagan, o novo projeto -- chamado "Golden Records 2.0" -- nasceu com o mesmo objetivo dos discos lançados na década de 70: encapsular a diversidade da vida e da cultura da Terra em um único artefato, com a intenção de se comunicar com possíveis formas de vida extraterrestre, além de provocar uma reflexão sobre quem somos enquanto humanidade.
A proposta, inteiramente idealizada e desenvolvida por alunos do ensino médio ao longo de três anos, uniu ciência, design, engenharia e filosofia. O grupo envolveu estudantes da Avenues São Paulo, New York, Shenzhen e da AEON School e estabeleceu parcerias com o Instituto Principia. O projeto ainda contou com a mentoria de professores, especialistas e do próprio Jon Lomberg, diretor de design do Disco de Ouro original.
O que foi o Disco de Ouro da Voyager, da Nasa?
O Disco de Ouro, conhecido em inglês como Golden Record, foi um disco de cobre folheado a ouro enviado a bordo das sondas espaciais Voyager 1 e 2, lançadas pela Nasa em 1977. O artefato funcionou como uma "cápsula do tempo", contendo seleção de sons e imagens que buscavam retratar a diversidade da vida e da cultura da Terra para qualquer civilização extraterrestre que pudesse encontrá-lo.
O disco inclui 115 imagens, saudações em 55 idiomas, uma variedade de sons naturais e uma seleção musical que ia de Bach a Chuck Berry. Atualmente, as duas Voyagers são as sondas que se encontram mais distantes da Terra, ultrapassando a fronteira do sistema solar.
"A inspiração para o projeto dos estudantes do ensino médio da Avenues nasceu justamente da ideia de criar uma representação da humanidade. Eles viram como uma oportunidade única de refletir sobre quem somos hoje, quase 50 anos depois", afirma Viviane Alves, professora da Avenues São Paulo e uma das mentoras do projeto, à CNN.
"O projeto original despertou nos alunos o desejo de não apenas homenagear aquele feito histórico, mas também de atualizá-lo com as tecnologias e as perspectivas do século XXI, questionando o que mudou em nossa compreensão de nós mesmos e do nosso planeta", completa.
Como o novo projeto foi feito?
Para atualizar a tecnologia de envio ao espaço, os alunos envolvidos no projeto firmaram uma parceria com a Microsoft, para que as informações sejam gravadas em uma placa de sílica, que está sendo desenvolvida pela empresa e possui a capacidade de armazenar uma grande quantidade de dados em um espaço extremamente reduzido.
Uma case — resistente à radiação espacial — que servirá como suporte moderno para o novo "disco" e as instruções para leitura desta placa foram desenhadas pelos alunos da Avenues The World School e da AEON.
O projeto envolveu quatro grandes desafios: a procura da parceria para um hardware adequado, a definição da linguagem para se comunicar com uma inteligência desconhecida; a curadoria do conteúdo representativo da Terra; e a criação de uma case protetora para garantir a durabilidade e para permitir acesso aos dados gravados do material no espaço.

"A placa de sílica pode conter uma quantidade de dados maior do que o disco original, permitindo uma representação muito mais rica e detalhada da humanidade. Por outro lado, criar imagens que expliquem, ou ao menos deem dicas de como decodificar as informações armazenadas, foi uma tarefa bastante complexa", afirma Alves.
"O resultado, desenvolvido pelos alunos de Nova York juntamente com Jon Lomberg, contém instruções de leitura, e deve ser esculpido na capa de alumínio protetora (também desenvolvida pelos alunos) que abrigará a placa de quartzo em sua jornada cósmica", completa a professora.
Em relação ao conteúdo selecionado para o novo disco, os alunos promoveram debates sobre o que define a humanidade atualmente, incluindo conquistas, falhas, diversidade e desafios como a crise climática e a era digital, segundo Alves. Além disso, os alunos entrevistaram a população nas ruas para tornar a seleção mais representativa.
"O resultado equilibra natureza, ciência, arte, e cotidiano, usando imagens e sons para refletir a sociedade global e o nosso ecossistema, com o objetivo de gerar uma reflexão sobre a mensagem que enviaremos ao futuro", afirma a professora.
"Por meio do projeto Golden Records 2.0, os alunos puderam explorar essa pergunta em múltiplos aspectos: científico, filosófico, arqueológico, histórico e até sentimental. O objetivo geral do projeto é criar uma mensagem que informe para civilizações extraterrestres sobre o planeta Terra e a humanidade que no planeta habita", finaliza.
O próximo passo do grupo é viabilizar o envio físico da placa para o espaço.


