Jogos em NFT, como Axie Infinity, movimentam economia durante a pandemia

O que era diversão agora se tornou trabalho com moedas virtuais valendo cada vez mais dinheiro real

Axie Infinity
Axie Infinity Axie Infinity/Divulgação

Naiara Albuquerquecolaboração para a CNN

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Milhares de jogadores estão ganhando dinheiro ao cuidar de monstrinhos virtuais.

Isso graças a jogos como Axie Infinity, que têm tecnologia baseada em tokens não fungíveis (NFTs), um tipo de criptoativo colecionável e único.

Axie Infinity foi desenvolvido pela empresa vietnamita Sky Mavis em 2018, mas só ganhou notoriedade nas Filipinas no ano passado e, mais recentemente, em outros países em desenvolvimento, como a Venezuela e o Brasil.

Inspirado na série de jogos Pokémon, o título permite que jogadores comprem, treinem, batalhem e vendam seus “Axies”, que se parecem com monstrinhos e que são vinculados às criptomoedas Axie Infinity Shards (AXS) e a Smooth Love Potions (SLP).

Conforme o jogador passa de fases, troca de itens e batalha com outros jogadores, ele consegue “minerar” mais moedas que, em última instância, podem ser trocadas por dinheiro real.

O game ainda está na versão beta e não tem data para lançar a final. Segundo dados do ActivePlayer.io, cerca de 40% dos jogadores estão nas Filipinas, seguido por Venezuela, Estados Unidos, Indonésia, Tailândia e Malásia — todos os citados, com exceção dos EUA, são países em desenvolvimento.

Em outubro, o jogo bateu o pico de jogadores, com mais de 2,2 milhões de usuários distribuídos pelo mundo.

No Brasil, o grupo de Facebook do jogo tem mais de 28 mil membros — eles também se encontram no Discord e Instagram.

Como entrar no Axie Infinity?

Os jogadores têm, principalmente, duas opções para entrar no game: comprando monstrinhos ou os alugando em esquemas chamados de “scholarship”.

Para comprar, o jogador precisa adquirir ao menos três Axies — e o valor deles normalmente começa em US$ 200 no momento da publicação desta reportagem. Portanto, quem quiser começar a brincadeira precisa desembolsar ao menos R$ 3,3 mil. Mas os valores podem ser muito superiores dependendo de quais Axies o jogador comprar.

Já nas scholarships, veteranos alugam seus monstrinhos para que novatos e sem capital inicial os treinem. Neste caso há uma divisão dos lucros: normalmente 60% fica com os donos, enquanto que 40% permanece com os jogadores, que entram com o trabalho e o desenvolvimento dos monstrinhos diariamente.

No grupo do Facebook, muitos jogadores publicam postagens à procura de scholarships.

O tempo livre para jogar o game (costuma variar entre 2h e 10h diariamente), a velocidade da internet e a experiência em outros jogos de NFT também são levados em conta.

Além dos jogadores, o interesse de especuladores também vêm crescendo no jogo.

Isso porque é possível comprar AXS em corretoras de criptoativos para apostar em sua valorização — o que também ajudou no aumento na procura de ativos e, consequentemente, nos preços dentro do game.

Cada Axie, ou monstrinho, é um NFT baseado em Ethereum, uma rede de blockchain lançada em 2015. Essa plataforma é descentralizada, não controlada por nenhuma entidade e executada em computadores espalhados pelo mundo.

Jornalista e doutor em ciência política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), João Kamradt se considera um entusiasta de criptomoedas e de tecnologias de blockchain.

Além de trabalhar com jogos play to earn (P2E, ou “jogue para lucrar”, em português) na Projog, uma gestora de investimentos focada em jogos blockchain, ele também estuda a aderência de jovens ao NFT. Além disso, agencia amigos e familiares no esquema de scholarships para o Axie.

O interesse no jogo veio por uma questão puramente financeira. Além das scholarships, ele presta consultoria sobre jogos NFT para uma startup.

“Sempre gostei de jogar videogame. Em março deste ano, comecei a jogar Axie Infinity pra valer. Quando entrei, a SLP valia cerca de US$ 0,03 e, depois, foi para US$ 0,40. Nesse período, vi gente ganhar R$ 5 mil em 15 dias. No Brasil de hoje, isso significa que você está nadando em dinheiro”, conta.

De acordo com informações do site Blockchaingamer.biz, os investimentos em jogos baseados em NFTs cresceram cerca de 6 vezes neste ano, para US$ 452 milhões ante US$ 71 milhões no ano passado.

O documento de fundação Axie Infinity mostra a vontade da empresa criadora do videogame em angariar cada vez mais jogadores. “Acreditamos em um futuro onde o trabalho e o lazer se tornem um só. Acreditamos na capacitação de nossos jogadores dando-lhes oportunidades econômicas. Acima de tudo, temos o sonho de que lutar e coletar criaturas fofas pode mudar o mundo”, diz o texto do documento divulgado pela Sky Mavis.

Heloísa Passos, 28 anos, fundadora de uma das maiores comunidades de Axie Infinity do Brasil, trabalhava como diretora criativa até se deparar com os jogos de NFT. “Quando entrei, tudo parecia mato. No ano passado, cerca de 7 mil pessoas jogavam [Axie Infinity] no mundo todo”. Hoje em dia, ela é uma das sócias da Sp4ce Games, startup focada em angariar jogadores profissionais para maximizar os ganhos de moedas ganhas no jogo.

Renda extra em tempos difíceis

Muitos dos jogadores adotaram o jogo com o intuito de garantir uma renda mensal em meio a crise social e econômica acentuada pela pandemia de Covid-19.

Hamilton Dangel, 31 anos, começou a jogar Axie Infinity após ficar desempregado em meio à pandemia.

Por causa do jogo,  criou um canal no YouTube no qual compartilha dicas para os novos usuários. “Axie Infinity tem sido meu emprego e minha fonte primária de renda. Conheci o jogo por causa de um amigo, que investiu cerca de R$ 10 mil. Com a renda que consegui, também comecei a investir em outros jogos NFT”, relata.

Assim como Dangel, Diogo Ferreira, de 39 anos, designer de games e sócio na SLP Hunters, começou a jogar Axie por causa do potencial de retorno rápido que o game apresentou. “É o jogo mais caro que conheço e, por isso, o considero não apenas como diversão, mas sim um negócio e investimento”, disse. Depois de quatro meses no Axie Infinity, Ferreira diz que reinvestiu todo o lucro que levantou.

E a regulação, como fica?

Antes de falar sobre a regulamentação de jogos NFT é necessário, primeiro, refletir sobre a regulamentação das criptomoedas como um todo, explica Raphael Souza, advogado especialista em criptomoedas.

Para ele, além da dificuldade em tributar essa tecnologia, existe ainda a necessidade de tratar eventual relação trabalhista proposta pelas scholarships. “A depender das exigências e dos contratos, pode se enquadrar como uma relação próxima de trabalho”, pontua.

Do lado tributário, a Receita Federal exige que a posse de criptomoedas  acima de R$ 5 mil fosse informada no Imposto de Renda.

Além disso, desde agosto de 2019 as operações que envolvem criptomoedas no Brasil devem ser reportadas ao órgão federal.

O reporte é feito diretamente por agências de câmbio. Já para operações fora das exchanges brasileiras, o próprio investidor deve fazer o reporte para transações acima de R$ 30 mil por mês e recolhimento de tributo se os valores negociados ultrapassarem R$35 mil reais por mês.

Ainda segundo a Receita Federal, os brasileiros movimentaram R$ 127 bilhões em criptomoedas em 2020. No período, 445 mil pessoas físicas e cerca de 6 mil empresas informaram transações com moedas virtuais.

Para Souza, é importante que investidores e jogadores sigam duas indicações simples na hora de começar a investir em criptos e jogos de NFT: “Não invista naquilo que você não conhece, estude. E é importante pesquisar as corretoras que têm o menor índice de reclamações. É possível checar isso no Reclame Aqui, por exemplo”, indica.

Em outros países, a regulamentação também começa a ser pautada. Em setembro deste ano, a China decidiu pela proibição da mineração de criptomoedas em todo o país. Após o anúncio, a bitcoin, maior criptomoeda do mundo, caiu 5%.

Em uma decisão parecida com a da China, a Nigéria decidiu pela proibição de instituições financeiras de processar transações com bitcoin.

Recentemente, o governo do país lançou a moeda digital eNaira, que é emitida pelo banco central do país e está submetida à taxa de câmbio.

Nas Filipinas, um dos países onde Axie Infinity é mais popular, os lucros provenientes do game serão taxados;

Do outro lado do balcão: os investidores

Ainda que bastante chamativo no papel, o Axie Infinity também apresenta seus pontos de atenção.

O game necessita de conhecimento prévio sobre o universo e as tendências do mercado de criptomoedas. Além disso, o investimento em uma única conta é alto.

Agora, para investidores de perfil arriscado, os jogos de NFT podem ser atrativos. É o que explica o advogado e investidor Luiz Felippe Quites, 33 anos. Em junho deste ano, quando ainda trabalhava em um escritório de advocacia, leu uma notícia sobre a adoção massiva do jogo nas Filipinas. Descrente no período, investiu cerca de R$ 6 mil em uma conta inicial do Axie Infinity. Pouco tempo depois, alocou R$ 70 mil em novas contas agenciadas para amigos e familiares. Mais recentemente, ele fundou a Khal Special Forces, uma organização focada em eSports e jogos NFT.

Na Khal Special Forces, cerca de 700 pessoas são agenciadas para trabalhar com o universo do Axie — e há uma fila de espera para 2 mil pessoas, conta Quites.

Todos os usuários são maiores de 18 anos e possuem um acordo firmado onde 45% do lucro gerado pelo jogo fica para os jogadores, enquanto o restante é desmembrado entre a empresa e os investidores, mas isso não é uma regra em todas as scholarships.

José Arthur, CEO da Coinext, uma corretora especializada em criptomoedas,  diz que os jogos NFT levaram muitos adultos desbancarizados em países em desenvolvimento, como Bangladesh e Filipinas, a terem acesso ao universo das criptomoedas. “Existe um aspecto social interessante nesses países. Inclusive pessoas que conseguiram trocar moedas do jogo por uma moeda fiduciária”, afirma.

Na Venezuela e nas Filipinas, há relatos de que o SLP do Axie Infinity começou a ser aceito como meio de pagamento corrente.

Mas afinal, é pirâmide?

Esse é um questionamento que circunda o universo dos games NFT e há jogadores que acusam o jogo de pirâmide entre as centenas de postagens da comunidade no Facebook. Isso porque, principalmente nos esquemas de scholarships, normalmente tem alguém no “topo” recebendo em cima de outros jogadores.

Para o professor de contabilidade e finanças da USP, Marcelo Botelho, não há muitas semelhanças entre o esquema de pirâmide e o jogo Axie Infinity.

Para ele, o principal ponto que costuma gerar esse tipo de reação é a falta de entendimento em relação à dinâmica de oferta e demanda apresentados. “A tendência de valorização do jogo se dá pelo aumento inflacionário de mais pessoas entrando. Toda moeda só tem valor quando é escassa”, reflete.

No Brasil, a Lei 1.521/51 define que o esquema de pirâmide é normalmente vendido como vantajoso, prometendo rendimentos surreais enquanto atraem novos investidores. No entanto, assim que novos aplicadores param de entrar, o sistema pode começar a colapsar. Os pagamentos param e quem está no topo ganha com base no dinheiro investido de quem perdeu na base — práticas que parecem distantes dessa definição.

Para o jornalista João Kamradt, a tecnologia de blockchain, que é seguida no jogo, é segura porque comporta todas as informações de negociações. “Para mim, o que assusta as pessoas é que o dinheiro não está centrado em um banco. Agora, como controlar o dinheiro do João se parte da minha renda vem de um token chamado poção do amor suave [SLP, sigla para Smooth Love Potions]?” questiona.

Para especialistas, o Axie Infinity se tornou um fenômeno por ser o primeiro jogo do tipo a “bombar” entre jovens de todos o mundo, mas não será o último. Existem outros jogos NFT que já estão no horizonte dos jogadores.

Além disso, Andrew Wilson, chefe da Electronic Arts (EA), defendeu nesta semana que os NFTs e os games que pagam usuários para jogar, são “uma parte importante do futuro da indústria”.

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