Propulsor do foguete Falcon 9 poderá colidir com a Lua nas próximas semanas

O pedaço do foguete Falcon da SpaceX foi usado em 2015 para lançar o Observatório Climático do Espaço Profundo dos EUA (DSCOVR, na sigla em inglês) e tem flutuado na parte externa do sistema Terra-Lua desde então

Falcon 9, que poderá se chocar com a Lua, pertence à SpaceX
Falcon 9, que poderá se chocar com a Lua, pertence à SpaceX Marcello Casal JrAgência Brasil

Katie Huntda CNN

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Um impulsionador de foguete à deriva pode colidir com a Lua nas próximas semanas, dizem especialistas do espaço, um evento que poderia deixar uma cratera no lado oculto da Lua.

O pedaço do foguete Falcon da SpaceX foi usado em 2015 para lançar o Observatório Climático do Espaço Profundo dos EUA (DSCOVR, na sigla em inglês) e tem flutuado na parte externa do sistema Terra-Lua desde então.

Bill Gray, um pesquisador independente com foco em dinâmica orbital que foi o primeiro a divulgar a colisão iminente, disse que, de acordo com seus cálculos, o pedaço do foguete atingiria a Lua um pouco ao norte de seu equador “a cerca de um minuto” das 07:26 da manhã no horário do leste dos EUA (09:26 no Horário de Brasília), do dia 4 de março. O jeito com o qual o objeto está se movendo torna difícil apontar a localização exata, acrescentou, embora seja provável que mude apenas por alguns quilômetros.

“No momento, nós não podemos obter mais dados porque o objeto está bem próximo do sol no céu. Nos dias 7 e 8 de fevereiro, nós teremos uma breve oportunidade de observá-lo e obter mais dados, assim a data e a localização informada anteriormente poderá ser melhor determinada”, escreveu Gray por e-mail.

Embora, às vezes, veículos espaciais intencionalmente atingem a Lua no final de uma missão lunar, por exemplo, detritos espaciais atingindo aleatoriamente a Lua não é comum, disse Holger Krag, chefe do Gabinete de Detritos Espaciais da Agência Espacial Europeia.

É mais seguro para o pedaço do foguete, que tem 15 metros de comprimento, colidir com a Lua do que fazer uma entrada descontrolada na atmosfera da Terra, disse Krag. O impulsionador de foguete pesa cerca de 3 a 4 toneladas.

“A peça seria descartada permanentemente. Do ponto de vista da segurança, essa é realmente a forma mais segura de descartá-lo. Deixá-lo à deriva em uma órbita ao redor do Sol não garante que ele não será capturado novamente pela Terra um dia”, complementou.

“Administrar o retorno da peça para reentrar na atmosfera de forma controlada e segura é extremamente complexo. O descarte na superfície lunar ainda é o mais seguro.”

Objetos do espaço profundo

Existem cerca de 30 a 50 objetos perdidos no espaço profundo, como o pedaço do foguete Falcon, que estão desaparecidos há anos, mas nenhuma agência espacial tem sistematicamente rastreado esses detritos espaciais tão distantes da Terra, disse Jonathan McDowell, um astrônomo no Centro de Astrofísica Harvard e Smithsonian.

“Essa é a primeira vez que algo não direcionado à Lua foi notado por acidentalmente atingi-la, mas isso é principalmente pelo fato de que não estávamos prestando atenção até recentemente”, escreveu por e-mail.

Colisões não intencionais de partes de foguete com a Lua podem ocorrer com mais frequência no futuro, disse Krag, com mais missões fazendo uso dos pontos Lagrange — pontos de equilíbrio a mais de 1 milhão de quilômetros da Terra, onde as forças gravitacionais do sol e da Terra são mais ou menos equilibradas. Veículos espaciais, como o recém lançado Telescópio James Webb, geralmente são lançados nesses pontos, onde não precisam de muito impulso para permanecer em órbita.

McDowell disse em seu blog que a órbita do impulsionador de foguete era “um tanto caótica”, pois foi afetada ao longo do tempo pela gravidade lunar e solar, assim como pela gravidade da Terra também.

Ambos Krag e McDowell disseram que não existem diretrizes claras para agências e empresas espaciais para lidar com essas situações, e o descarte desses lançadores, veículos espaciais e satélites é difícil.

“O tráfego no espaço profundo está aumentando”, disse McDowell. “E não são apenas os EUA e [Rússia] que estão enviando coisas para o espaço, são vários países e até mesmo empresas comerciais como a SpaceX. Então, eu acho que é o momento para o mundo levar mais a sério a regulamentação e a catalogação de atividade no espaço profundo.”

“Isso não é ‘A SpaceX fez algo de ruim’” — é uma prática perfeitamente comum abandonar coisas em órbita profunda”, acrescentou.

A SpaceX não respondeu imediatamente ao e-mail pedindo por comentários.

Krag disse que a colisão pode ser uma oportunidade científica.

As nuvens de poeira resultantes de um impacto podem ser analisadas em busca de pistas sobre a composição da superfície lunar. Gray disse que orbitadores, como o veículo Chandrayaan-2 da Índia, podem também capturar imagens da cratera que se formará, dando um vislumbre de um solo lunar recém-exposto de um metro ou dois de profundidade — uma chance rara de olhar abaixo da superfície da Lua.

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