Bares e restaurantes do Rio tentam virar o jogo depois de inverno atípico

Sequência de dias frios e temporais em 2025 comprometeu resultado de estabelecimentos a céu aberto; perspectivas para a estação mais quente do ano são positivas

Daniel Salles, colaboração para o Viagem & Gastronomia
Rio de Janeiro
Rio vê no verão chance de recuperar perdas do inverno no setor gastronômico  • Unsplash/Krys Amon
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Em uma cidade conhecida pela disposição quase infinita dos moradores em passar o maior tempo possível fora de casa, cercada por cartões-postais moldados pela natureza, a chuva e o frio costumam ser motivo de apreensão para bares e restaurantes. Falamos, claro, do Rio de Janeiro, que, assim como outras cidades do país, enfrentou em 2025 um inverno atípico, marcado por temporais intensos e temperaturas abaixo do habitual.

“Sempre que chove ou faz frio, o movimento das nossas lojas a céu aberto cai”, afirma Luciana Palhares, uma das diretoras da Geneal, rede cujo carro-chefe é o clássico cachorro-quente servido com um fio de mostarda. As unidades instaladas no Pão de Açúcar, no Cristo Redentor e no Zoológico do Rio de Janeiro estão entre as mais bem-sucedidas da marca. Ainda assim, essas três, assim como as demais operações ao ar livre, faturaram cerca de 20% a menos do que o normal durante o inverno prolongado deste ano.

Para alívio de Luciana, quase metade das 13 unidades da Geneal funciona em shoppings centers, espaços que costumam se beneficiar do mau tempo. “Quando chove, os cariocas não sabem muito bem o que fazer”, diz ela. “E muitos vão para os centros de compras.” O resultado é claro: em dias frios ou chuvosos, as lojas da rede localizadas nesses ambientes chegam a faturar até 30% a mais.

Fundada em 1963, a Geneal foi adquirida pela Brahma em 1985, portanto 14 anos antes da fusão com a Antarctica. Nos anos 1990, a marca passou para as mãos da Wal Petróleo, que pretendia expandi-la por meio de lojas de conveniência em postos de gasolina. O terceiro proprietário foi Dimas Corrêa Filho, pai de Luciana, que comprou a rede em 1999. A expectativa agora é de recuperação. Segundo ela, o faturamento perdido durante o inverno e os dias de chuva deve ser compensado ao longo do verão. Para isso, a marca programou uma série de eventos no fim da tarde nas unidades a céu aberto. Além do cachorro-quente, a Geneal aposta em itens refrescantes como açaí e mate.

Enquanto casas como o Bar Urca e o Café 18 do Forte dependem fortemente do bom tempo, por razões evidentes, outros estabelecimentos dizem sentir pouco impacto das variações climáticas. É o caso do Satyricon, em Ipanema, um dos restaurantes de peixes e frutos do mar mais cultuados da cidade. Referência em cozinha mediterrânea, a casa costuma ficar cheia faça chuva ou faça sol. “O tempo influi muito pouco, assim como as estações do ano”, afirma o restaurateur Bruno Tolpiakow, um dos proprietários. A família também é dona da pizzaria Capricciosa, no mesmo bairro.

Feijoada no Café 18 do Forte • Divulgação
Feijoada no Café 18 do Forte • Divulgação

Ainda assim, o verão tende a impulsionar o movimento dos dois restaurantes por atrair um número maior de turistas. “Entre dezembro e fevereiro, a clientela que não mora na cidade chega a 30%”, diz Tolpiakow. “No resto do ano, ela gira em torno de 15%". Para receber esse público, ele garante não fazer mudanças específicas. “Nosso cardápio não é sazonal”, explica. “O fundamental é lembrar que a comida representa, no máximo, 60% da experiência. O restante vem da ambientação, da hospitalidade e até do cuidado no serviço. Para manter a casa cheia, não dá para descuidar de nenhum desses pontos”.

Na avaliação do chef Luiz Petit, o maior desafio recente para o setor, pelo menos quando o assunto é clima, tem sido a chuva. “O frio influencia o tipo de comida que o carioca pede, mas raramente o impede de sair de casa”, diz. “Já a chuva é diferente. Ela costuma fazer com que muita gente desista". Petit é um dos sócios do grupo responsável pelos izakayas Pabu e Kō Bā, pelo restaurante de comida brasileira Maria e o Boi, pela cafeteria Verso, pelo bar Baduk e pela tasca Bar de Sto. Antônio, todos no Rio de Janeiro, entre Leblon e Botafogo.

Ele observa que grandes eventos, como o show da Lady Gaga em Copacabana, em maio, e o de Dua Lipa, em novembro, ajudaram a aumentar o fluxo de turistas na cidade. “É nítido o quanto essas atrações impactam positivamente o movimento das nossas casas”, afirma. De olho na alta temporada, o grupo renovou o cardápio do Kō Bā, em Ipanema. “Neste ano, fui ao Japão e, pela primeira vez, durante o verão”, conta Petit. “Isso me permitiu trazer muitas ideias novas, que combinam melhor com essa época". Já o Maria e o Boi ampliou a oferta de vinhos nacionais, incluindo rótulos mais leves e refrescantes, perfeitos para os dias quentes.

Para Fernando Blower, presidente do SindRio, o Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro, a cidade vive um momento de destaque no cenário internacional, o que é extremamente positivo para o turismo. “Os estabelecimentos voltados ao público de fora encontram hoje um contexto muito favorável”, avalia. “E 2026 promete ser ainda melhor, com uma grande quantidade de feriados prolongados, períodos em que o Rio costuma ficar lotado de visitantes".

Aos bares e restaurantes que desejam ampliar o faturamento durante a alta temporada, Blower recomenda planejamento. “É fundamental investir no treinamento das equipes, considerando que muitos clientes dessa época nunca estiveram ali antes”, sugere. Ter funcionários fluentes em inglês é o ideal. Quando isso não for possível, oferecer um cardápio nesse idioma é o mínimo. Apenas com um cuidado essencial: nada de traduzir contra filé como “against fillet”. Para quem quiser se preparar melhor, o SindRio promove cursos de inglês voltados ao atendimento em bares e restaurantes.

 

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