Natal: como não errar na harmonização de vinhos e espumantes

Comidas típicas do período vão muito bem com vinhos, mas é preciso ter certos cuidados na hora das combinações

Stêvão Limana, colaboração para o Viagem & Gastronomia
Harmonização de vinhos na ceia de Natal
Confira opções de vinhos para entrada, principal, acompanhamentos e sobremesa na ceia de Natal  • Unsplash
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A união do vinho à mesa durante as refeições é um artefato milenar da cultura ocidental que, recentemente, até gerou um novo vocábulo na língua portuguesa: a “enogastronomia”.

A arte de harmonizar alimentos e bebidas pode tornar a experiência inesquecível, ampliando a compreensão dos sabores e aromas, especialmente em datas tão emblemáticas para as famílias como o Natal.

Entretanto, nem todo vinho é compatível com o prato que você está imaginando. É preciso atenção aos ingredientes, molhos, sensações gustativas e texturas. Aliás, esse é o principal desafio de um sommelier.

A “harmonização perfeita” deve proporcionar, em boca, um casamento harmonioso, seja pelo acréscimo de sabores, pelo realce das intensidades ou pelo equilíbrio das texturas. Olhando assim, pode até parecer complexo, mas a prática deixa tudo mais claro.

Antes de conhecer as principais harmonizações ditadas pela enogastronomia, receba seus convidados com uma taça de espumante de boas-vindas e faça um brinde de cordialidade e alegria. A seguir, confira as principais comidas servidas na data e saiba como harmonizá-las:

1. Tábua de frios, queijos, nuts e canapés

Uma das entradas mais práticas e comuns dos Natais brasileiros pede vinhos brancos como Chardonnay, Verdejo ou Sauvignon Blanc com passagem por barricas de carvalho francês. O tempo de maturação leva nuances de dulçor à bebida, combinação ideal com queijos como Brie, Tomme Vaudoise e outros de massa mole.

O mesmo vale para canapés feitos com base de ricota, fios de ovos, atum ou frango. Você até pode servir vinhos tintos leves, mas de jeito nenhum utilize espumantes; eles não costumam se dar bem com queijos.

  • Sugestão de prato e rótulo: experimente queijo brie envolto em massa folhada assada com toques de mel e nuts. Na taça, escolha o Gran Reserva Chardonnay da Famiglia Veadrigo, sediada em Flores da Cunha (RS). O rótulo faz parte da Indicação de Procedência Altos Montes.

2. Salpicão, canudinho, saladas de maionese e arroz à grega

Salpicão é uma das receitas mais emblemáticas do Natal brasileiro • Divulgação/Felipe Caputo
Salpicão é uma das receitas mais emblemáticas do Natal brasileiro • Divulgação/Felipe Caputo

Se você quer dar protagonismo às guarnições, vale investir em um bom vinho. Aqui, a preferência deve ser pelos espumantes brancos de alta acidez, os chamados Blanc de Blancs feitos pelo método tradicional ou charmat longo.

Escolha os rótulos Brut e Extra-Brut, pois contêm pequenas quantidades de açúcar adicionadas após a segunda fermentação e conseguem equilibrar o dulçor da maionese e das uvas-passas.

  • Sugestão de rótulo: Com ótimo custo-benefício, vale apostar nos espumantes brasileiros da denominação de origem Altos de Pinto Bandeira, como o Stravaganzza, da vinícola Don Giovanni, que possui 12 meses de autólise.

3. Frango caipira, faisão, marreco recheado, codornas

Aves de sabor mais intenso pedem vinhos mais estruturados, com maior concentração. Mas aqui, ainda continuamos no universo dos vinhos brancos. Tenha apenas cuidado com molhos muito marcantes que possam acompanhar as proteínas.

A França é um paraíso para esse tipo de harmonização, com os tradicionais Chablis da Borgonha e os Savagnin do Jura. Também vale apostar em um Albariño espanhol. Caso você escolha uma safra mais antiga, os toques leves de oxidação podem harmonizar muito bem com a untuosidade da proteína frita.

  • Sugestão de rótulo: A indicação para esses preparos vem do Minho, região típica dos vinhos verdes. O rótulo Muros Antigos, assinado pelo enólogo Anselmo Mendes, proporciona notas cítricas e de frutas brancas, com acidez constante e leve frescor.

4. Aves natalinas

Se servido só com farofa e legumes, peru assado pode harmonizar com vinho branco de boa acidez • Claudio Schwarz/Unsplash
Se servido só com farofa e legumes, peru assado pode harmonizar com vinho branco de boa acidez • Claudio Schwarz/Unsplash

Chester, peru assado ou tender não são pratos tão comuns no cotidiano dos brasileiros, mas são muito aproveitados na ceia de Natal. Na hora de harmonizar, precisamos levar em consideração os temperos e os molhos utilizados na preparação.

Se forem servidos sozinhos, acompanhados apenas de farofa e legumes, continue com vinhos brancos de boa acidez, como os produzidos nas regiões de altitude de Santa Catarina ou nas montanhas chilenas.

Caso haja algum molho mais potente, um tinto de corpo leve será o ideal. Experimente o corte GSM (Grenache, Syrah e Mourvèdre) da região sul do Vale do Rhône. O blend também é bastante difundido na Austrália e na Nova Zelândia.

  • Sugestão de rótulo: Com taninos macios e aromas intensos de frutas vermelhas frescas, a sugestão é o Côtes-du-Rhône Rouge “Belleruche”, da Maison Michel Chapoutier, um dos maiores nomes do vinho das últimas décadas.

5. Bacalhau, peixes e frutos do mar

Além da Páscoa, o Natal também tem uma grande variedade de pratos que levam bacalhau, peixes e frutos do mar. Para a harmonização, não escolha vinhos tintos. Dê preferência aos bons vinhos brancos da sua adega e aos espumantes feitos pelo método tradicional ou aos próprios champanhes.

Além das borbulhas, um rosé também pode combinar muito bem, principalmente aqueles produzidos por prensagem direta. A vinícola Garzón, por exemplo, faz ótimos rosés gastronômicos. Já no velho mundo, para não errar, basta visitar os rótulos da Provence, terra dos rosés.

  • Sugestão de rótulo: Pontuado com 90 pontos por Robert Parker e 92 pontos pela revista Wine Enthusiast, a recomendação é o Château Roubine Cru Classé Cuvée Premium Rosé, que custa, em média, cerca de R$ 300 no Brasil. O vinho possui notas de frutas vermelhas frescas, como morango, além de toques florais e acidez presente.

6. Porco à pururuca e carnes vermelhas assadas

Em alguns estados brasileiros, a ceia natalina tem muita carne. Nesse contexto, o porco assado ou à pururuca ganha adeptos. Para esse cardápio, o coringa da harmonização são os espumantes com pouca quantidade de açúcar adicionado (Brut, Extra-Brut e Nature), feitos pelo método tradicional, de preferência mais jovens.

Com a gordura da carne suína e a crocância do pururucado, vale apostar em um Blanc de Noir, espumantes produzidos com uvas tintas vinificadas como brancas.

  • Sugestão de rótulo: A dica de harmonização é um espumante da D.O. Altos de Pinto Bandeira, produzido pela vinícola Valmarino, safra 2021. O rótulo é assinado pelo enólogo Marcos Salton e possui 22 meses em contato com as leveduras. No paladar, é intenso, cremoso e com acidez persistente. Possui aromas que lembram baunilha e mel, que combinam muito bem com o leve dulçor da carne de porco.

Caso a sua churrasqueira ou forno forem funcionar para assar carnes vermelhas, a sugestão é optar por tintos de corpo médio ou alto. Como você irá comer outros pratos durante a ceia, não é uma boa ideia escolher vinhos superpotentes.

  • Sugestão de rótulo: Nesse caso, a sugestão é uma das grandes descobertas de 2025, um vinho feito com a uva Rebo (cruzamento de Merlot com Teroldego) da vinícola gaúcha Campestre. O vinho é fermentado dentro da própria barrica e possui estágio de 18 meses em carvalho francês da tanoaria Seguin Moreau. Tem notas de frutas negras, especiarias e um fundo mentolado. Em boca, apresenta acidez vibrante e taninos macios, ideal para acompanhar carnes magras e até embutidos defumados.

7. Panetone, chocotone e stollen

Panetone pode cair bem com Moscatel • Unsplash
Panetone pode cair bem com Moscatel • Unsplash

Pode até parecer antiquado, mas a harmonização de um bom panetone com uma taça de espumante Moscatel é uma das melhores combinações possíveis. As frutas cristalizadas e o aroma de especiarias do tradicional doce natalino encontram eco na diversidade de notas derivadas da fermentação da uva Moscato.

Só tenha cuidado ao beber o espumante somente com doces. Prefira consumi-lo como aperitivo ou com a sobremesa. Se misturar com comida salgada, não vai funcionar.

Vale lembrar que o Brasil é o paraíso dos Moscatéis, especialmente os produzidos nas regiões de Farroupilha e Garibaldi, no Rio Grande do Sul.

  • Sugestão de rótulo: O Espumante Courmayeur Moscatel tem bom custo-benefício. Possui notas florais de jasmim e frutas de polpa branca, além de acidez alta, que equilibra o dulçor e impede que a bebida se torne enjoativa. O corte é feito com Malvasia Aromática, Moscato Branco e Moscato Giallo.

Caso você queira ir além, vinhos de sobremesa de colheita tardia ou botrytis também fazem bonito.

8. Pavê, tortas e chocolates

Quem disse que sobremesa não precisa de harmonização está perdendo uma ótima oportunidade. Imagine provar aquele pavê caseiro com uma taça de vinho do Porto. É sucesso garantido.

Como via de regra, chocolates com até 80% de cacau harmonizam muito bem com Porto. Se o chocolate for ao leite, opte por um Ruby; caso contrário, aposte em um bom Tawny.

  • Sugestões de rótulos: Com plantio, colheita e vinificação minuciosos, o Porto Tawny 10 anos da Menin Douro Estates é um exemplo de equilíbrio entre acidez, taninos e doçura em vinhos fortificados. Outro vinho que harmoniza muito bem com chocolates é o Banyuls, um fortificado do Languedoc, na França. A bebida apresenta notas de caramelo, nozes e castanhas.

Quantos vinhos são necessários para harmonizar a ceia?

Ao longo do texto, fica claro que diferentes pratos pedem diferentes vinhos. Mas não há motivo para confusão, portanto, nada de sair comprando inúmeras garrafas para poucas pessoas.

Dê preferência a três escolhas: um espumante, um vinho que harmonize com o prato principal e outro para a sobremesa. Assim, a sua ceia de Natal ao lado da família, amigos e bons vinhos será inesquecível.

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Stêvão Limana

O jornalista Stêvão Limana • Divulgação
O jornalista Stêvão Limana • Divulgação

Stêvão Limana é jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pós-graduado em enologia, postulante a sommelier profissional e maratonista nas horas vagas. Na TV, fala sobre política e eleições, enquanto na internet foca em vinhos e gastronomia.

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