Vinícola “cinematográfica” nasce entre montanhas e vinhedos do RJ
Empreendimento da família Maturano, em Teresópolis, aposta em arquitetura, tecnologia e ousadia para reforçar o enoturismo brasileiro em 2026

Entre montanhas e paisagens cinematográficas, em uma das áreas mais altas da Serra Fluminense, encontra-se um complexo turístico cercado por vinhedos cultivados em espaldeira e marcado por rigor arquitetônico, pensado para integrar a beleza construída com a natureza ao redor.
Inaugurada ao público no final de outubro de 2025, a vinícola Maturano surge como um reforço de peso para o potencial vitivinícola brasileiro. O empreendimento de investimento milionário ajuda a reconfigurar o cenário do enoturismo no Sudeste.
Logo ao se aproximar do interior de Teresópolis, a cerca de 126 quilômetros da capital fluminense, é possível concluir rapidamente que não faltou ousadia à família Maturano em nenhuma etapa do projeto, da concepção arquitetônica ao resultado do vinho na taça.
O complexo é formado por dois pavilhões. Ambos respeitam do início ao fim a topografia local, marcada por relevos montanhosos ricos em granito. O primeiro, logo na entrada, é destinado a eventos e reuniões corporativas, além de abrigar um hangar e um heliponto.
Mais à frente, no topo da colina, estão as instalações principais, onde a “mágica” acontece. A estação de vinificação, localizada na parte subterrânea do prédio, reúne tecnologia de ponta. Tanques de aço inox computadorizados dividem espaço com ovos de concreto e com a tradição representada pelas ânforas italianas.
Os vinhos levam a assinatura da enóloga gaúcha Monica Rossetti, conhecida pelo trabalho de sucesso na formação da vinícola Lidio Carraro e pela passagem pela vinícola italiana Ferrari Trento. Radicada na Itália, a profissional busca mesclar o melhor dos dois mundos em um terroir brasileiro que ainda está sendo descoberto.
Diferente de boa parte das vinícolas fora do Sul do Brasil, a Maturano decidiu, mais uma vez, ousar também no campo e diversificar as técnicas utilizadas. A casa aposta na colheita de verão para uvas brancas destinadas à produção de espumantes e na colheita de inverno, por meio da técnica da dupla poda, para as demais variedades.

No início de 2026, a vindima de verão já resultou em cerca de 12 toneladas de uvas por hectare, algo em torno de três quilos por planta. São números consideráveis para um solo granítico, com pH ácido de mediana alta, características ideais para a elaboração de espumantes com segunda fermentação em garrafa.
O granito, historicamente, obriga as raízes das videiras a buscarem maior profundidade. Embora exija mais trabalho no manejo, já que a água e os nutrientes drenam rapidamente, o solo resulta em plantas mais resistentes ao calor e à umidade, além de imprimir sutis toques de mineralidade, permitindo explorar a pureza do terroir.
Segundo o proprietário do complexo turístico, Marcelo Maturano, o projeto era um sonho antigo. Atuando há décadas no setor de empreendimentos imobiliários, residenciais e industriais, o empresário reuniu toda a experiência e o “know-how” acumulados para selecionar cada material e cada composição, buscando uma construção harmônica e uma “realização total”.
O domínio do tempo também foi decisivo para um plano tão ousado. Foram cerca de cinco anos desde o início das obras até a abertura das portas ao público. Dar “tempo ao tempo” foi fundamental para compreender o terroir.
Inúmeros testes foram realizados, castas adaptadas e mostos fermentados, com uma aposta desde o início: um rótulo puro-sangue. Após dois anos de tratativas e adequações fitossanitárias, as mudas da centenária uva italiana Maturano Bianco chegaram a Teresópolis e começaram a ser cultivadas. A ideia é utilizá-las tanto na produção de vinhos brancos com maturação em ânforas quanto na elaboração de espumantes.
Como o processo enológico é contínuo, poucas garrafas ainda estão disponíveis para venda na sede da vinícola. A estratégia da família é ganhar o mercado nacional a partir de um número consistente de rótulos descansando nas caves, algo que, no mundo do vinho, naturalmente exige tempo.
Para os visitantes, o tour permite conhecer de perto os vinhedos e as instalações, participar de experiências sensoriais, realizar refeições no restaurante Origens, que privilegia ingredientes cultivados na própria propriedade, e encerrar o dia em clima contemplativo. Todas as informações e preços podem ser consultados no site.

A vinícola também ergueu uma capela, construída para receber os fiéis cristãos. O interior privilegia a iluminação solar natural, que incide diretamente sobre a cruz, símbolo central da religião. As paredes ganharam grafites de arte sacra que reinterpretam a “Santa Ceia”, assinados pelo artista Atos Juan.
Por um lado, a inspiração é divina. Por outro, é o exemplo de uma família que apostou em um universo tão encantador quanto o mundo do vinho.
Vinícola Maturano
Estrada Teresópolis - Friburgo KM 23, Teresópolis - RJ / Tel.: (21) 99901-2323 (WhatsApp) / Informações sobre visitas podem ser consultadas no site.
*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.
Sobre Stêvão Limana

Stêvão Limana é jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pós-graduado em enologia, postulante a sommelier profissional e maratonista nas horas vagas. Na TV, fala sobre política e eleições, enquanto na internet foca em vinhos e gastronomia.


