Comissários de bordo viralizam com rotina nas redes e acumulam milhões de views

Com conteúdos que ultrapassam milhares de curtidas, comissários brasileiros mostram que o céu não é o limite e atiçam a curiosidade do público ao revelarem cotidiano e até perrengues nas alturas

Rubens Cezilla acumula milhões de visualizações nas redes com conteúdos que misturam curiosidades e humor
Rubens Cezilla acumula milhões de visualizações nas redes com conteúdos que misturam curiosidades e humor Acervo pessoal

Saulo Tafarelodo Viagem & Gastronomia

Checagem de portas, verificação dos banheiros, monitoramento dos pilotos, controle da cabine e atendimento de primeiros socorros. Muito além de servir o passageiro e de ordenar que os cintos sejam afivelados, os comissários de bordo têm como missão zelar pela segurança, tranquilidade e conforto durante uma viagem.

Além de trabalharem a mais de 10 mil pés de altura, alguns têm alçado voos até mesmo mais altos: por meio das mídias sociais. É ali que eles compartilham a rotina, as curiosidades dentro das aeronaves e o estilo de vida considerado “invejável” por muitos seguidores.

O resultado dessa relação com as redes fica claro: conteúdos virais e milhões de visualizações.

De fato, ir para o trabalho e voltar para casa diariamente não é uma opção neste cargo.

“Você vai para o trabalho, encontra a tripulação, pega um voo às vezes de 15 horas, fica três dias num hotel, faz amizades e até algumas compras. Você abre a escala do mês e vê: ‘esse mês vou para o Japão, para os Estados Unidos, para a Itália’. É uma experiência única. Sua vida é no hotel, no avião e no mundo”, diz Andrielli Prianti.

De 2017 até o mês passado, a brasileira foi comissária nos Emirados Árabes Unidos e, para ocupar a posição, teve de morar em Dubai durante o período.

Com posts que focam no seu estilo de vida, nas suas paradinhas a trabalho ao redor do mundo e no trajeto até conquistar o cargo, ela acumula hoje 105 mil seguidores no Instagram.

“Tudo foi muito natural. As pessoas começaram a me pedir para mostrar a rotina, como se preparar para o voo, como fiz para ir para Dubai. Comecei a crescer quando me perguntavam como cheguei lá e eu mostrava que era muito mais simples do que parece”, afirma a profissional.

Para ela, o perfil na plataforma tomou grandes proporções, até que, no momento, decidiu parar de atuar como comissária para ajudar meninas brasileiras a conquistarem a almejada vaga.

“Comecei a mostrar que para trabalhar [na companhia em que trabalhei] não precisava ter o curso de comissário, não precisava nem ter entrado num avião na vida. Eles são muito exigentes na questão de comportamento. Você não precisa ter curso de comissário nem graduação, apenas ensino médio completo, falar inglês fluente e ter mais de 1,60m”, revela.

O que antes eram caixinhas de perguntas nos Stories virou um curso on-line que ajuda as pessoas do zero: desde preparo de currículo, como se vestir para entrevista, o que falar (ou não) com o recrutador e o que a companhia aérea está buscando.

“Me inspira muito ver essas meninas terem a vida transformada em uma oportunidade que talvez nem soubessem que era possível. Hoje brinco que multipliquei minhas asas”, pontua Andrielli, que define que ser comissária “não é um trabalho, mas um estilo de vida”.

Um de seus vídeos virais pode até parecer simples: dentro da aeronave e trajada com o uniforme da empresa, ela fecha as portas do avião antes da decolagem. A postagem acumula 10,5 milhões de visualizações e mais de 606 mil curtidas.

Curiosidades, humor e dicas práticas: o que engaja?

Já se perguntou o que um comissário come durante um voo de 10 horas?

Numa viagem entre Londres e Estados Unidos, a resposta pode ser esta: salada com salmão selado com compota de gengibre de entrada; frango grelhado com molho de alecrim e legumes assados com purê de couve flor, como prato principal, e sorvete de creme com calda de chocolate com farinha de amêndoas e cheesecake para a sobremesa.

Quem mostra isso é Rubens Cezila, mineiro que mora em Dallas, no Texas, Estados Unidos e trabalha numa companhia aérea americana. Ele possui mais de 350 mil seguidores no TikTok, e vários de seus vídeos ultrapassam a marca de um milhão de visualizações.

Seus conteúdos são diversificados: curiosidades, dia a dia, dicas do que fazer numa cidade específica e humor movem suas postagens.

“O humor sempre tem mais compartilhamentos pois acho que as pessoas se veem naquela situação. Outros são vídeos que causam curiosidade, que instigam, que a pessoa não tinha ideia que era assim” cita Rubens.

O acúmulo de posts virais e o alto número de seguidores ocorreu de maneira rápida e orgânica. Com início na vida de comissário ainda no Brasil em 2013, seu perfil sempre foi fechado e tinha apenas seguidores de círculos próximos.

Foi a partir do tédio causado pela reserva – período em que o profissional fica em casa aguardando ser chamado para um voo -, que Rubens começou a compartilhar posts que continham um certo deboche.

“Foi uma mistura de tédio, essa coisa de querer compartilhar o que estava acontecendo comigo. A partir do momento que abri meu Instagram e postei de uniforme, mudei o foco. Parei de reclamar de certos voos e comecei a mostrar coisas legais do dia a dia, o que me deu motivos para mudar também minha rotina. Fiquei até mais animado para trabalhar”, conta o profissional, que saltou de 10 mil seguidores do começo do ano para cerca de 210 mil no Instagram neste mês.

E a questão dos idiomas? Um dos vídeos de Rubens que mais recebeu atenção passa dos 18,6 milhões de visualizações e um milhão de curtidas somente no Instagram. Nele, o profissional mostra, de forma prática, como sua voz muda ao dizer “bom dia, bem-vindo a bordo” em japonês, espanhol e inglês.

“Sempre tento colocar o que aconteceu nos voos. Às vezes acontecem perrengues, coisas inesperadas e coisas legais. As pessoas gostam dessa naturalidade”, arremata.

Humor como saída

O caminho de Lucas Ramos até bombar nas redes foi parecido. Hoje, com mais de 707 mil seguidores e 18,3 milhões de curtidas no TikTok, ele trabalhou de 2013 a 2019 em uma companhia aérea com sede em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos.

A mistura entre tédio causado pela pandemia com a influência de um colega que compartilhava histórias nas redes foi o combustível para que ele mesmo dividisse algumas de suas lembranças como comissário fora do Brasil.

“Abri a câmera, postei uma história e fui dormir. Quando acordei tinha 50 mil visualizações, do nada eu estava com mais 50 mil seguidores no TikTok. Antes, tinha cerca de 500 seguidores. E assim fui postando”, recorda.

Hoje, sem vínculos de trabalho com uma companhia aérea, ele publica muitas esquetes de humor que mostram, de uma maneira leve, situações corriqueiras que acontecem dentro de uma aeronave.

“Esquetes são uma maneira mais fácil de colocar em prática uma situação. As pessoas entendem de uma forma mais rápida o conteúdo”, diz.

Mas o que explica o fascínio pelos comissários de voo, dado os números de visualizações e seguidores?

“Acho que é a curiosidade pelo desconhecido. Como não tem muitos comissários indo muito afundo no tema, justamente por medo de serem repreendidos pela empresa, não há tanta informação de como é nossa vida. A maioria das pessoas acha que estamos lá só para fazer o serviço de bordo, mas tem muitas coisas que envolvem a profissão”, afirma.

Na aviação desde 2009, ele tirou o ano de 2022 para focar nas redes, mas não descarta voltar a rodar o mundo a bordo de um avião.

Vídeos que falam sobre hábitos “nojentos” dos passageiros e “coisas que alguns comissários não gostam” fazem parte do seu portfólio. Segundo Lucas, ir descalço no banheiro é um dos hábitos mais anti-higiênicos que alguém pode ter durante um voo.

“Vocês não tem noção do quanto de xixi tem no chão do banheiro”, diz. “Dependendo da empresa, o comissário nem sempre é obrigado a limpar. Para a empresa que eu trabalhava a gente tinha que tirar o ‘grosso’, que era basicamente jogar um monte de papel ali, deixar absorver e o que secasse secava no chão”, comenta ele no vídeo.

Em sua carreira, o profissional conta que teve que atender muitos passageiros com emergências médicas e até passou por turbulências que o tiraram do chão.

“Tive uma passageira que teve um surto psicótico dentro do voo porque não tinha tomado os remédios. Ela começou a gritar no meio da cabine, num voo de madrugada, todos acordaram assustados. Quem me ajudou foi o filho dela, de cerca de 12 anos”, relembra.

O que acontece com a comida do avião?

A alimentação dentro do avião é tópico recorrente entre as publicações de alguns comissários. Andrielli Prianti, que trabalhou nos Emirados Árabes, pergunta para seus seguidores em um vídeo: “Qual é a parte mais difícil de seu trabalho?”

No post, ela pega garrafas de vinho tinto abertas e descarta os líquidos na privada de um dos banheiros da aeronave após um voo.

“Tudo que sobra é descartado. Cada voo recebe tudo fechado e há regras internacionais sobre isso, para evitar a proliferação de bactérias, por exemplo. É caviar, é vinho, todo tipo de comida. Às vezes, quando sobra na primeira classe passam para a tripulação”, revela.

As companhias seguem legislações internacionais e, de acordo uma pesquisa da Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA na sigla em inglês), mais de 20% dos resíduos de cabine são compostos por alimentos e bebidas intocados.

No geral, o estudo mostra que o setor aéreo gerou 5,7 milhões de toneladas de resíduos de cabine em 2017, o que custou ao setor aproximadamente US$ 927 milhões.

Exposição nas redes sociais

Com vídeos e fotos que revelam curiosidades do trabalho e atingem milhões de pessoas mundo afora, é inevitável, em algum momento, que as companhias aéreas sejam atreladas aos conteúdos.

Mas como se dá a relação entre exposição nas redes dos funcionários versus as políticas internas das companhias? É uma questão tênue, já que os comissários são vistos como “a cara” da empresa. Mas uma coisa é certa: mentiras e difamação não são aceitáveis.

“O que entendo é que não se pode falar mentiras. Temos que ser verdadeiros, sem difamar. Sempre mostrei tudo, os aviões, aeroportos até a acomodação paga por eles”, lembra Andrielli Prianti.

De acordo com Lucas Ramos, as companhias aéreas são muito ligadas à imagem. “Não podemos dar informações sobre passageiros e dependemos da maneira que falamos com eles. São coisas mais subjetivas. Temos que tomar cuidado para não passar uma imagem negativa da empresa”, diz.

Assim como Andrielli, ele não tem um vínculo de trabalho atual com uma companhia e considera que possui mais liberdade para certos conteúdos.

Já Rubens Cezila conta que quando começou a compartilhar vídeos com as roupas da empresa, muitos seguidores mandaram mensagens alertando-o que seria demitido.

“Minha gerente sabe dos meus vídeos, conversamos sobre. Obviamente tomo muito cuidado com o que falo, uso muito o deboche, mas um deboche tranquilo, sem ofensas”, avalia o comissário.

Segundo ele, é permitido postar conteúdos de uniforme e no ambiente de trabalho. Devem ser conteúdos que mostrem que se está trabalhando com o que gosta.

As companhias ficam atentas, principalmente, com questões de segurança. “Nada de ilegal pode ser feito ou nada que vá contra a política de má conduta. Não pode, claro, publicar coisas relacionadas à segurança. Muita gente tira fotos dentro do motor, do carrinho ou dos compartimentos do avião. São exemplos do que não fazer”, diz.

A reportagem entrou em contato com as principais companhias aéreas brasileiras e outras duas internacionais que operam voos no país para saber se há manuais de conduta ou recomendações para seus funcionários acerca das postagens nas redes sociais que envolvam de alguma maneira as empresas.

Em resposta, a Gol diz que “incentiva que os colaboradores postem com responsabilidade nas redes sociais” e que “sem perceber, todos assumem o papel de porta-vozes informais da marca ao comunicar conteúdos relacionados às respectivas rotinas”.

A tripulação pode postar fotos com o uniforme, premiações da empresa, entre outros, desde que siga os cinco pilares de responsabilidade, transparência, paixão, privacidade e diversidade. Tais pilares são parte de um guia de boas práticas nas redes sociais desenvolvido pela empresa que preza pela segurança e pelo zelo à sua imagem.

Já a Latam “informa que treina constantemente seus tripulantes para o uso adequado de suas redes sociais particulares ao publicar algum conteúdo mencionando ou utilizando imagens relacionadas à marca, visando assim resguardar a imagem e reputação da companhia”.

A empresa salienta que também possui regras e condutas a serem seguidas por todos os colaboradores que visam preservar a integridade da marca.

A Emirates disse que não revela suas políticas internas; Azul e Delta preferiram não comentar a pauta.

Aterrissagem recente fora do Brasil

Natural de Manaus, o primeiro emprego de Ju Bárbara foi como agente de aviação no Aeroclube do Amazonas. Buscando embarcar em algo novo, decidiu fazer o curso de comissária no Brasil em 2019.

Passados os picos da pandemia, em março deste ano chegou a mudança na vida: foi morar em Dubai após entrar para o time de comissários da Emirates. Foi em maio que, de fato, começou a voar após os dois meses de treinamento concedido pela própria companhia.

Ainda recente no trabalho como comissária, ela comemorou os 100 mil seguidores no Instagram em agosto. Suas postagens são voltados principalmente para sua mudança para os Emirados Árabes, seu treinamento e curiosidades de pernoites em outros países, pontos que atiçam a curiosidade de milhares de pessoas que se sentem inspiradas a seguir o mesmo caminho.

“Imaginei que fosse crescer nas redes mas não nessa proporção e nesse período de tempo tão curto”, fala a comissária, que possui hoje uma agenda de pelo menos oito voos por mês entremeados por folgas.

Nos stories e no feed, ela divide com os seguidores em que parte do mundo está: um dia em Londres, no outro, um pulo na Arábia Saudita.

“Uma coisa que chama muito a atenção das pessoas é o uniforme. Comecei a fazer conteúdo mostrando a roupa e que temos diversos tipos de uniforme, que temos um específico para usar durante o embarque, o desembarque, durante o voo e também para climas frios. Muitas pessoas não sabiam”, pontua.

Com 19,4 milhões de visualizações, um dos vídeos mostra a comissária trajando roupas normais e logo depois o uniforme da companhia, e a legenda entrega o sentimento: “O que te faz sentir mais vivo?”

Ela afirma que publica conteúdos com o uniforme porque é algo que a deixa orgulhosa. “Mas sempre tento tomar cuidado com as postagens, sempre ter bom senso”.

Por ser um trabalho recente, seu público também tem acompanhado seu crescimento. Dúvidas sobre Dubai, seus direitos no trabalho, salário e recursos financeiros são questionamentos corriqueiros.

A profissão vai muito além do que só aquele glamour que vemos nos voos. Somos um agente de segurança também e isso me encantou muito. Decidi que era o que queria fazer

Ju Bárbara

Para o futuro, ela planeja crescer dentro da companhia e, quem sabe, talvez ajudar cada vez mais pessoas a conquistarem a vida que tem vivido. Se depender dela e de outros tantos profissionais, o céu não é o limite.