Teatros da Amazônia são reconhecidos como Patrimônio Mundial pela Unesco

Anúncio da decisão aconteceu na madrugada desta segunda-feira (27), durante o 48º comitê, em Busan, na Coreia do Sul

Da CNN Viagem & Gastronomia, do Viagem & Gastronomia
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O Teatro Amazonas, em Manaus, e o Theatro da Paz, em Belém, foram reconhecidos como patrimônio cultural do mundo pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), na madrugada desta segunda-feira (27), durante a 48ª edição do encontro que acontece em Busan, na Coreia do Sul.

Os dois teatros já eram tombados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) desde os anos 1960 e agora passam a integrar a Lista do Patrimônio Mundial Cultural da Unesco sob a designação “Teatros da Amazônia”.

Como mostrado pela CNN, o Brasil apresentou a candidatura “Teatros da Amazônia”, formada por dois conjuntos: o Teatro Amazonas e o Largo de São Sebastião, em Manaus, e o Theatro da Paz e a Praça da República, em Belém.

Ao todo, foram avaliados 33 dossiês no encontro: 29 novas candidaturas apresentadas pela primeira vez, uma candidatura retomada após análise anterior, duas propostas de alteração significativa de limites e uma nova avaliação de um patrimônio já inscrito sob critérios diferentes.

Símbolos do boom econômico gerado pela extração da borracha no Norte do Brasil, no século XIX, o Theatro da Paz, em Belém, e o Teatro Amazonas, em Manaus, foram inaugurados em 1878 e 1896, respectivamente. Foram duas das primeiras grandes casas de ópera das Américas, passando a atrair companhias europeias para temporadas casadas entre as duas cidades.

De acordo com o Iphan, com a aprovação, os dois conjuntos passam a figurar juntos na lista da Unesco ao lado de outros sítios brasileiros já reconhecidos como Patrimônio Mundial Cultural, tal como o Plano Piloto de Brasília, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, e os centros históricos de Olinda e Salvador.

O Brasil também passa a contar com 26 sítios inscritos na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, dos quais 16 são culturais, nove são naturais e um é sítio misto.

Bens culturais:

  • 1980: Cidade Histórica de Ouro Preto
  • 1982: Centro Histórico de Olinda
  • 1983: Ruínas de São Miguel das Missões
  • 1985: Centro Histórico de Salvador
  • 1985: Santuário do Bom Jesus do Congonhas
  • 1987: Brasília
  • 1991: Parque Nacional Serra da Capivara
  • 1997: Centro Histórico de São Luís
  • 1999: Centro Histórico de Diamantina
  • 2001: Centro Histórico da Cidade de Goiás
  • 2010: Praça de São Francisco na Cidade de São Cristóvão
  • 2012: Rio de Janeiro: Paisagens Cariocas entre a Montanha e o Mar
  • 2016: Conjunto Moderno da Pampulha
  • 2017: Sítio Arqueológico do Cais de Valongo
  • 2021: Sítio Roberto Burle Marx
  • 2026: Teatros da Amazônia

Bens naturais:

  • 1986: Parque Nacional do Iguaçu
  • 1999: Reservas da Mata Atlântica do Sudeste
  • 1999: Reservas da Mata Atlântica da Costa da Descoberta
  • 2000: Área de Conservação do Pantanal
  • 2000: Complexo de Conservação da Amazônia Central
  • 2001: Ilhas Atlânticas Brasileiras: Reservas Fernando de Noronha e Atol das Rocas
  • 2001: Unidades de Conservação do Cerrado: Parques Nacionais Chapada dos Veadeiros e Emas
  • 2024: Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses
  • 2025: Cânion do Rio Peruaçu

Bens mistos:

  • 2025: Paraty e Ilha Grande – Cultura e Biodiversidade

Uma candidatura, dois teatros

À CNN, o presidente substituto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Deyvesson Israel Alves Gusmão, explicou por que o Brasil optou por inscrever os dois locais como um único patrimônio e destacou a importância do reconhecimento pela Unesco.

“A candidatura integra os dois teatros a partir da perspectiva histórica e do momento político, econômico e social em que eles foram construídos. Entendemos que existe uma relação de complementaridade. A segunda perspectiva leva em conta a vitalidade que esses teatros têm hoje, do ponto de vista das apresentações e do contexto artístico que eles promovem. São representantes importantes dessa conexão da Amazônia com o restante do Brasil e com o mundo. Isso está presente desde a origem deles e permanece até hoje”, detalhou Deyvesson.

A candidatura foi oficialmente apresentada à Unesco em janeiro de 2025. O dossiê foi elaborado pelo Iphan em parceria com os ministérios da Cultura e das Relações Exteriores, além dos governos estaduais e municipais envolvidos.

Turismo, gestão e preservação

Deyvesson também explicou que, com o reconhecimento da Unesco, os Teatros da Amazônia podem ganhar maior visibilidade internacional, estimular o turismo e movimentar a economia da cultura. O processo também prevê um plano compartilhado para a gestão e a conservação dos espaços históricos.

“O plano envolve o governo federal, os governos estaduais e municipais, mas, sobretudo, a participação da sociedade na construção da gestão desse patrimônio. Outra questão importante é que esses bens passarão a ser vistos por outros países em razão do reconhecimento. Isso cria um novo contexto econômico, tanto pela perspectiva do turismo quanto pela economia criativa e pela economia que gira em torno das artes e da cultura. Também traz benefícios nesse sentido. A preservação do patrimônio, hoje, vai muito além da restauração”, afirmou.

Segundo o Iphan, o reconhecimento como Patrimônio Mundial pode ampliar a visibilidade internacional, fortalecer o turismo cultural e facilitar o acesso a iniciativas e recursos voltados à conservação.

Mudanças climáticas entram no debate

Um dos temas presentes nesta edição do comitê é a necessidade de proteger patrimônios culturais e naturais diante dos efeitos das mudanças climáticas. Deyvesson afirmou que o Iphan participa dessas discussões desde o início no Brasil e que o tema já foi incorporado a diferentes políticas públicas.

“O patrimônio está relacionado no Plano Clima, com medidas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. O Iphan também incluiu o patrimônio cultural no Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil, com ações específicas voltadas para esses bens diante das questões climáticas”, explicou.

O presidente substituto do instituto também destacou a Estratégia Nacional para Patrimônio Cultural e Ação Climática, lançada pelo Iphan no início de julho.

“A partir dela, será construído um plano de ação pelas nossas unidades, em diálogo com a sociedade, com uma série de medidas a serem tomadas pelo poder público. E não apenas pelo Iphan, mas em conjunto com os governos locais e com a sociedade, com o objetivo de mitigar os efeitos das mudanças climáticas e pensar em ações de adaptação”, acrescentou.

A estratégia reúne ações de preservação do patrimônio cultural, gestão de riscos, adaptação e resposta a eventos climáticos extremos.

Neste ano, a reunião do Comitê do Patrimônio Mundial ocorre em Busan, na Coreia do Sul. O país asiático apresentou a segunda fase da área de conservação de Getbol, conjunto de planícies de maré localizado nas costas oeste e sul do país.

Getbol foi reconhecido como Patrimônio Mundial Natural em 2021. A ampliação busca incluir novas áreas e representar de forma mais ampla a diversidade dos ecossistemas costeiros, que servem de habitat para aves migratórias e espécies ameaçadas.

Troca entre Brasil e Coreia do Sul

O presidente substituto do Iphan também comentou como Brasil e Coreia do Sul podem promover uma troca de experiências no cuidado com patrimônios culturais e naturais.

“Acho que Brasil e Coreia do Sul têm um potencial em comum, que é relacionar aquilo que, no âmbito da Unesco, está dividido em duas convenções: o patrimônio material e o imaterial. Tanto a Coreia quanto o Brasil têm edificações, espaços e bens materiais muito vivos, que possuem vitalidade social e importância para a sociedade porque são ocupados pelas pessoas”, afirmou.

Deyvesson também citou a relação entre patrimônio, natureza e os conhecimentos de comunidades tradicionais.

“Outra perspectiva importante de diálogo entre os dois países é a preservação de patrimônios que tratam da relação entre os seres humanos e a natureza. A Coreia faz isso muito bem. O Brasil também tem um potencial muito grande a partir dos povos e comunidades tradicionais e dos povos indígenas, que possuem conhecimentos e saberes que contribuem, inclusive, para pensar medidas de enfrentamento às mudanças climáticas”, completou.

*Com apuração de Aline Narimoto