Berço de Mozart e Patrimônio Mundial: os encantos de Salzburgo, na Áustria

Entre fortalezas medievais e joias barrocas, cidade austríaca revela uma sinfonia perfeita entre história, música e iguarias locais

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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Colada na fronteira com a Alemanha, a cidade austríaca de Salzburgo pode ser comparada a um arranjo musical harmonioso. Dotada de fortalezas, ruelas medievais e palácios barrocos, a terra natal de Mozart nos revela uma profunda conexão entre Estado, poder, religião e música.

Coloque nesse caldeirão o centro histórico tombado como Patrimônio da Humanidade e o restaurante mais antigo de toda a Europa e temos à nossa frente uma sinfonia fascinante.

Salzburgo foi a minha primeira parada a bordo de uma expedição que reviveu a atmosfera do Expresso do Oriente. Para a 12ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia, embarquei em uma jornada de 22 dias batizada de "Grande Expresso do Oriente", um produto exclusivo da Latitudes, produtora de viagens pioneira no mercado brasileiro que desenha expedições de conhecimento.

Jornada sobre trilhos

A bordo de um trem privativo que opera na Europa Central e Oriental, atravessei 14 cidades e 10 países, saindo de Zurique, na Suíça, e chegando a Istambul, na Turquia. A expedição foi totalmente inspirada no roteiro clássico do Expresso do Oriente, mas vivida através de uma versão atualizada do mapa geopolítico contemporâneo.

Digo que viajar de trem não é apenas se deslocar, mas estar dentro da história. A nostalgia das cabines, os sons dos trilhos e as refeições servidas como um ritual nos ajudam a viver o caminho de uma forma especial. Na viagem privada da Latitudes, as aulas e conversas com historiadores, além dos guias locais, transformam a nossa percepção dos destinos, entregando novas referências e janelas para o mundo.

Após o embarque na estação de trem de Zurique, a noite e a manhã do dia seguinte foram marcadas pelas paisagens dos Alpes, incluindo pequenas vilas e curvas de rios. Passada a fronteira, adentramos em outra estação, de Salzburgo, para então percorrermos este destino que respira história e música.

O que ver e fazer em Salzburgo

Lar para pouco mais de 155 mil habitantes, Salzburgo é a cidade natal de Wolfgang Amadeus Mozart, que dispensa apresentações. Nascido em 27 de janeiro de 1756, a casa em que cresceu na Cidade Velha foi convertida em museu, que usa artefatos e recursos modernos para nos oferecer uma introdução à vida do maestro.

Mas Salzburgo vai além do legado deixado pelo seu maior compositor. É uma cidade que une duas culturas, a alemã e a italiana, tanto por questões históricas quanto geográficas. Ela nos convida a andar a pé, chamando a atenção para a arquitetura, que mescla tanto ruelas da Idade Média até construções do século XX, como pontes construídas na Segunda Guerra Mundial.

Cortada pelo rio Salzach, um lado da margem acomoda a Cidade Velha, exclusiva para pedestres e onde fica a via Getreidegasse, e o outro, a Cidade Nova, do século XIX, que abriga os Jardins de Mirabell.

Entre julho e agosto, a cidade se transforma no palco do maior festival de música erudita do mundo, o Festival de Salzburgo, que há mais de um século leva ópera, performances de drama e concertos às ruas da cidade.

Antes, entre maio e junho, na primavera, os jardins costumam dar um show de beleza. Entre setembro e outubro, o outono se faz presente e a atmosfera tranquila volta à tona. Quando chega dezembro, com temperaturas abaixo de zero, os mercados de Natal se destacam entre os mais antigos do continente.

A seguir, confira 5 programas indispensáveis em Salzburgo, na Áustria:    

1. Palácio de Mirabell

O Palácio e os Jardins de Mirabell formam um dos cartões-postais mais deslumbrantes de Salzburgo. A origem do palácio barroco data de 1606, quando o príncipe-arcebispo Wolf Dietrich von Raitenau mandou construir o local para sua amante. Junto do rico acervo, funcionam ali escritórios da administração municipal.

O palácio tem entrada gratuita e abriga uma joia que não deve passar despercebida: o Salão de Mármore, com colunas de mármore e afrescos no teto. É hoje uma das melhores e mais belas salas de concerto da Áustria, disputada para casamentos, que ocorrem aos sábados um atrás do outro. No passado, Mozart e alguns parentes se apresentaram aqui.

Do lado de fora, o Jardim de Mirabell esbanja beleza barroca bem no coração da Cidade Nova. Remodelado por volta de 1690, o jardim tem um alinhamento visual em direção à Catedral e à Fortaleza de Hohensalzburg que causa um efeito grandioso. Confira informações sobre horários de abertura no site.

2. Catedral de Salzburgo

A cidade possui mais de 60 igrejas, mas o símbolo máximo é a Catedral de Salzburgo. Ela segue o padrão dos outros endereços: é enorme e cheia de pompa. Antes, temos que relembrar que Salzburgo era um Estado eclesiástico soberano dentro do mosaico do Sacro Império Romano-Germânico. Durante séculos, foi a capital de um Principado-Arcebispado.

"O Príncipe-Arcebispo tinha poderes políticos e religiosos. Além disso, tinha muito dinheiro devido às minas de sal. Então podia chamar os melhores arquitetos da Itália", me conta Martina Berger, guia de turismo local.

A catedral que vemos atualmente corresponde à uma reconstrução em estilo barroco italiano finalizada no século XVII. Os primeiros vestígios do templo são ainda mais antigos, do século IX. Com uma imponente cúpula e fachada de mármore, é símbolo do poder católico na região.

Grandes portas de bronze remetem à fé, à esperança e à virtude. Lá dentro, podemos apreciar a pia batismal de bronze, do século XIV, onde Mozart foi batizado um dia após seu nascimento. Como a música é fator comum em toda a cidade, a catedral não poderia ficar de fora. Todos os dias, após os sinos tocarem ao meio-dia, há apresentações que destacam os órgãos históricos. O programa sai por 9 euros (cerca de R$ 53) para maiores de 18 anos.

A catedral pode ser visitada todos os dias, em horários específicos. A administração pede uma contribuição para a manutenção do local no valor 5 euros (R$ 30) e, todos os dias, um tour guiado ocorre às 14h pelo mesmo valor.

3. Fortaleza de Hohensalzburg

Acima da Cidade Velha, a Fortaleza de Hohensalzburg é um dos maiores castelos totalmente preservados da Europa. No alto da cidade, a construção histórica nos entrega uma vista panorâmica que abrange desde as casas lá embaixo até as curvas do rio. A subida pode ser feita com auxílio de funicular, que também é histórico, de 1892.

Datada do século XI, a fortaleza foi erguida por conta de uma guerra entre o Papa e o imperador. O objetivo original era proteger o principado e os arcebispos de ataques inimigos, mas ela nunca foi conquistada por tropas estrangeiras. Nos séculos seguintes, foi expandida e, por volta de 1500, adquiriu a aparência que podemos ver atualmente.

Entre os seculos XV e XVI, foi transformada em um palácio gótico monumental pelo arcebispo Leonhard von Keutschach, que espalhou por aqui mais de 50 brasões de sua família. O terceiro andar da fortaleza preserva os aposentos góticos do príncipe, compostos pela Sala Dourada, o Salão Dourado e um quarto, onde tudo permanece praticamente inalterado desde 1501.

Na Sala Dourada, fiquei surpresa com um antigo fogão de azulejos que retrata várias cenas da bíblia e da vida do arcebispo. Alguns museus também se alojam na fortaleza, como o Museu da Fortaleza, com peças da corte; o Museu de Marionetes e o Museu do Regimento Rainer, com um importante arsenal histórico.

Aos domingos, perto do meio-dia, trompetistas tocam na torre. O ingresso com tudo incluso, que abrange visitas em todos os espaços e o transporte de funicular, sai por 19,20 euros por adulto (cerca de R$ 114). Outras modalidades, sem funicular e acesso a certos espaços, saem a partir de 12 euros (R$ 71).

4. Restaurante St. Peter Stiftskulinarium

Qual o restaurante mais antigo que você já foi na vida? Certamente uma viagem a Salzburgo não ficaria completa sem uma refeição no St. Peter Stiftskulinarium, com registros que o mencionam em 803 d.C. Assim, ele é considerado o restaurante mais antigo do mundo em funcionamento. 

Explico: ele fica no complexo da Abadia de São Pedro, na Cidade Velha. Em 803 d.C, a “adega da abadia” de São Pedro foi mencionada pela primeira vez em registros. No século XI, o foco era o comércio de vinho. Ao longo dos séculos, a adega foi sendo expandida e os espaços serviram para diferentes usos, abrindo lugar a uma taverna no século XVI que se tornou uma espécie de hotel para trabalhadores e comerciantes.

Hoje, o St. Peter dispõe de 12 salas, cada uma diferente entre si, incluindo um cômodo modernizado esculpido nas rochas da montanha. O maior salão é o Barocksaal, que sedia jantares-concertos ao longo do ano inspirados em Mozart.

A casa serve tanto receitas tradicionais austríacas quanto comidas de sotaque internacional. Entre as delícias, há o clássico Wiener Schnitzel, que pode ser apreciado junto de vinhos tintos austríacos, e o Salzburger Nockerln, uma iguaria local que se assemelha a um suflê, servida como sobremesa.

5. Cidade Velha e a Casa de Mozart

No centro antigo, as ruelas medievais revelam passagens entre casas e comércios. Por ali, faça uma paradinha no Cafe-Konditorei Fürst, que criou o famoso Salzburger Mozartkugel, docinho feito com marzipã e pistache envolto em nougat e banhado em chocolate amargo.

Siga então para a Getreidegasse, rua comercial mais famosa e movimentada da Cidade Velha. No número 9 fica a casa onde Mozart nasceu e cresceu, transformada hoje em museu, o Mozart's Birthplace. Adentrar a antiga moradia do compositor também é se deparar com um vislumbre da vida cotidiana do passado. A cozinha, por exemplo, era separada da casa principal por conta dos riscos da fumaça e do fogo.

Após se casarem, os pais de Mozart moraram aqui por 26 anos. Ao todo, tiveram sete filhos. Uma árvore genealógica nos ajuda a entender a linhagem. O núcleo do museu é uma sala central que reúne importantes artefatos originais de Mozart, como um broche e até uma presilha de cabelo.

Um pequeno violino de 1746, feito para crianças, chama a atenção: foi dado a Mozart pelo pai quando tinha pouco mais de seis anos. Nas paredes, ficam dispostas obras de arte, como o retrato pintado pelo cunhado Joseph Lange. É interessante notar que Mozart já era famoso em vida. Logo, artistas o pintavam mesmo sem conhecê-lo, criando imagens heroicas do músico.

O endereço abre todos os dias e a visita para adultos sai por 15 euros (cerca de R$ 90). O museu ainda possui um piano original de 1792 que, ocasionalmente, ganha vida nas mãos de artistas. Se der sorte, o concerto espontâneo é uma ótima maneira de terminar a visita, nos permitindo ouvir ecos da história local.

 

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