Como Babilônia foi de maravilha antiga a ruína decadente
Inscrita na lista de Patrimônio Mundial da Unesco, mas ainda ameaçada, Babilônia se equilibra delicadamente entre a grandiosidade e a decadência.

O sol pesa sobre o centro do Iraque no fim da tarde, tingindo as ruínas da Babilônia de calor e luz. Do chão, nuvens suaves de poeira se erguem, trazendo consigo um aroma que parece mais antigo do que o próprio tempo. Nesse instante, a cidade transmite ao mesmo tempo um ar de vazio e eternidade, o silêncio quebrado apenas pelo caminhar de poucos viajantes que decidiram seguir os passos de reis.
Um dia, Babilônia foi a joia da Mesopotâmia, a cidade que deu nome a eras inteiras — os períodos Babilônico Antigo, Médio e Novo. Foi lá onde reinou Nabucodonosor II, onde se ergueram templos e palácios colossais, e onde poetas e cronistas imaginaram uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo: os Jardins Suspensos. Hoje, inscrita na lista de Patrimônio Mundial da Unesco, mas ainda ameaçada, Babilônia se equilibra delicadamente entre a grandiosidade e a decadência.
Percorrer suas ruínas é atravessar camadas de mito e memória. O primeiro impacto para muitos visitantes é o Portão de Ishtar, reconstruído, com sua superfície azul profunda outrora adornada por leões e dragões em relevo dourado. Além dele se estende a Via Processional, estrada cerimonial usada em festivais reais como o Akitu, o Ano-Novo babilônico — considerado uma das celebrações mais antigas do mundo.
Foi aqui que Nabucodonosor II, que governou entre 605 e 562 a.C., deixou sua marca na história. Construiu palácios e templos de dimensões impressionantes, expandiu as defesas da cidade e gravou inscrições que até hoje proclamam seu poder. Dominando o horizonte, erguia-se o imenso zigurate Etemenanki — que muitos acreditam ter inspirado a narrativa bíblica da Torre de Babel.
Há ainda os Jardins Suspensos. Escritores gregos e romanos os descreveram como um paraíso verdejante em terraços, irrigados por engenhosas bombas que elevavam a água do Eufrates. Segundo a lenda, Nabucodonosor os teria mandado erguer para sua rainha, Amytis, saudosa das montanhas de sua terra natal.
“Esperei minha vida toda”
Para o arqueólogo iraquiano Amer Abdulrazzaq, os jardins são mais do que mito. “Confirmo que os Jardins Suspensos de Babilônia existiram”, disse à CNN internacional. “Eles representam a beleza, a grandiosidade e a criatividade do engenheiro e do artista mesopotâmico, do engenheiro babilônico, e a grandeza do rei e do governo da Babilônia.”
Ele acredita que os jardins ficavam onde hoje se encontra um vasto sítio arqueológico às margens do Eufrates, perto da cidade de Hillah, a cerca de duas horas ao sul de Bagdá.
Outros estudiosos apontam Nínive, centenas de quilômetros ao norte, como possível localização. Mas para quem chega a Babilônia, o debate importa pouco. Em meio às ruínas, é fácil imaginar terraços cobertos de vinhas, cascatas deslizando por colunas de pedra e a vitalidade de uma cidade no auge de seu esplendor.
Apesar dos anos de conflitos e incertezas no Iraque, Babilônia segue atraindo visitantes estrangeiros em número crescente — ainda distante, porém, do fluxo registrado décadas atrás. Em 2024, o local recebeu 49.629 visitantes, dos quais 5.370 eram estrangeiros, segundo a Direção de Antiguidades e Patrimônio da Babilônia.
Numa tarde recente de verão, apenas três turistas percorriam suas trilhas. Entre eles, Gianmaria Vergani, 35 anos, de Milão, cuja fascinação pelos Jardins Suspensos vem desde a infância. “Esperei a vida toda para estar aqui”, contou à CNN internacional.
Vergani preparou a viagem por meses, estudando mapas e livros de história antes de voar a Bagdá. No caminho, fez uma parada no Taq Kasra — o arco monumental de Ctesifonte, com dois milênios de existência — a sudoeste da capital iraquiana, antes de seguir rumo a Babilônia para ver as ruínas com os próprios olhos.
“Quando vi o Portão de Ishtar logo no início do passeio, fiquei arrepiado”, disse, com a voz embargada. “É inacreditável pensar que milhares de anos atrás pessoas andavam por esses mesmos caminhos. Ao chegar ao sítio, senti que meu sonho enfim se realizava.”
Esse sentimento de reverência ecoa entre muitos que se aventuram até ali. Babilônia não é destino de turismo casual; é quase uma peregrinação, uma chance de entrar nas histórias que moldaram civilizações.
Amor versus dinheiro
Mas a cidade também enfrenta abandono. O contraste aparece já na chegada: a estrada principal em torno das ruínas é aceitável, mas as vias de acesso estão cheias de buracos. Dentro do sítio, os caminhos estão cobertos de mato, plantas crescem pelas frestas e o lixo se espalha entre as pedras. Bitucas de cigarro e garrafas plásticas repousam nos pátios onde reis recebiam emissários estrangeiros.
A infraestrutura é precária. Há banheiros, mas apenas depois da bilheteria próxima ao Portão de Ishtar. Não existe hotel por perto, obrigando os visitantes a se hospedarem longe. A sinalização é mínima; sem guia, é fácil se perder entre paredes e câmaras.
Guias locais tentam contornar a decepção, conduzindo os turistas por rotas mais limpas e ressaltando os melhores ângulos das ruínas. Mas para quem passeia por conta própria, o descuido é evidente. O lugar clama por manutenção urgente.
Raed Hamed Abdullah, diretor da pasta de Antiguidades e Patrimônio em Babilônia, reconhece as dificuldades: “O sítio arqueológico inteiro conta com apenas quatro funcionários de limpeza”, disse. “Às vezes até peço para os guardas ajudarem. São esforços individuais, feitos por amor à cidade. Esperamos que o governo iraquiano destine recursos suficientes para cuidar de Babilônia.”
Até agora, o apoio oficial tem sido limitado. Há manutenção pontual pelas autoridades regionais, mas projetos maiores — de infraestrutura turística a conservação adequada — permanecem travados por entraves políticos e legais.
As cicatrizes da cidade não vêm só do tempo. Babilônia foi remodelada diversas vezes por governantes e exércitos modernos.
Nos anos 1980, Saddam Hussein lançou uma ambiciosa reconstrução, vendo-se como herdeiro de Nabucodonosor. Mandou erguer muralhas inteiras com tijolos novos estampados com seu nome e construiu um palácio monumental nas proximidades, com terraços voltados para as ruínas — mais um gesto de poder do que de preservação.
A caligrafia árabe gravada nos muros parece sagrada à primeira vista, mas de perto revela não versos religiosos, e sim as iniciais estilizadas do próprio Saddam. O projeto era propaganda pura, inserindo sua presença na narrativa milenar da cidade.
Após a invasão liderada pelos EUA em 2003, forças americanas transformaram o palácio em base militar. Helicópteros pousavam diretamente sobre o sítio. Tanques esmagaram o solo frágil. Soldados rabiscaram grafites nas paredes do palácio. Babilônia, símbolo de poder e glória, tornou-se dano colateral das disputas modernas.
Grafites e saques
Para os visitantes de hoje, o impacto salta aos olhos. “Foi de partir o coração ver o palácio abandonado, coberto de grafite”, contou Vergani. “A falta de segurança era absurda; qualquer pessoa poderia roubar artefatos.”
Quando a Unesco inscreveu Babilônia como Patrimônio Mundial em julho de 2019, a decisão foi celebrada como um triunfo para o Iraque, após décadas de campanha. Mas o reconhecimento não garantiu preservação. O financiamento segue escasso, os planos de desenvolvimento emperrados, e o sítio depende sobretudo da dedicação de seus guardiões locais.
“Babilônia é um dos pontos turísticos mais importantes do Iraque e do mundo”, reforçou Abdulrazzaq. “Precisa de um fundo especial, criado pelo gabinete do primeiro-ministro, para se tornar referência global.”
Até que isso aconteça, sua sobrevivência depende de esforços frágeis: quatro faxineiros com vassouras, guias que contam histórias, arqueólogos que imploram por recursos. A cidade de reis e mitos continua à espera da atenção que merece.
Nos últimos anos, a organização internacional World Monuments Fund tem realizado trabalhos de conservação em partes do sítio, incluindo o estudo e a restauração do Templo de Ninmakh, dedicado a uma deusa, com apoio da embaixada dos EUA.
Ainda assim, diante de tantos desafios, são muitas vezes indivíduos, e não instituições, que mantêm viva a memória de Babilônia. Entre eles está o jovem guia Hussein Hashem, de 22 anos, nascido e criado na região.
Sua paixão pela história começou ainda no colégio, em excursões ao sítio. Mais tarde, após se formar em engenharia biomédica na Universidade de Babilônia, migrou para o turismo, aproveitando seus conhecimentos e fluência em línguas.
“Por meio do meu trabalho, tento transmitir uma mensagem positiva”, explicou. “O Iraque é seguro e bonito, não como mostram a TV e as redes sociais. Gostaria que todos visitassem meu país para conhecer sua história, seu povo e sua cultura.”
“Simplesmente incrível”
Turistas frequentemente o questionam sobre os Jardins Suspensos. Hashem costuma explicar que arqueólogos alemães acreditaram tê-los encontrado em um conjunto de câmaras do sítio, mas pesquisas iraquianas comprovaram que o espaço servia, na verdade, para armazenar alimentos. Outros estudiosos apontam para uma área próxima ao Eufrates, entre as ruínas e o palácio de Saddam.
Apesar do orgulho que sente, Hashem teme a falta de investimento. Defende mais apoio do governo e maior conscientização pública. Também pede respeito dos visitantes, para que não deixem lixo ou gravem seus nomes nas pedras milenares.
Passear por Babilônia é vivenciar contradições. O Palácio do Sul reúne inscrições de Nabucodonosor lado a lado com as de Saddam Hussein. O famoso Leão da Babilônia ainda permanece em sua postura desafiadora, embora ervas daninhas subam pelo pedestal. O Portão de Ishtar original, desmontado no início do século XX, está a milhares de quilômetros, no Museu de Pérgamo, em Berlim, restando aqui apenas uma reconstrução parcial.
O entorno acentua esses contrastes: fora dos limites arqueológicos há pomares, jardins para piqueniques, casas residenciais e até uma delegacia de polícia.
Mesmo assim, Babilônia mantém seu encanto. Visitantes continuam a se maravilhar diante do Portão de Ishtar, a debater os Jardins Suspensos, a se impressionar com a possibilidade de que um paraíso tenha brotado do deserto.
Pesquisadores seguem com seus estudos, enquanto turistas retornam para casa com histórias que surpreendem familiares e amigos: caminharam pelas ruas da capital de Nabucodonosor.
Para o italiano Vergani, a visita foi o auge de uma viagem inesquecível ao Iraque: “Além de toda a beleza e história, o que mais me marcou no Iraque foram as pessoas — gentis, prestativas, sorridentes, simplesmente incríveis.”



