Como viajar o mundo ajudou jovem a lidar com TOC e a bater recorde mundial

Condição pode dominar completamente a mente e o comportamento, a ponto de ser exaustiva

Tamara Hardingham-Gill, da CNN
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Desde a infância, Cameron Mofid convive com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Mas, segundo ele, uma coisa em especial o ajudou a enfrentar a condição: viajar o mundo.

Natural de San Diego, na Califórnia, nos Estados Unidos, Mofid conta que tinha o hábito de repassar conversas mentalmente e de buscar respostas definitivas para tudo — uma necessidade obsessiva por controle e certezas. Mas a liberdade de embarcar em um avião rumo ao desconhecido fazia com que ele se sentisse capaz de conviver com a incerteza.

“O TOC se alimenta de controle: controlar o ambiente, as rotinas, os resultados”, explicou ele ao CNN Travel. “Mas quando você está cruzando fronteiras caóticas, dormindo no chão ou tentando se virar em países onde não fala o idioma, acaba sendo forçado a abrir mão do controle. É desconfortável, mas libertador.”

Segundo Mofid, a condição — descrita pela Clínica Mayo como um padrão de pensamentos indesejados e medos que levam a comportamentos repetitivos — pode dominar completamente a mente e o comportamento, a ponto de ser exaustiva. Para ele, as viagens começaram como uma fuga, mas logo se tornaram uma forma de cura. E foi justamente viajando que Mofid acabou batendo um recorde mundial.

Durante a pandemia de covid-19, enquanto lidava com o TOC, ele teve a ideia de visitar todos os países do mundo. Já havia viajado bastante como tenista profissional e resolveu transformar o plano em meta. Em abril de 2025, ele concluiu sua jornada ao desembarcar na Coreia do Norte, o último dos 195 países e territórios reconhecidos pela ONU.

De ascendência iraniana e egípcia, Mofid fez essa viagem final acompanhado de alguns dos amigos mais próximos. Pouco mais de 400 pessoas no mundo já completaram essa façanha, e ele foi considerado — segundo alguns critérios — a pessoa mais jovem a realizá-la.

Embora seu recorde tenha sido superado pouco depois, Mofid diz que a experiência de conhecer tantas culturas diferentes mudou completamente sua forma de ver o mundo. “Visitar todos os países não era só uma questão geográfica”, afirma. “Era sobre aprender a viver com o desconforto, encontrar calma na incerteza e se conectar com pessoas de todas as origens.”

A decisão de tentar visitar todos os países surgiu num momento em que ele se sentia no fundo do poço. “Eu estava no meu apartamento, com a ansiedade e o TOC completamente fora de controle. Comecei a pesquisar quantas pessoas tinham ido a todos os países do mundo.”

Quando descobriu que mais pessoas já tinham ido ao espaço do que completado essa volta ao mundo, achou a ideia “insana” — e inspiradora. Percebeu que, embora o recorde oficial do Guinness pertencesse a uma jovem de 21 anos, havia outro registro reconhecido pela plataforma NomadMania, que exige critérios como interação com locais e visita a marcos culturais. Segundo esse critério, o recordista anterior tinha 25 anos e meio — e Mofid, na época, tinha 20.

Animado com a possibilidade, ele criou uma empresa de eventos para financiar a aventura e estipulou o prazo de três anos para iniciar o desafio após concluir a faculdade — o que de fato aconteceu. Embora já tivesse visitado alguns países quando criança, decidiu recomeçar a contagem a partir dos 18 anos.

Como já conhecia cerca de 100 países devido ao trabalho no mundo do tênis e das viagens que fez durante os estudos, restavam pouco mais de 90 destinos para completar a lista. Para tornar a experiência mais significativa — e válida segundo a NomadMania — Mofid impôs a si mesmo algumas regras: precisava fazer algo relevante em cada país e passar ao menos quatro dias na maioria deles.

Para organizar tudo, criou uma planilha enorme com rotas, voos e exigências de visto — um verdadeiro “pesadelo logístico”, segundo ele. Com orçamento apertado, escolheu os trajetos mais viáveis financeiramente. No fim de 2022, colocou algumas roupas e tênis em uma mala esportiva da Nike e deu início à jornada.

Começou pela Europa, por ser uma região mais familiar, e deixou os países mais perigosos para o fim. Também passou pela América do Sul e pela Oceania. Para economizar, pegou ônibus noturnos e se hospedou em acomodações simples — chegou a dormir em hotéis sem água corrente ou eletricidade, como em Níger, e até recorreu a caronas em regiões perigosas.

Uma de suas experiências mais marcantes foi em janeiro de 2023, na Nigéria, seu 115º país. Ao visitar a vila flutuante de Makoko, sentiu-se tão tocado que fundou a ONG Humanity Effect para apoiar as crianças da comunidade. Desde então, voltou várias vezes ao local.

Mas nem tudo saiu como planejado. Em abril de 2024, ao chegar à Argélia, adoeceu gravemente. Ficou 15 horas sem conseguir se mover da cama, com febre alta, calafrios, alucinações. “Foi o momento em que estive mais perto de desistir”, contou.

Após ser hospitalizado, conseguiu se recuperar e explorar o país — que descreve como “inacreditável”. Para ele, os países com menos turistas costumam proporcionar as experiências mais autênticas.

Outro lugar que o impressionou foi o Iêmen, onde teve a sensação de voltar no tempo. “As pessoas se vestem como há centenas ou milhares de anos, moram em casas de barro, usam celulares antigos.” Embora o país enfrente conflitos armados e riscos de segurança — assim como a Argélia —, Mofid diz que lugares em situações difíceis costumam ter os moradores mais gentis.

Apesar da gratidão por viver algo tão raro, ele admite que a solidão foi constante. “Na maior parte do tempo, eu estava sozinho. Você precisa aprender a gostar da própria companhia e realmente se conhecer. Fiquei meses sem ver ninguém conhecido, em lugares com pouca conexão. É uma solidão pesada, mas que me forçou a fazer amigos.”

Aos 25 anos, completou sua missão na Coreia do Norte ao participar da Maratona Internacional de Pyongyang. “Foi incrível. Desembarcar no meu 195º país... Eu me tornei a pessoa mais jovem a visitar todos os países, segundo a NomadMania. Bati o recorde anterior por cerca de seis semanas.”

Para comemorar o feito, foi com os amigos a um bar local. “Tomamos cerveja no país mais isolado do mundo. Fomos a um bar de fundo de quintal. Muita gente nem imagina que isso existe na Coreia do Norte — mas existe.”

Depois, outro viajante, o alemão Lucas Pferdmenges, de 23 anos, superou sua marca. Mas Mofid guarda com carinho a lembrança de ver pessoas comuns vivendo o dia a dia no país: correndo, indo ao trabalho, jogando entre amigos.

“Acho que isso resume o que aprendi: temos interesses e hobbies em comum em qualquer lugar. Ver essa vontade humana de se conectar, mesmo no país mais fechado do mundo, foi muito poderoso.”

Hoje, de volta à Califórnia, Mofid está se readaptando a uma vida mais estável. Olhando para trás, sente orgulho de si mesmo — e aprendeu uma lição: ninguém vai acreditar tanto em você quanto você mesmo.

“Quando contei para meus amigos e família que queria visitar todos os países, ninguém disse que eu conseguiria. Todos falaram: ‘Você vai para o Afeganistão, Coreia do Norte, Somália, Iêmen, Congo... vai acabar morto.’”

Durante a jornada, Mofid fez centenas de amizades e ainda mantém contato com muitas dessas pessoas. “Isso mostra a bondade da humanidade. Caminhar por uma favela na África Central e ser recebido com um sorriso, um copo de chá e um convite para dançar...”

Ao longo do caminho, conheceu várias pessoas que também enfrentavam problemas de saúde mental, o que teve grande impacto sobre ele. “Viajar me ajudou a perceber que transtornos mentais não escolhem origem. Gente do mundo todo compartilha dores parecidas com as minhas. E há algo muito reconfortante nisso.”

Mofid ainda convive com o TOC, mas hoje enxerga a condição de outra forma. “Falar abertamente sobre isso torna tudo menos assustador”, diz. “Sete anos depois de iniciar essa jornada, sinto que sou eu quem controla o TOC — e não o contrário.”

 

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