Como planejar uma viagem: dicas para evitar imprevistos

Pesquisa, planejamento e flexibilidade caminham juntos. Estes são os cuidados que fazem parte da minha rotina antes de cada embarque

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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Todo mundo já passou por isso. Depois de meses de expectativa para a viagem dos sonhos, basta um pequeno imprevisto para mudar o humor. Um museu sem ingressos disponíveis, aquele restaurante tão desejado sem uma mesa livre, a mala inadequada para o clima ou, pior ainda, um problema com a documentação às vésperas do embarque.

A boa notícia é que quase todos esses contratempos podem ser evitados. Planejar não significa transformar a viagem em um roteiro engessado. Pelo contrário. Significa criar as condições para aproveitar o destino com mais leveza e liberdade. Quando pesquisa, reservas e documentos estão em ordem, sobra tempo para o que realmente importa: viver o lugar, descobrir seus detalhes e aproveitar cada experiência sem preocupações desnecessárias.

Viajar faz parte da minha rotina de trabalho, mas também dos momentos mais especiais ao lado dos meus filhos, da minha família e dos meus amigos. Depois de tantos embarques, aprendi que uma boa viagem começa muito antes do aeroporto. Ela nasce na pesquisa, cresce com a expectativa e ganha tranquilidade graças a um bom planejamento.

Não existe um roteiro perfeito, mas existe um planejamento inteligente. Aquele que combina curadoria, informação e flexibilidade. Que garante ingressos para as atrações mais disputadas, reserva uma boa mesa, confere a validade do passaporte, organiza a mala de acordo com o destino e antecipa pequenos detalhes que transformam a experiência.

Foi assim que, ao longo dos anos, criei alguns hábitos que fazem toda a diferença antes de cada embarque. Alguns parecem óbvios. Outros só aprendemos depois de um contratempo. Mas todos ajudam a viajar com mais tranquilidade e a aproveitar melhor o destino. É esse passo a passo que compartilho a seguir, fruto de muitos embarques, alguns erros e muito aprendizado.

Estudo sobre o destino

A primeira coisa que faço é estudar o destino. Muito. Para mim, a viagem começa nessa etapa, quando tento entender a identidade do lugar, seus costumes, seu ritmo e aquilo que o torna único.

Antes de pensar no roteiro, respondo a algumas perguntas fundamentais. Como estará o clima? Quem vai comigo? Existem voos diretos? O destino é seguro? Depois amplio a pesquisa: converso com pessoas que já estiveram lá, consulto sites especializados, como o CNN Viagem & Gastronomia, leio guias e acompanho perfis confiáveis nas redes sociais. O objetivo não é copiar um roteiro, mas entender o que realmente combina com o meu estilo de viagem.

Só então defino o propósito da jornada. Quero priorizar a gastronomia? Mergulhar na história local? Explorar a natureza? Quando essa resposta fica clara, montar o roteiro se torna muito mais simples. Se o foco for a culinária, os restaurantes passam a organizar os dias. Se a prioridade for cultura, os museus e monumentos definem o percurso. Também gosto de concentrar passeios na mesma região da cidade para evitar deslocamentos desnecessários.

Mas um bom roteiro precisa respirar. Sempre deixo espaço para mudar os planos caso descubra um café interessante, uma exposição inesperada ou simplesmente queira passar mais tempo em um lugar. As melhores lembranças costumam surgir justamente desses desvios.

Outra dica valiosa é conversar com quem realmente conhece o destino. Sempre entro em contato com o concierge do hotel antes da chegada e peço sugestões de restaurantes, bares e experiências. Também pergunto aos guias onde eles costumam comer e quais lugares frequentam quando estão de folga. São essas recomendações que, muitas vezes, fazem a diferença.

Por fim, sempre consulto o calendário local. Um festival gastronômico, um grande show, uma maratona ou um feriado podem transformar completamente a experiência. Também gosto de entender o ritmo da cidade. Há destinos que acordam cedo e encerram o dia no fim da tarde; outros só ganham vida à noite. Conhecer essa dinâmica ajuda a aproveitar muito melhor cada viagem.

Ingressos

Alguns tíquetes de museus, exposições e atrações devem ser comprados antes. Em destinos e atrativos concorridos, corremos muito risco de os ingressos não estarem disponíveis para o dia que quisermos.

Já aconteceu comigo no Museu Frida Kahlo, na Cidade do México, que estava ansiosa para conhecer. Fui sem ingressos, achando que conseguiria facilmente comprar na bilheteria, mas voltei ao hotel de mãos abanando.

Assim, algumas atrações exigem organização antecipada. Basta pensar na Igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, que abriga "A Última Ceia", de Leonardo da Vinci; nos Museus do Vaticano e no Coliseu, em Roma, ou em atrações bastante disputadas em Paris, como o Louvre e a Torre Eiffel, principalmente na alta temporada. Em muitos casos, deixar para decidir em cima da hora significa não conseguir entrar.

Um detalhe que pode passar despercebido: verifique os dias e horários de funcionamento das atrações. Muitos museus fecham às segundas-feiras, enquanto mercadões funcionam apenas em determinados dias da semana.

Restaurantes

Para mim, a gastronomia é um dos pilares de qualquer viagem, já que conhecer um destino significa conhecê-lo pela mesa. É por meio da comida que entendemos tradições, inovações, histórias familiares e até aspectos da economia local.

Muito tempo antes de embarcar, começo a pesquisar pratos típicos, mercadões, lugares tradicionais, restaurantes recém-abertos e jovens chefs que estão movimentando a cena gastronômica local.

Listas internacionais ajudam bastante nessa curadoria. Costumo consultar o Guia Michelin, com suas diferentes distinções e categorias; as seleções do 50 Best, seja para restaurantes e bares, assim como a plataforma 50 Best Discovery; a La Liste e diversos veículos especializados da imprensa local. Mais do que rankings e premiações, elas me ajudam a nortear certas escolhas, abrindo os horizontes.

Também busco recomendações de chefs (temos uma seção inteira no CNN Viagem & Gastronomia dedicada a onde os chefs comem e onde os bartenders bebem em todo o mundo). Assim, monto uma lista de restaurantes que gostaria de conhecer e, sempre que possível, faço reservas com antecedência.

Isso vale não apenas para restaurantes estrelados, mas também para casas tradicionais ou endereços bem populares. Muitos trabalham exclusivamente com reservas e outros têm filas gigantescas na porta, que podem durar horas. É comum que uma refeição muito esperada acabe ficando de fora porque não houve planejamento.

Mas e se eu quiser deixar a viagem mais orgânica e não reservar nada? Eu faço uma listinha do que tem de interessante e vou tentando me organizar de acordo com os dias, montando opções de plano A, B e C caso eu chegue no local e não consiga entrar. É uma maneira de manter a espontaneidade sem correr o risco de perder boas oportunidades.

Pelo menos em algum momento da viagem, o contrário também se aplica: deixo um dia ou uma refeição livre, para escolher onde comer na hora. Recentemente, andando por Liubliana, capital da Eslovênia, me deparei com um bar de vinhos que não estava no roteiro, a Vinoteka Movia. Lá, pude conhecer mais dos vinhos eslovenos, que foram uma grata surpresa, e ainda bater um papo descontraído com os donos. Foi um dos pontos altos de toda a viagem.

Documentos em dia

Outra parte óbvia do planejamento é separar toda a documentação necessária para a viagem muito tempo antes dela acontecer. Apesar de "óbvia", vários erros ou falta de atenção podem cancelar a sua viagem.

Já vi passageiros impedidos de embarcar por causa de vistos vencidos, passaportes prestes a expirar ou porque o documento não possuía páginas livres para receber carimbos — sim, isso existe e é um problema.

Sempre se lembre de levar a cópia física e original dos seus documentos de identidade, como RG para viagens dentro do Brasil — e para alguns países da América do Sul — e passaporte para viagens internacionais. Com o passaporte, atenção:

  • Verifique a validade: em muitos países, o passaporte precisa ter pelo menos seis meses de validade a partir da data prevista de retorno. Não espere ele vencer para conferir essa exigência;
  • Confira se há páginas em branco suficientes: a recomendação é ter ao menos duas páginas livres para os carimbos de entrada e saída. Se o destino exigir visto colado no passaporte, será preciso ainda mais espaço;
  • Não é possível acrescentar páginas: se o passaporte estiver sem folhas livres, será necessário solicitar um novo documento antes da viagem;
  • Nem toda página conta: as páginas destinadas a observações não podem ser usadas para carimbos de imigração ou vistos;
  • Avalie o estado do passaporte: um documento rasgado, molhado, manchado, riscado ou danificado pode ser considerado inválido pelas autoridades e resultar até na recusa de embarque ou de entrada no país.

Além desses documentos fundamentais, temos que verificar se o destino (ou os múltiplos destinos da viagem) exige visto. Portadores de passaporte brasileiro estão isentos de visto para viagens a turismo em mais de 150 países no mundo. Mesmo assim, destinos populares como Estados Unidos, Canadá, México, Egito e Austrália, por exemplo, exigem a autorização, que é concedida de diferentes formas, com diferentes taxas e validades.

O processo do visto dos Estados Unidos, por exemplo, costuma exigir um tempo maior, com possíveis idas aos consulados no Brasil; já o visto egípcio é pago na chegada ao país, que tem implementado uma versão em QR Code no lugar do documento colado no passaporte.

Outro ponto importantíssimo: preste bastante atenção aos países de conexão. Mesmo que o destino final não exija visto para brasileiros, o país onde você fará uma escala pode solicitar um visto de trânsito ou outra autorização de entrada.

O Ministério das Relações Exteriores nos lembra que, apesar de alguns países não exigirem visto ou autorizações de brasileiros, outros documentos devem ser levados em consideração, como certificados de hospedagem, comprovantes do objetivo da viagem, seguro-viagem, cartas-convite e passagens de retorno ao Brasil. Mesmo que não seja uma regra, eu sempre levo esses documentos impressos para facilitar na hora de passar pela imigração, mas também mantenho cópias digitais no celular caso aconteça algum imprevisto.

Lembre-se: as regras de entrada variam de país para país. Em caso de dúvidas, sempre consulte os sites oficiais das autoridades migratórias, consulados ou embaixadas do destino antes de embarcar.

E nem tudo se resume ao RG, passaporte e visto. Seguro-viagem é fundamental em toda viagem e é até obrigatório em muitos países. Outro documento que as pessoas costumam esquecer é a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), caso a ideia seja alugar um carro.

Em alguns destinos, como os do Mercosul e os Estados Unidos, a CNH brasileira costuma ser suficiente. Já em outros, como Itália e Grécia, é necessário apresentar também a Permissão Internacional para Dirigir (PID). Consulte sempre a legislação local e as exigências da locadora de veículos.

E o dinheiro? Pessoalmente, gosto de combinar diferentes formas de pagamento. Levo uma pequena quantia em papel-moeda local para gorjetas ou souvenirs, assim como cartões de crédito e também cartões de contas globais, que costumam oferecer boas taxas para compras internacionais. Em certos casos, lembre-se de avisar previamente o banco sobre uma viagem internacional, para evitar bloqueios por suspeita de fraude.

Hora de pensar na mala

Parece básico, mas, antes de separar qualquer roupa, verifico a previsão do tempo durante toda a viagem e penso se haverá alguma ocasião especial: um restaurante que exige um certo dress code, uma caminhada longa, alguma atividade ao ar livre e até regras para entrar em certos lugares, como mesquitas e templos.

Também aprendi, ao longo dos anos, que não faz sentido levar roupa para cada dia da viagem. A estratégia é reutilizar peças sem nenhum problema, especialmente calças jeans e casacos. Os acessórios ajudam a transformar um look repetido, ocupando muito menos espaço na bagagem.

Como menos é mais, lembro de deixar um pequeno espaço livre na mala para eventuais compras.

Na véspera do embarque, monto um kit de sobrevivência. Na bagagem de mão, sempre levo uma nécessaire com adaptador universal, carregadores, bateria e cabos extras, fones de ouvido e outros itens que julgar indispensáveis. Também levo uma troca de roupa: sempre estou preparada para atrasos, cancelamentos ou até extravio de mala despachada.

Também mantenho uma segunda nécessaire com pequenos produtos de higiene e conforto, incluindo hidratante para as mãos, protetor labial, lencinhos de papel, demaquilante, escova de dentes, medicamentos básicos e todas aquelas miniaturas de cosméticos que costumamos guardar durante o ano. Eles fazem a diferença nessas horas.

Prestes a embarcar com as crianças

A viagem em família exige um planejamento extra, já que nem todos os momentos da jornada são pensados para os pequenos, como longas esperas em restaurantes, filas, imigração ou deslocamentos longos. Por isso gosto de ter em mãos algumas opções para entretê-los.

Jogos como Rummikub, Dobble, Uno ou Jenga possuem versões para viagens e ocupam pouco espaço. Eu particularmente adoro livros de atividades relacionados ao destino, que costumam ser excelentes porque permitem que as crianças aprendam sobre o lugar enquanto vivem a experiência, seja colorindo, completando palavras ou apenas lendo o material.

Quando nada disso estiver disponível, lembre-se de que papel e caneta já resolvem a maioria dos casos.

Dicas extras

  • Em certos momentos, usar os dados móveis não é necessário: aplicativos como Google Maps e os Mapas da Apple nos dão a opção de baixar o mapa de um lugar para usá-lo off-line;
  • Também baixe aplicativos que podem ser úteis para aquele destino ou viagem, como apps de transporte público oficiais, que nos ajudam a navegar pelos diferentes sistemas de mobilidade de uma cidade e conferir preços e tempos de deslocamentos; algum aplicativo de tradução, ou até de apps de parques temáticos, como no caso de Orlando, que facilitam o dia de diversão;
  • Com tantas ferramentas digitais disponíveis, a Inteligência Artificial pode ajudar na hora de montar um roteiro, mas com ressalvas. As ferramentas podem nortear algumas escolhas e montar um check-list, mas estão sujeitas a muitos erros. Confira a matéria para entender como a IA pode nos ajudar nesses casos;
  • Vai esquiar pela primeira vez? Confira um guia prático com dicas e todo o vocabulário necessário. Está indo viajar ao lado dos filhos? Confira todos os cuidados para ficar atenta antes e durante a viagem. O intuito da viagem é abraçar a natureza e fazer trilhas? Veja dicas de como realizá-las em segurança.

Viajar nunca será uma ciência exata. Sempre haverá espaço para o inesperado, e ainda bem. Afinal, algumas das melhores histórias surgem justamente quando saímos do roteiro. Mas descobri, depois de tantos embarques, que um bom planejamento não tira a espontaneidade da viagem. Ele apenas abre espaço para que ela aconteça.

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