Idosa vira atração turística após apostar em roupas tradicionais na Itália
Aos 94 anos, Margherita Ciarletta é a última habitante que ainda usa, todos os dias, as roupas tradicionais de séculos atrás do vilarejo de Scanno

Em Scanno, um vilarejo medieval encravado nas montanhas selvagens da região de Abruzzo, no centro da Itália, há uma mulher que se veste como se o tempo nunca tivesse passado.
Aos 94 anos, Margherita Ciarletta — espirituosa, ferozmente independente e reservada quanto à própria privacidade — é a última habitante que ainda usa, todos os dias, as roupas tradicionais de séculos atrás de Scanno.
Os turistas que percorrem os becos de pedra não vão apenas em busca das vistas das montanhas ou das igrejas ornamentadas. Muitos procuram por “Nonna Margherita” ou, como os moradores a chamam, “L’Ultima Regina” — a Última Rainha.
Frequentemente, eles circulam pela vila batendo de porta em porta até encontrá-la e, então, tiram selfies ao seu lado. Mas Ciarletta rejeita os holofotes: insiste que não é celebridade alguma. Para ela, é apenas uma avó comum, orgulhosa de suas raízes rurais.
Ciarletta conta que usa o mesmo estilo de vestido de lã escura, com mangas longas e faixa de algodão na cabeça, desde os 18 anos. “Sempre gostei dessa roupa e tenho orgulho de vesti-la”, disse à CNN internacional.
Por séculos, esse foi um dos dois trajes típicos das mulheres de Scanno. Um, mais sóbrio, usado no dia a dia para o trabalho no campo e as tarefas domésticas — o mesmo que Ciarletta usa até hoje. O outro, mais elaborado, com bordados, corpete ricamente decorado e chapéu, refletia status social e era reservado para os domingos, missas, festas e celebrações religiosas.
Algumas mulheres ainda recorrem ao traje ornamentado em desfiles e festas cívicas. Mas só Ciarletta continua usando, diariamente, a roupa de trabalho de suas antepassadas — variando entre versões pretas ou azul-escuras, com detalhes brancos.
“Esse era, e ainda é, meu vestido de todos os dias”, afirma. “Meu marido nunca gostou, mas isso não me impediu de usá-lo tanto no campo quanto nas festividades.”
“Faço tudo sozinha”
Depois que suas duas irmãs — que também mantinham o costume — faleceram, Ciarletta se tornou a última mulher de Scanno a viver com o traje tradicional. A notícia se espalhou de boca em boca e acabou chegando às redes sociais.
Agora, autoridades locais tentam registrar os trajes de Scanno junto à Unesco como patrimônio cultural imaterial.
Nascida e criada na vila, Ciarletta nunca saiu de lá. Vive na mesma casa de pedra desde 1950 e, apesar da idade avançada, ainda dá conta da rotina sem ajuda, recorrendo a uma bengala apenas de vez em quando.
“Faço tudo sozinha”, conta. “De manhã cuido da casa, limpo o jardim, cozinho e dou uma volta rápida. Converso com amigos, vizinhos e familiares. Às vezes caminho pelos campos acima da vila.”
O único hábito que abandonou foi a visita diária ao bar local para tomar um espresso.
Quando os netos a visitam, gosta de preparar sfoglia caseira e gnocchi com folhas de nabo, uma especialidade de Abruzzo, famosa por sua culinária rústica. Em troca, eles ajudam a espantar turistas indesejados.
“São maravilhosos, cuidam de mim o tempo todo. Tenho muita sorte de tê-los”, diz.
Tornar-se atração turística, no entanto, nem sempre lhe agrada. Ciarletta já recusou equipes de TV e, embora receba bem a maioria dos visitantes e não se incomode em aparecer no Instagram, certa vez expulsou um grupo que entrou pela porta de sua casa sem ser convidado.
Com fala clara, olhar atento e frases diretas, ela prefere o italiano padrão em vez do dialeto local, muitas vezes usado pelos mais velhos como barreira contra forasteiros. É acessível, mas nos seus próprios termos.
“Como sou a última a vestir esse traje, as pessoas vêm em busca de uma foto comigo”, admite. “Mas às vezes os turistas são muitos, e isso pode ser incômodo.”
Mudanças em Scanno
Ao longo da vida, Ciarletta testemunhou grandes transformações. Por séculos, Scanno prosperou com famílias de fazendeiros abastados que disputavam para erguer palacetes, igrejas e fontes. Suas ruas estreitas formam um labirinto de construções barrocas, românicas e góticas lado a lado com casas humildes que lembram presépios.
Hoje, o despovoamento esvaziou a cidade. De mais de 4.000 habitantes nos anos 1920, restam cerca de 1.600. Muitas famílias migraram para cidades maiores ou para o exterior — sobretudo os Estados Unidos — em busca de trabalho e melhores condições de vida.
“Estou feliz com minha vida”
Ciarletta diz que a vida de sua juventude já não existe mais. Naquele tempo, passava os dias nos pastos acima da vila, cuidando de ovelhas, colhendo lenha, plantando e fazendo colheitas.
“Antes trabalhávamos muito; agora, esse trabalho acabou. Era uma vida dura, mas estávamos sempre juntos”, lembra. O forte senso de comunidade desapareceu.
“Sinto falta de algumas tradições que se perderam, sinto falta do meu marido, que já se foi, e também de quando havia mais vizinhos e sempre comíamos juntos. Nunca estive sozinha. Hoje, às vezes, estou.”
Apesar das perdas, Ciarletta garante que não sente nostalgia nem tristeza pelo tempo que passou. Gosta das comodidades modernas e da vida mais confortável que o progresso lhe trouxe.
“Trabalhei no campo até os 70 anos, cuidando também dos animais da família. Era um trabalho fisicamente pesado”, recorda. “A vida que levo hoje é muito melhor. Estou melhor agora do que antes: tenho tempo para mim, descanso e aprendi a valorizar o lazer.”
“Tenho muito tempo livre, não há mais cansaço nem desgaste físico como antes. Gosto de ser avó, estou feliz com a minha vida.”
Em toda a vida, saiu da vila apenas algumas vezes para ocasiões especiais — e nunca viajou para fora do país.
Não surpreende que não pense em fazer as malas: turismo nunca foi a sua prioridade.



