Mergulho em caverna sob ruas de Budapeste apresenta lado oculto da cidade

A caverna Molnár János se estende por mais de 5,8 quilômetros e mergulha quase 90 metros abaixo da superfície

Jennifer Walker, da CNN
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Todos os dias, multidões lotam os banhos termais Lukács, em Budapeste, na Hungria, relaxando em piscinas quentes e ricas em minerais enquanto os bondes amarelos rangem pela rua Frankel Leó. Poucos imaginam que, a poucos metros dali, sob as ruas históricas da cidade, existe um mundo oculto: um vasto sistema de cavernas submersas aquecidas por fontes geotérmicas.

A partir de sua entrada, escondida na base de Rózsadomb — a Colina das Rosas —, um bairro nobre de vilas elegantes e ruas arborizadas, a caverna Molnár János se estende por mais de 5,8 quilômetros e mergulha quase 90 metros abaixo da superfície.

Inundada por águas cristalinas na temperatura de um banho morno, é uma das maiores cavernas ativas de águas termais do mundo — e uma das raras abertas a mergulhadores de caverna certificados.

O acesso à caverna passa despercebido a quem caminha pela rua. Ao lado de um penhasco calcário, um pequeno lago coberto de lírios e algas brilha ao lado de um prédio do século XIX em ruínas, que lembra uma casa de banhos otomana. Na parede próxima, um mural de mergulhador dá pistas sobre os segredos escondidos abaixo.

Por um portão, passando por um antigo balneário — uma das primeiras construções de concreto da Hungria —, um beco estreito leva até uma porta discreta no penhasco. Acima dela, um letreiro anuncia “Fábrica da Felicidade”, ladeado por emojis sorridentes. Na entrada de tijolos, o calor geotérmico faz a temperatura subir.

Equipamentos de mergulho se alinham pelo corredor. Ao fim, atrás de uma cortina, uma escada desce até uma entrada rochosa, onde águas escuras aguardam na penumbra. Ali, os mergulhadores entram na água morna, e os fachos das lanternas rompem a escuridão enquanto eles descem para um mundo silencioso e cintilante.

Milênios em formação

Budapeste é famosa por seus suntuosos banhos e spas, mas suas águas termais fizeram mais do que aliviar músculos e curar doenças. Ao longo de milênios, a mesma atividade geotérmica que abastece os banhos da cidade esculpiu uma rede com mais de 200 cavernas sob as ruas — à medida que fontes ricas em minerais dissolviam lentamente o calcário, a marga e o relevo cárstico da região.

A Molnár János continua “viva” e em crescimento. A água, rica em sulfeto de hidrogênio e dióxido de carbono, segue percolando pelas rochas, formando um coquetel levemente ácido que corrói as paredes. O resultado é um labirinto de câmaras e passagens como um imenso queijo suíço.

“É muito raro encontrar cavernas de água quente”, explica Csaba Gőcze, guia da MJ Cave, operadora local que organiza mergulhos guiados. “Normalmente, mergulho em caverna significa enfrentar águas entre 4 e 15 °C. Aqui, na camada superior, temos 27 °C.”

O calor se distribui em faixas distintas: 27 °C na superfície, caindo para 20 °C e depois para 17 e 18 °C conforme a água fria das colinas de Buda se mistura nas camadas inferiores. Parte dessa água ainda abastece os banhos Lukács por um cano subterrâneo — embora a entrada original, junto à escadaria de pedra que descia até a água, tenha sido desviada para facilitar o acesso dos mergulhadores.

Um mundo escuro

A Molnár János surpreende muitos visitantes de primeira viagem. Ao contrário das passagens estreitas e tortuosas de outras cavernas, ela revela câmaras espaçosas e correntes suaves.

“É absolutamente maravilhosa”, diz Csaba. “Espaços enormes, abertos, e pouquíssimas restrições. É um mergulho relativamente fácil — desde que se tenha o treinamento adequado.”

Esse treinamento é indispensável: apenas mergulhadores certificados podem entrar. A completa escuridão e o ambiente frágil exigem experiência. A água é perfeitamente clara — até que alguém toque nas paredes ou agite o fundo macio, levantando partículas finas de sedimento que logo turvam o feixe da lanterna.

“Normalmente, você enxerga até onde a luz alcança”, explica Csaba. “Mas se alguém toca nas paredes ou chuta o fundo, a visibilidade cai a zero muito rápido.”

Para evitar isso, os mergulhadores seguem uma linha-guia esticada a um metro do chão da caverna, garantindo que as águas permaneçam intocadas. O cuidado é recompensado com um passeio por uma paisagem surreal: paredes marcadas por minerais e cravejadas de cristais, câmaras que mudam de cor e textura a cada trecho.

“Vários pontos da caverna são completamente diferentes: rochas de cores variadas, áreas com cristais e outras sem”, conta Csaba. “Os melhores mergulhos são aqueles em que você passa por várias dessas áreas, experimentando tudo.”

Pequenos camarões — quase invisíveis — disparam na luz. Conchas e ouriços fossilizados ainda se agarram às paredes, lembranças do mar Panônico, que há milhões de anos cobria grande parte da atual Hungria.

Ciência e aventura

A caverna ainda não foi totalmente explorada. O trecho oficialmente mapeado soma 5,8 quilômetros, mas novos corredores são descobertos com frequência. Voluntários exploradores realizam expedições semanais, fazendo medições, estendendo linhas e atualizando mapas que ainda não foram publicados.

“O mapa oficial aponta cerca de 5.800 metros, mas há passagens sem linha”, explica Csaba. “Algumas não levam a lugar nenhum, mas outras podem fazer parte de algo maior.” Ele acredita que a caverna possa se estender até oito quilômetros.

Pesquisadores também coletam amostras d'água, monitorando microplásticos e sinais de poluição. Um estudo de 2022 detectou alguma contaminação nos pontos de entrada conhecidos, mas as áreas recém-exploradas continuam intactas e preservadas.

Para mergulhadores certificados, a experiência é surpreendentemente acessível. A MJ Cave organiza saídas pela manhã, mediante reserva. Após uma explicação inicial e preparação dos equipamentos, o primeiro mergulho de uma hora segue a linha principal, com possibilidade de explorar áreas mais profundas em seguida — alguns mergulhos chegam a quase 60 metros de profundidade e exigem paradas de descompressão.

Viajar à Hungria sem equipamento não é problema: todo o material pode ser alugado no local.

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