1º aeroporto internacional da Hungria é joia esquecida do país; conheça
Localizado na divisa do 11º distrito de Budapeste, o aeroporto Budaörs funciona ininterruptamente desde 1937
Entrar no Aeroporto Budaörs, em Budapeste, é como voltar no tempo — mais parece adentrar uma cápsula temporal do que um aeródromo moderno.
Localizado na divisa do 11º distrito da capital húngara, o Budaörs foi o primeiro aeroporto internacional da Hungria, funcionando ininterruptamente desde 1937.
Hoje, seu campo gramado vibra com o som constante de aviões leves. Pilotos amadores, aviões particulares e helicópteros decolam dali todos os dias.
O terminal elegante, em estilo Bauhaus, nasceu de um concurso de arquitetura realizado na década de 1930, vencido por Virgil Bierbauer e László Králik. Atualmente, o edifício é tombado como patrimônio histórico.
Um aeroporto com história
Pela manhã, a luz suave atravessa o teto de vidro do terminal, projetando sombras geométricas sobre um espaço que quase não mudou em 90 anos.
O edifício revela elementos típicos do modernismo funcional da época: linhas limpas, salão circular, corrimãos curvos e um layout intuitivo — com direito a controle de passaporte na calçada e uma área coberta para desembarque de carros. Um vislumbre fascinante do passado da aviação húngara.
Ícone da aviação no país, Budaörs já foi sede do maior hangar da Europa.
Sua localização — próxima ao centro da cidade e a uma linha férrea — fazia dele uma escolha ideal. Mas, com o crescimento da demanda por voos, o aeroporto não tinha espaço para se expandir.
Após a Segunda Guerra Mundial, o tráfego internacional foi transferido para um novo aeroporto, hoje chamado Aeroporto Internacional Ferenc Liszt, mas o Budaörs não desapareceu. Ele se reinventou.
Parado no tempo — mas ativo
“Entre todos os aeroportos para aviões leves da Hungria, este é provavelmente um dos mais movimentados”, diz Eszter Molnár, que gerencia as operações do local há seis anos.
“Recebemos muitos voos privados vindos da Alemanha, Holanda, França, Romênia… Os pilotos passam uma ou duas noites em Budapeste e depois seguem viagem. Alguns até continuam para outras cidades da Europa.”
A parte de trás do prédio, com pintura descascando e alvenaria deteriorada, pode dar a impressão de abandono. Mas basta passar pelos portões para ver a movimentação no céu: helicópteros cortando os ares e dezenas de pequenos aviões alinhados na pista.
Um dos principais operadores é a FlyCoop, empresa que começou com serviços agrícolas nos anos 1990 e hoje oferece uma gama completa de soluções em aviação.
Com mais de 40 aeronaves na frota, a FlyCoop atua com táxis aéreos, locação de aviões, traslados de helicóptero — muito populares durante o GP de Fórmula 1 no Hungaroring —, além de programas de formação de pilotos, tanto para húngaros quanto para estrangeiros.
“Cuidamos de tudo internamente”, explica Gergely Ocsovai, coordenador de treinamento da empresa.
“Oferecemos voos panorâmicos, táxi aéreo e formação completa de pilotos de avião e helicóptero, até a licença comercial.”
Clima retrô e turismo aéreo
Nada de longas filas ou salas de embarque lotadas. Os voos panorâmicos são descomplicados e personalizados: variam de 25 minutos sobre a cidade a uma hora sobre o Danúbio, Visegrád e Esztergom.
É só reservar com antecedência, chegar no horário, conhecer o piloto e embarcar. Os aviões e helicópteros acomodam de três a cinco pessoas.
Quer sobrevoar o lago Balaton — o maior da Europa Central? Também dá.
Embora o Budaörs não opere voos internacionais comerciais, ele recebe aeronaves particulares vindas de países do Espaço Schengen.
Para quem vem de fora da região (ou pretende sair dela), há um esquema especial: é preciso avisar com 24 horas de antecedência, e então funcionários de imigração e alfândega do aeroporto Ferenc Liszt são enviados até lá para processar os passageiros.
“É um arranjo incomum, mas funciona”, diz Eszter.
Tesouros da aviação
Além das aeronaves modernas, o aeroporto abriga relíquias raras da aviação — e em funcionamento.
No hangar, ao lado dos aviões atuais, há exemplares vintage mantidos pela Fundação Goldtimer, uma organização sem fins lucrativos que se dedica à restauração de aviões históricos em condições de voo.
“Esses aviões exigem cuidado constante”, afirma Eszter. “A fundação restaura e até reconstrói as aeronaves do zero, se necessário.”
O destaque é um Lisunov Li-2, avião soviético de passageiros construído em 1949 no Uzbequistão e entregue à Hungria no mesmo ano. A aeronave atuou tanto na aviação civil quanto militar — e hoje é a única ainda em operação no mundo.
De abril a outubro, é possível reservar um voo de 15 minutos por cerca de US$ 50 (R$ 276) em alguns sábados selecionados.
Outros aviões vintage também voam nesses finais de semana de arrecadação, em jornadas consecutivas das 10h às 18h.
Cenário de filme e eventos
Com sua arquitetura de época, o aeroporto também chama atenção como locação de cinema — chegou a aparecer no filme "Evita" (1996), estrelado por Madonna.
Além disso, eventos e festivais de música são realizados frequentemente no local. Na segunda-feira em que a reportagem foi feita, a equipe ainda recolhia o lixo e desmontava equipamentos após um festival de música eletrônica no fim de semana.
“As pessoas vêm por um evento e acabam reservando um voo”, diz Eszter. “No último fim de semana, tivemos o House Picnic, um festival de música eletrônica. Explicamos às pessoas que podiam voar, e elas toparam.”
“Foi um sucesso. Muita gente veio para dançar e acabou sobrevoando a cidade.”
Mesmo para quem prefere ficar em terra firme, o Budaörs vale a visita. Dá para caminhar livremente e observar os pousos e decolagens de helicópteros e aviões leves.
O clima é descontraído, acolhedor, quase familiar — e é nítido que todos ali têm verdadeira paixão pela aviação.
“Todo dia aqui parece uma viagem no tempo”, diz Eszter. “Sim, o prédio está um pouco desgastado — ele é tombado, e a restauração exige especialistas. Mas todo mundo aqui ama esse lugar.”
“Nosso objetivo é que o aeroporto continue vivo, usado, preservado — e não caia no esquecimento.”



