Roteiro por vilarejos do Douro em uma das estradas mais belas do mundo
Além de boa comida e vinhos, região no norte de Portugal esbanja história com cidadezinhas que reúnem atrativos turísticos e paisagens dignas de cartão-postal
Boas degustações e descobertas gastronômicas são experiências que uma viagem ao Douro nos reserva. Mas passear por esta magnífica região no norte de Portugal também significa ir além: é sobre percorrer paisagens únicas, atravessar montanhas, navegar pelo rio e viver o ritmo de cidadezinhas do interior.
Patrimônio Mundial da Unesco, o Vale do Douro é a mais antiga área vitivinícola demarcada e regulamentada do mundo. De suas quintas nascem vinhos elogiados em todo o planeta e, além do apelo enogastronômico, o peso histórico é outro motivo para colocarmos a região no roteiro, como fiz para a 10ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia.
O Vale é cortado pelo rio Douro. Ele nasce na Espanha, ganha fama em Portugal e deságua no Atlântico pelo Porto. Ao todo, soma quase 900 quilômetros, um dos maiores da Península Ibérica. Por isso, uma das melhores maneiras de nos locomovermos por aqui é justamente a bordo de embarcações, que usam o rio como via expressa. De quebra, o passeio pitoresco nos convida a abrir um vinho.
Mas outra maravilha nos espera fora das águas: a Estrada Nacional 222, considerada uma das mais bonitas do mundo. Com mais de 225 quilômetros de extensão, ela acompanha quase todo o percurso do rio em território português, desde Vila Nova de Gaia até a Vila Nova de Foz Côa. O trecho entre Peso da Régua e Pinhão é um dos mais cobiçados devido à beleza entre uma curva e outra.
A estrada passa por municípios, vilarejos e aldeias que merecem a parada. As localidades são tão pequenas e pitorescas que fica difícil escolher uma só. Entre atrativos históricos, paisagens sedutoras e restaurantes premiados, divido abaixo lugares que merecem um lugar especial no roteiro.
Conheça 4 localidades que merecem destaque no roteiro pelo Douro:
1. Lamego
Uma das cidadezinhas mais barrocas do Douro, Lamego tem uma história que se arrasta desde os tempos dos Visigodos. Em resumo: foi tomada pelos mouros, reconquistada pelos cristãos, passou a ser novamente dos mouros e, no século XI, foi conquistada por Fernando Magno de Castela. Fora isso, castelos e igrejas nos levam diretamente à era medieval.
O passeio pode começar pela Rua da Olaria, que mantém fachadas de granito do século XIX e que remete aos oleiros, que mexem com um tipo de artesanato de barro muito comum na região.
A alguns passos fica a Sé de Lamego, que nos mostra que a história de Portugal foi construída em camadas. A fachada é gótica, a torre é renascentista e o interior é barroco. Fundada em 1129, a igreja é marca da retomada cristã após a conquista dos mouros.
Do outro lado da Avenida Alfredo de Sousa, a principal da cidade, fica A Presunteca, cuja especialidade é o presunto de Lamego. A iguaria passa por uma cura de 25 dias no sal e mais 20 meses ao ar livre. Chouriço mouro, queijo de cabra e azeite acompanham bem a carta de vinhos do Douro.
A avenida é um ponto de encontro social não somente para os visitantes, mas também para os locais. Ela liga a Sé à escadaria que leva ao Santuário de Nossa Senhora dos Remédios. São mais de 680 degraus, que muitos peregrinos sobem de joelhos como agradecimento ou promessa.
Lá em cima, a recompensa: no topo do Monte Santo Estêvão, o Santuário esbanja azulejos portugueses e vistas panorâmicas. Rodeada por um parque, a escadaria é lar do Pátio dos Reis, formado pela Fonte dos Gigantes e por várias estátuas. A igreja também é uma relíquia, já que data do século XVIII, mas possui raízes ainda mais antigas, do século XIV.
2. Armamar

Trata-se de mais uma das cidadezinhas pitorescas da região, com paisagens que enquadram o Douro de maneira deslumbrante. Além das vinhas, Armamar se destaca pela produção de maçãs, consumidas em todo o país.
Entre os atrativos, sobressaem-se os mirantes, que os portugueses chamam de miradouros. Entre eles há o Miradouro da Misarela, que nos entrega vistas do Douro igual a um cartão-postal. Há também o Miradouro e Ermida de São Domingos, que, além da vista, possui uma capelinha histórica.
No centrinho, a Igreja Matriz de São Miguel de Armamar é um exemplo de arquitetura medieval. A história diz que a igreja foi erguida com pedras do antigo Castelo de Armamar, com data estimada da construção no fim do século XII.
Porém, um dos maiores atrativos da localidade é o DOC, restaurante do chef Rui Paula, um dos melhores do país. Fica no povoado de Folgosa, bem às margens do rio, onde passa a Estrada Nacional 222.
Com uma carreira consolidada, o chef não coleciona somente estrelas, mas também histórias e receitas de família. “Prêmios e estrelas trazem motivação. Isso se você tiver uma cozinha bem organizada, com todos sabendo o que estão fazendo.”
Tenho duas estrelas Michelin, mas quero ter a terceira. Claro que lidamos com a pressão. Por isso temos que ter uma equipe muito boa, pois sozinhos não fazemos nada
O restaurante é moderno, todo envidraçado, com vistas diretas para o rio, tendo, inclusive, um terraço ao lado das águas. Da cozinha saem pratos que mesclam as raízes transmontanas do chef com as tradições do Douro.
Em um almoço, ele começa me servindo uma enguia com maçãs e castanhas. Depois, chega à mesa um bacalhau carnudo, que fica entre 10 e 12 minutos no forno, acompanhado de purê de grão de bico, finalizado com azeite de coentro. Para acompanhar, vinhos do Douro, é claro. Os menus na casa podem ser degustação, com seis, 11 e 14 tempos, a partir de 110 euros (cerca de R$ 695) sem harmonização, ou ainda à la carte, com seção vegetariana.
3. Pinhão
A freguesia de Pinhão, pertencente ao município de Alijó, é uma das mais charmosas do norte de Portugal. A Estrada Nacional 222 passa por aqui e corresponde ao trecho mais famoso, conhecido como um dos mais belos do mundo.
Por conta de sua localização, Pinhão teve papel estratégico no escoamento de Vinho do Porto, primeiro com os tradicionais barcos rabelos, depois com os trens. Uma das joias da vila é justamente a antiga estação ferroviária, ornamentada com azulejos que formam mais de 20 painéis que documentam o trabalho nas vinícolas. O mais bacana? A estação segue ativa tanto para trens regionais quanto turísticos.
A paisagem em Pinhão é poética, onde as vinhas encontram o rio Douro. No meio disso, uma ponte se sobressai: a Ponte do Pinhão, inaugurada em 1906 e projetada por ninguém menos que Gustave Eiffel - o mesmo por trás do símbolo da França.
A festa anual em homenagem à Nossa Senhora da Conceição, no segundo domingo de julho, costuma agitar a vila, e, no dia a dia, adegas tradicionais, vinícolas e lojinhas de artesanato abrem as portas para visitantes. A dica é emendar um belo almoço no Seixo by Vasco Coelho Santos, restaurante que fica dentro da Quinta do Seixo, na vila de Tabuaço, entre vinhas centenárias às margens do rio.

Hoje, quem pilota a cozinha é a chef Teresa Cruz, que aplica ensinamentos de sazonalizade e técnicas no fogo. Os ingredientes são regionais e as apresentações são contemporâneas. O resultado? Experimentamos a alma culinária do Douro em um ambiente ao ar livre superagradável.
Uma das estrelas da casa é a vitela, que chega com arroz de forno, uma combinação deliciosa e tradicional. “Nossas avós faziam assim: domingo era o dia de colocar o forno a lenha para trabalhar. Enquanto iam à missa, a carne ficava assando, às vezes desde o dia anterior. Nós também deixamos nossa vitela a noite inteira no forno para que fique suculenta”, explica Teresa.
4. Torre de Moncorvo
O município é uma pérola do Douro Superior. Tem pouco mais de 8.500 habitantes, com um centro histórico bastante rico, que nos presenteia com uma gama de fontes, museus, chafarizes e casas.
A localidade tem origem medieval, que remonta ao século XIII, época em que foi dotada de muralhas junto de uma fortaleza, formando o núcleo medieval que podemos ver ainda hoje. Estacione o carro e percorra a cidadezinha a pé, que carrega charme nas vendinhas de produtos locais.
Um dos tesouros mais importantes é a Basílica Nossa Senhora da Assunção, um dos maiores templos do norte de Portugal. A construção foi iniciada no século XVI, mas finalizada um século depois. É um monumento nacional, com uma torre sineira na fachada e pórtico renascentista.
O deslumbramento segue no interior, com retábulos de talha dourada, órgão de tubos e afrescos com cenas bíblicas. Em 2022, o endereço foi elevado ao título de Basílica Menor por decreto do Papa Francisco.
Outros pontinhos que podem se percorridos na cidade são o Museu de Arte Sacra e o Museu do Ferro & da Região de Moncorvo.


