Agropalma projeta alta de 20% na produção de óleo de palma

Companhia brasileira prevê recuperação na safra após impacto do El Niño em 2023 e 2024

Por Roberto Samora, da Reuters

A Agropalma, líder na fabricação de óleo de palma do Brasil, projeta um aumento de cerca de 20% na produção da safra que se inicia em relação à ​anterior, após ter sido atingida no ano passado pelos efeitos do El Niño de 2023 e ​2024, disse um diretor da companhia à Reuters.

A palma, cultivada na Amazônia brasileira, leva duas safras para refletir mais fortemente os efeitos das altas temperaturas e redução de chuvas decorrentes do fenômeno climático, o que explica o aumento esperado para 2026, ainda que este seja um ano de El Niño.

A situação sinaliza ainda que o fenômeno climático de 2026/27, que pode ser um dos mais fortes da história, poderia impactar a produção nos próximos anos da empresa e de outros operadores do setor, concentrado no Pará -- o Norte do país geralmente enfrenta tempo mais seco e quente em anos de El Niño.

"Enquanto a maior parte do mundo usa o termo 'climate change', a gente aqui prefere 'climate disorder'... para nós aqui, o ⁠que está acontecendo que é muito visível: é uma modificação em todo ​o regime climático, não só de chuvas, como de temperatura", disse o diretor Agrícola da Agropalma, André Borba.

Embora seja uma potência agrícola e grande parte ​do país esteja localizada na faixa tropical do planeta, o Brasil é um importador de óleo de palma, já que grande parte de sua produção de óleo vegetal vem ⁠da soja.

Oscilações na oferta brasileira, que normalmente gira em torno de 600 mil toneladas ⁠de óleo de palma por ano, poderiam impactar as importações, estimadas em cerca de 30% do consumo anual de 1 milhão de toneladas.

A ​última ‌boa safra da Agropalma, que responde por um quarto da produção nacional, foi a de 2022, disse Borba, citando impactos de El Niños passados.

Ele explicou que o cacho de frutos ⁠da palma colhido em 2026 é formado dois anos antes. "Então, se nós temos um estresse hídrico, estresse de temperatura ou de umidade, ao invés de a palmeira produzir uma inflorescência feminina que vai virar o cacho, ela produz uma masculina que não vira produção."

"No ano de 2024, nós tivemos bastante problema com falta de chuva e com aumento de temperatura, que de certa ‌maneira estão ⁠prejudicando este ano. Mas o ‌ano de 2025 sofreu mais ainda por conta do ano de 2023", ressaltou.

Apesar de o clima ter desafiado a produção nos últimos anos, o Brasil tem potencial para mais do que triplicar o plantio de palma de óleo em um período de dez anos, utilizando áreas desmatadas anteriormente na Amazônia, com impulso da demanda por matérias-primas para a produção de biocombustíveis avançados como ⁠o SAF de aviação, afirmou o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma (Abrapalma), ⁠Victor Almeida, em entrevista recente à Reuters.

Borba preferiu não comentar sobre planos de expansão da Agropalma, adquirida este ano pelo grupo colombiano Daabon, que passou a ter uma fatia majoritária na empresa. No processo produtivo, a companhia ‌usa 75% de frutos de produção própria, comprando o restante de terceiros, incluindo agricultores familiares.

Nova safra

A Agropalma está perto de iniciar a colheita nos meses que registram maiores produtividades.

Os maiores volumes de colheita de frutos são em outubro, com cerca de 12% da produção no ano, novembro, com 15%, e dezembro, com 10%, disse o diretor Agrícola da Agropalma. Em abril, normalmente são os menores volumes, próximos de 4%.

"É uma planta que depende bastante do clima. Ela não produz em áreas com temperaturas baixas e tampouco produz ‌em áreas com pouca chuva. Então, ela demanda mais ou menos 150 milímetros de chuva por mês... essa é a razão de nós estarmos aqui na região Norte, mais próximo da linha do Equador, que é uma das regiões que mais chove no Brasil...", explicou.

Sob a influência do El Niño, contudo, ele disse acreditar que as temperaturas ⁠mais altas terão maior influência na safra do que a escassez de chuvas. "A temperatura média este ano está mais ou menos 29 graus (Celsius), dois graus acima do normal. As máximas, que geralmente chegam a 32 graus, este ano estão chegando a 36."

Ele disse ter expectativa de que o El Niño afete a lavoura até fevereiro do próximo ano, já que o fenômeno ​deverá adiar as chuvas que normalmente voltam a se intensificar na região em dezembro, estendendo-se até junho.

Para lidar com o problema, Borba destacou que a companhia adota a puerária, uma leguminosa, ​como cobertura verde, o que reduz a temperatura do solo de 54 graus para 23.

"Com essa temperatura bem menor, nós conseguimos manter mais umidade no solo e nosso plantio sofre menos com os efeitos da falta de chuva e da temperatura."

A puerária tem ainda a capacidade de captar o nitrogênio da atmosfera, fixando-o no solo, o que permite redução de custos com adubação. Além disso, a leguminosa atrai insetos predadores de pragas, dispensando o uso de pesticidas ‌químicos.