Palma avança no Norte com foco em biocombustíveis e agricultura familiar

Com 283 mil hectares plantados, setor vê espaço para dobrar área, ampliar renda no Pará e ganhar força na agenda de biocombustíveis

Isadora Camargo, da CNN Brasil, São Paulo
Compartilhar matéria

A cadeia do óleo de palma no Brasil tenta se reposicionar como uma das apostas de crescimento do agronegócio na Amazônia, de olho em biocombustíveis. O objetivo do setor produtivo é combinar alta produtividade, uso de áreas degradadas e agricultura familiar para ter volume suficiente para também abastecer a indústria de alimentos.

Hoje, o país tem 283 mil hectares plantados, produz cerca de 700 mil toneladas por ano e ainda importa outras 300 mil toneladas, um sinal de que há espaço para expansão da oferta doméstica, segundo um levantamento da Abrapalma (Associação Brasileira de Produtores de Palma).

Até o ano passado, o setor concentrou sua produção no Pará, distribuída entre 40 municípios produtores no nordeste do estado, com 283,1 mil hectares plantados.

A atividade é liderada por um núcleo mais consolidado formado por Tailândia, Tomé-Açu, Moju e Acará, mas já dá sinais de interiorização: nos últimos cinco anos, 11 novos municípios passaram a integrar o mapa da palma, somando 8,6 mil hectares e indicando uma descentralização gradual da produção .

A aposta do setor está ancorada na produtividade da cultura. A palma é apontada no documento como uma das lavouras mais eficientes do mundo e pode atingir 25 toneladas por hectare ao ano de cachos de frutos frescos, com ciclo produtivo de até 30 anos.

Essa característica, somada ao fato de o cultivo brasileiro estar submetido ao Zoneamento Agroecológico, que proíbe o desmatamento de vegetação nativa e direciona a expansão para áreas degradadas, reforça o discurso de que a cultura pode crescer associada à agenda de bioeconomia e descarbonização .

Esse potencial ganha ainda mais relevância com a abertura de mercado para combustíveis de menor emissão.

Segundo o material, a palma brasileira é vista como matéria-prima competitiva para a produção de diesel verde (HVO) e combustível sustentável de aviação (SAF).

Hoje, cerca de 10% da produção nacional já é destinada ao biodiesel, processado em duas plantas no Pará, mas a avaliação do setor é que o avanço dos biocombustíveis avançados pode criar uma nova avenida de demanda para o óleo de palma no país .

Outro eixo do crescimento projetado está na agricultura familiar. A palma já está presente em todos os 40 municípios produtores por meio de pequenos agricultores, que ocupam 39,1 mil hectares, ou 13,8% da área plantada, e respondem por um alcance social mais amplo da cadeia.

Os pequenos produtores estão em 34 municípios e entregam 22,39% da produção, enquanto grandes grupos concentram o processamento e a logística integrada .

A perspectiva mais ambiciosa para o setor é de ampliação dessa base produtiva. De acordo com a Fundação Solidaridad, citada no documento, a expansão sustentável da cadeia pode dobrar a área plantada e beneficiar até 25 mil famílias em arranjos de pequena e média escala, muitas vezes em consórcio com culturas como açaí, cacau, cupuaçu e graviola.

Para o setor, esse modelo ajuda a espalhar renda, fortalecer economias locais e ampliar a presença da palma sem depender apenas dos grandes grupos empresariais .

Apesar do potencial, o avanço da palma no Brasil ainda esbarra em gargalos.

O documento da Abrapalma aponta que o setor perdeu tração após a descontinuidade de políticas de fomento e reclama das recorrentes isenções do imposto de importação concedidas nos últimos anos, que mantêm a entrada de óleo estrangeiro com alíquota zerada.

Há também desafios logísticos: como a produção está concentrada no Norte e o consumo no Sudeste, Sul e Centro-Oeste, muitas vezes ainda sai mais barato importar óleo da Indonésia do que transportar a produção nacional dentro do próprio país .

No crédito, a avaliação é de que a estrutura atual também limita o ritmo de crescimento. O documento afirma que o Pronaf Bioeconomia, principal linha para agricultores familiares da palma, hoje financia até R$ 250 mil, valor considerado suficiente para apenas 9 a 10 hectares — abaixo do necessário para ampliar a escala da atividade em muitas propriedades.

Para o setor, a combinação entre revisão do crédito, redução do custo logístico e previsibilidade regulatória será decisiva para transformar o óleo de palma em uma cadeia mais robusta no Brasil, capaz de atender ao mercado doméstico, reduzir importações e se posicionar como fornecedora de matéria-prima para a transição energética, destaca o levantamento.