Cacau sobe com temor sobre próxima safra, mas cenário difere de 2023/24
Alta reflete temor sobre próxima safra, mas fundamentos ainda não indicam nova quebra expressiva

Os preços do cacau mais que dobraram desde junho, saindo de um patamar acima de US$ 3 mil por tonelada para mais de US$ 6 mil por tonelada atualmente, em meio ao aumento das preocupações com a próxima safra global. Segundo Lucca Bezzon, analista de mercado da StoneX, porém, o movimento ainda é sustentado principalmente pela expectativa de uma possível redução da oferta, e não por fundamentos que indiquem, neste momento, uma quebra expressiva de produção.
A mudança de percepção do mercado ocorreu a partir de junho. Até então, a StoneX projetava um novo superávit de cacau, após a recuperação da produção nos principais países produtores. Costa do Marfim, Gana, Brasil, Indonésia e Equador registraram recuperação de oferta em 2025 e 2026, permitindo que o mercado se reabastecesse depois do período de forte escassez observado entre 2023 e 2024.
Naquele período, a menor disponibilidade de cacau provocou forte alta nos preços da manteiga, do pó e de outros derivados utilizados pela indústria de alimentos. A elevação dos custos também chegou aos produtos finais que utilizam cacau.
Agora, com o início da safra 2026/27, em setembro, o mercado voltou a concentrar as atenções sobre os riscos climáticos. O principal fator é o El Niño, fenômeno associado historicamente a perdas de produtividade em algumas regiões produtoras.
“Essa distorção de mercado tem acontecido desde o mês de junho”, afirmou Bezzon ao CNN Agro News. Segundo ele, as chuvas mais intensas registradas entre junho e julho no oeste da África contribuíram para aumentar a percepção de risco em relação à próxima safra e deram força à alta dos contratos futuros.
Apesar disso, o analista afirma que o cenário atual apresenta diferenças importantes em relação ao período de escassez de 2023 e 2024. Uma delas está no comportamento da demanda, que hoje está mais fragilizada após a forte alta dos preços registrada nos últimos anos.
“Em 2024, a gente vinha de um crescimento de mais ou menos 3% da demanda anualmente e hoje temos um cenário de demanda mais fragilizada em função da alta de preços recente”, disse.
Do lado da oferta, Bezzon afirma que ainda não há elementos suficientes para indicar que uma nova quebra expressiva de produção esteja ocorrendo. Segundo ele, as chuvas se tornaram mais regulares desde junho, o que pode provocar algum atraso no início da safra, mas não necessariamente resultar em uma redução significativa dos volumes ao longo do ciclo.
“Essa alta de preços recentes é muito mais especulativa no sentido de expectativas e os fundamentos de curto prazo ainda não apontam isso. Tivemos uma safra muito boa e a demanda ainda está fragilizada”, afirmou.
Por isso, segundo o analista, o mercado ainda não apresenta as mesmas condições observadas durante o período de maior escassez. “Por enquanto, não dá para apontar um cenário que os preços voltem a US$ 12 mil. O que temos hoje é um temor de risco futuro para os próximos dois a três meses”, disse.
El Niño
No Brasil, o El Niño também aparece como um dos principais pontos de atenção para a produção de cacau. Pará e Bahia são os dois principais polos produtores do país, e há uma correlação histórica entre anos de ocorrência do fenômeno climático e menores níveis de produtividade nessas regiões.
A Bahia, segundo Bezzon, tende a apresentar maior vulnerabilidade em razão do envelhecimento de parte das lavouras e das características do sistema de cultivo. Ainda assim, a situação atual é diferente daquela observada antes da crise de oferta de 2023.
A produção mais robusta das últimas safras deixou o mercado brasileiro com maior disponibilidade de manteiga e outros derivados de cacau. Além disso, a própria valorização da commodity estimulou investimentos em manejo e nas lavouras, o que pode ajudar a reduzir os efeitos de eventuais condições climáticas adversas.
“Por mais que a gente esteja bem abastecido tanto de manteiga quanto de produtos de cacau por essa safra mais robusta, existe um temor de que o cenário de 2023 possa acontecer de novo e penalizar os cacaueiros”, afirmou.

