Com meta ambiciosa de produção, Solví inaugura 2ª planta de biometano no RS

Com a ambição de alcançar cerca de 1 milhão de metros cúbicos por dia de produção de biometano até 2030, a Solví Energia Verde deve colocar em operação, no próximo mês, sua segunda planta no Rio Grande do Sul, ampliando a oferta de energia renovável em um momento de pressão sobre combustíveis.
A nova unidade, em São Leopoldo, será operada pela Biometano São Leopoldo, empresa controlada pelo Grupo Solví em parceria com a Arpoador, e integra um projeto com investimentos estimados em R$ 100 milhões, segundo dados antecipados em primeira mão ao CNN Agro.
A planta terá capacidade superior a 37 mil metros cúbicos por dia e eleva a produção total da companhia para cerca de 170 mil m³/dia, somando também as plantas de Caieiras (SP) e Minas do Leão (RS).
O biometano é um combustível renovável obtido a partir da purificação do biogás gerado pela decomposição de resíduos orgânicos em aterros sanitários, dejetos da pecuária bovina e suína e restos agrícolas. Após o processamento, o gás atinge especificações semelhantes às do gás natural fóssil, podendo substituir o diesel, especialmente no transporte pesado.
O anúncio ocorre na esteira da decisão do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), que aprovou meta de redução de 0,5% nas emissões no mercado de gás natural até 2026, a ser cumprida com maior participação do biometano.
Para o setor, a medida tende a acelerar a demanda por um combustível que ganha espaço como alternativa ao gás natural, ao diesel e a produção de fertilizantes nitrogenados, em meio à volatilidade de preços e à dependência brasileira de importações.
O início da operação ocorre em um momento de escassez e de alta no preço do diesel e dos fertilizantes no Brasil, influenciado por tensões no Oriente Médio, o que voltou a expor a vulnerabilidade do modelo energético, especialmente no transporte de cargas e plantações.
“O biometano não é um simplesmente um energético, ele é uma solução de descarbonização, porque além de entregar um poder calorífico, de ser uma energia que substitui diesel, gás natural e outras fontes energéticas na indústria, na frota, mobilidade urbana, ele também é uma solução que descarboniza e reduz as emissões do setor público e privado no Brasil”, disse Ricardo Colpo, diretor comercial e de novos negócios da Solví ao CNN Agro.
Segundo ele, o combustível também tem papel estratégico para reduzir a exposição do país a choques externos.
“Ele é produzido nacionalmente, não tem sazonalidade, tem garantia de abastecimento o ano todo, é menos exposto à volatilidade do mercado internacional, à volatilidade do petróleo”, afirmou.
Para além da transição energética, a Solví também se insere nas discussões sobre a redução da dependência de fertilizantes importados e começa a se posicionar como alternativa energética para a produção desses insumos.
O biometano pode ser utilizado como insumo na fabricação de fertilizantes nitrogenados, substituindo combustíveis fósseis no processo produtivo e reduzindo a exposição da indústria a choques externos. Segundo a empresa, já há conversas com indústrias do setor para fornecimento do combustível, embora o uso ainda esteja em fase de expansão no país.
“O biometano é muito versátil. [...] Temos conversas, contatos com indústrias desse setor [de fertilizantes] que usam o biometano no processo produtivo da produção de fertilizantes para a produção nacional e, eventualmente, algum consumo, alguma exportação”, afirmou Ricardo Colpo.
A Solví atua na gestão de resíduos em mais de 250 municípios e produz biometano a partir da decomposição de resíduos orgânicos em aterros sanitários, modelo que garante fornecimento contínuo.
Hoje, a capacidade instalada do país gira em torno de 1 milhão de metros cúbicos por dia, mas a produção efetiva ainda está entre 400 mil e 500 mil m³/dia e atualmente existem apenas 19 plantas de biometano autorizadas no Brasil.
Segundo a Abiogás (Associação Brasileira do Biogás), o Brasil tem potencial de produzir cerca de 35 milhões de metros cúbicos de biometano por dia voltados ao transporte pesado, volume equivalente a aproximadamente 75% do diesel atualmente importado pelo país.
Em um cenário com apoio de financiamento estruturado, como linhas do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), essa substituição poderia chegar a até 25% do diesel importado.
Oferta e distribuição são desafios
Apesar da expansão, a avaliação é que a produção ainda não será suficiente para atender à demanda crescente, especialmente com a nova meta do CNPE.
“Vai ser necessário uma produção muito maior do que só o que a Solví tem hoje para poder atender essa meta, não só essa meta desse primeiro ano, mas a meta dos próximos anos”, disse Colpo.
A empresa aposta na ampliação das plantas ao longo da década.
“O nosso plano é chegar até 2030 em torno de um milhão de metros cúbicos por dia de biometano produzido a partir de aterros sanitários”, afirmou.
O principal gargalo, segundo a companhia, está na infraestrutura para distribuição do gás.
“O potencial do Brasil de biometano está em diversas regiões do Brasil, mas ele é muito regionalizado e precisa ter infraestrutura para escoar esse biometano para chegar até a indústria, para chegar até o transporte de cargas”, disse Colpo.
Mas, a aposta é de que o momento atual deve acelerar a agenda de descarbonização, segurança energética e substituição dos combustíveis fósseis.


