Guerra pressiona o agro: milho, aves e açúcar lideram lista de vulneráveis

Levantamento da Datagro indica maior dependência desses produtos de mercados no oriente médio e regiões em guerra

Fernanda Pressinott, da CNN Brasil, São Paulo
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A escalada dos conflitos no Oriente Médio e a continuidade da guerra entre Rússia e Ucrânia já começam a impactar o agronegócio brasileiro, especialmente em produtos com maior dependência dessas regiões.

Levantamento da consultoria Datagro mostra que, embora o Brasil tenha diversificação de mercados, alguns produtos são significativamente mais expostos às regiões em conflito, seja por dependência direta das exportações ou por impactos logísticos indiretos.

A seguir, os produtos mais afetados — começando pelos mais vulneráveis.

1 Milho, o mais exposto à guerra:

O milho aparece como o produto mais sensível aos conflitos geopolíticos.

  • Em 2025, 31,5% das exportações brasileiras foram destinadas ao Oriente Médio
  • O Irã sozinho respondeu por cerca de 22% dos embarques totais
  • Volume exportado ao Oriente Médio: 12,9 milhões de toneladas

"Por ser um insumo essencial para a produção de ração animal, o milho depende de fluxos logísticos contínuos. Nesse contexto, tensões envolvendo o Irã e a região do Golfo podem afetar os embarques via aumento de custos logísticos, restrições operacionais e eventual adiamento de compras, podendo causar sobreoferta doméstica no segundo semestre (usual janela de exportação de milho) e alguma pressão aos preços domésticos no Brasil", diz Datagro, em estudo.

Principais riscos:

  • Interrupções logísticas no Golfo Pérsico
  • Aumento de fretes e seguros marítimos
  • Possível cancelamento ou adiamento de compra

2 Carne de aves: alta dependência do Oriente Médio

O Brasil é líder global em exportações de frango, e essa liderança traz vulnerabilidade.

  • Cerca de 30% das exportações de carne de aves vão para o Oriente Médio
  • O país responde por mais de 35% do comércio global do produto

Impactos diretos:

  • Alta dependência de países do Golfo
  • Risco de interrupção de fluxos comerciais

Impactos indiretos:

  • Frete mais caro
  • Aumento no custo de seguros
  • Dificuldades logísticas em rotas estratégicas

"Aproximadamente 30% das exportações brasileiras de frango têm como destino a região, o que evidencia uma vulnerabilidade relevante. Além dos riscos diretos, como dificuldades de acesso a mercados, há também impactos indiretos, como o aumento dos custos de frete e de seguros marítimos, decorrentes da instabilidade nas rotas internacionais", afirma o texto.

3 Açúcar: forte exposição ao Oriente Médio:

O açúcar brasileiro também aparece entre os mais afetados.

  • O Brasil responde por 51,5% das exportações globais
  • 17,1% das exportações vão para o Oriente Médio
  • Volume exportado para a região: 5,77 milhões de toneladas
  • Receita: US$ 2,38 bilhões

Destaques:

  • Oriente Médio é um dos principais polos compradores
  • Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Iraque lideram

Embora haja possibilidade de redirecionamento, o impacto inicial de disrupções pode ser significativo.

4 Carne bovina: exposição moderada, mas relevante:

A carne bovina brasileira tem exposição menor que milho e aves, mas ainda relevante.

  • Cerca de 10% das exportações vão para regiões em conflito
  • Forte presença no Oriente Médio e na Rússia

O Brasil:

  • Exportou 4,35 milhões de toneladas em 2025
  • Gerou mais de US$ 17 bilhões em receita

Riscos:

  • Aumento de custos logísticos
  • Impacto no preço final
  • Dependência parcial de mercados sensíveis

5 Ovos: dependência menor, mas ainda presente

Apesar de menor relevância econômica, os ovos apresentam exposição considerável.

  • 6% das exportações vão para o Oriente Médio

O setor cresceu rapidamente:

  • Exportações quase quadruplicaram nos últimos anos
  • Receita atingiu US$ 189 milhões em 2025

Ainda assim, o impacto é limitado devido ao peso menor na balança comercial.

6 Café: baixa exposição direta, impacto indireto relevante:

O café brasileiro mostra resiliência geográfica:

  • Apenas  6% da receita vem de regiões em conflito

Principais destinos:

  • União Europeia
  • Estados Unidos

Impactos esperados:

  • Aumento de fretes
  • Elevação de custos de insumos (fertilizantes)
  • Possível ganho de competitividade frente a concorrentes asiáticos

7 Soja (grão, farelo e óleo): impacto limitado:

A soja — principal produto do agro brasileiro — tem baixa vulnerabilidade direta.

  • Apenas 2,3% das exportações vão para regiões em conflito
  • China absorve até 79% dos embarques

Subprodutos:

  • Farelo: cerca de 3,4% para o Oriente Médio
  • Óleo: praticamente sem exposição

Impacto principal:

  • Logística (fretes e petróleo)
  • Possível aumento da demanda por biocombustíveis

8 Etanol: praticamente imune:

O etanol é um dos menos afetados.

  • Apenas 0,9% das exportações vão ao Oriente Médio
  • Nenhum envio relevante para Rússia ou Ucrânia

Além disso:

  • Apenas 4,4% da produção é exportada

9 Algodão: baixa exposição:

O algodão brasileiro também apresenta baixa vulnerabilidade:

  • Exportações concentradas na Ásia (especialmente China)
  • Praticamente zero exposição ao Oriente Médio, Rússia e Ucrânia

Impactos são indiretos:

  • Frete
  • Preço do petróleo (afetando fibras sintéticas concorrentes)

10 Suco de laranja: impacto mínimo:

O suco de laranja é o produto menos afetado.

  • Apenas 0,16% das exportações vão para o Oriente Médio
  • Participação das regiões em conflito é inferior a 1% da receita

Destinos principais:

  • União Europeia
  • Estados Unidos (97,4% dos embarques)