MT se compromete a zerar uso de lenha nativa em usinas de etanol
O governo assinou Termo de Compromisso Ambiental porque houve "aumento expressivo da demanda por matéria-prima florestal no Estado"

O governo do estado de Mato Grosso e o Ministério Público do Estado assinaram um Termo de Compromisso Ambiental que estabelece diretrizes para a redução gradual do uso de biomassa proveniente da supressão autorizada de vegetação nativa por grandes indústrias consumidoras no estado.
O acordo cria o Plano de Desenvolvimento Florestal de Mato Grosso e prevê a ampliação da oferta de matéria-prima florestal oriunda de florestas plantadas e do manejo florestal sustentável.
Entre os setores impactados pela medida está o de produção de etanol de milho, que passa por processo de expansão no estado e utiliza biomassa para geração de energia em suas operações.
Dados do IBGE apontam que a expansão das agroindústrias em Mato Grosso, notadamente usinas de etanol de milho, mais que dobrou o consumo de matéria-prima florestal de 2021 a 2024, para 7,4 milhões de metros cúbicos, enquanto a área plantada com eucalipto (biomassa renovável) caiu 3,5% no mesmo período.
Regras do termo
Pelas regras definidas no termo, novos empreendimentos deverão comprovar que seu abastecimento de biomassa é proveniente exclusivamente de florestas plantadas, manejo florestal sustentável ou outras fontes autorizadas pela legislação.
O plano estabelece metas para ampliar a área de florestas plantadas em Mato Grosso para mais de 700 mil hectares até 2040. Também prevê a expansão das áreas destinadas ao manejo florestal sustentável para pelo menos 6,5 milhões de hectares no mesmo período.
Segundo o cronograma definido no acordo, os grandes consumidores de biomassa deverão substituir progressivamente a madeira oriunda de áreas de desmatamento legal.
A meta é que, a partir de 2034, o abastecimento industrial seja realizado integralmente por matérias-primas provenientes de florestas plantadas, manejo florestal sustentável e outras fontes renováveis.
De acordo com o governo estadual, haverá um período de transição para adequação das empresas às novas exigências. O termo também prevê a implementação de mecanismos de rastreabilidade da matéria-prima florestal, monitoramento dos Planos de Suprimento Sustentável, realização de auditorias independentes e ampliação da transparência das informações ambientais.
Repercussão do setor
A Associação de Reflorestadores de Mato Grosso (Arefloresta) apontou, em nota divulgada na semana passada, que, diante do forte crescimento da indústria de etanol de milho, o Estado enfrenta um "apagão" da biomassa de florestas plantadas.
Segundo a Arefloresta, já há um déficit da matéria-prima para gerar energia para produção de etanol de milho, e é preciso planejamento, pois a colheita de eucalipto leva de seis a sete anos.
Representantes de empresas do setor de etanol avaliaram que a nova regulamentação cria um marco para a expansão da atividade no estado e exigirá maior planejamento dos empreendimentos em relação ao suprimento de biomassa.
O CEO da FS Fueling Sustainability, Rafael Abud, afirmou que a rastreabilidade e a certificação das matérias-primas são requisitos cada vez mais relevantes para o acesso a mercados internacionais.
Segundo Abud, o setor vem ampliando investimentos em florestas plantadas para atender à demanda futura por biomassa.
O executivo informou que a FS possui cerca de 100 mil hectares de florestas plantadas em Mato Grosso, principalmente de eucalipto, e realiza novos plantios anualmente para abastecer suas unidades industriais.
Abud também avaliou que a expansão das florestas plantadas representa uma oportunidade de desenvolvimento para o estado. Segundo ele, Mato Grosso deverá ampliar significativamente sua base florestal nos próximos anos para atender à demanda crescente da indústria de etanol de milho e de outros segmentos consumidores de biomassa.
“É uma grande oportunidade de desenvolvimento de negócio para Mato Grosso, que ficou para trás do ponto de vista de plantios de floresta. Lá não houve o boom de papel e celulose, como houve em Mato Grosso do Su. A demanda de biomassa no Mato Grosso anterior ao etanol de milho era essencialmente para secadores de grãos, para indústria de esmagamento de soja ou biodiesel, mas era uma demanda relativamente pequena, então não houve um plantio de biomassa significativa”, disse Abud em evento realizado nesta terça-feira (9).
“Nos últimos anos isso vem acontecendo pelo etanol de milho e o Mato Grosso vai ter que sair dos atuais 200 mil hectares de floresta plantada para 700 mil hectares de floresta plantada para endereçar toda a demanda do etanol de milho”, acrescentou.
O CEO da 3tentos, João Marcelo Dumoncel, afirmou que a discussão sobre a substituição da biomassa proveniente de áreas de supressão legal de vegetação nativa vem amadurecendo no setor. Segundo ele, a tendência é de avanço do uso de biomassa oriunda de florestas plantadas.
Dumoncel destacou que a empresa iniciou previamente o plantio de florestas próprias e a contratação de fornecedores para atender ao período de transição.
Mas “isso traz, obviamente, um desafio a mais, e talvez até seja em alguma medida uma barreira para o crescimento do setor. Os projetos vão ter que se preparar um pouco mais, já que hoje uma floresta de eucalipto demora 7 anos para ser colhida”, ponderou.
De acordo com o executivo, a adequação às novas regras poderá influenciar o ritmo de implantação de novos empreendimentos, já que os projetos precisarão considerar o desenvolvimento das áreas florestais necessárias para garantir o abastecimento energético das operações.


