Plano Safra mais que dobra em seis safras e supera inflação

Em seis ciclos, o Plano Safra cresceu R$ 358 bilhões, avanço nominal de 151%, enquanto a política agrícola passou por transformação: o crédito subsidiado perdeu espaço para fontes privadas de financiamento

Isadora Camargo, da CNN Brasil, São Paulo
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Do crédito subsidiado em um cenário de juros historicamente baixos ao maior Plano Safra da história em meio à Selic de dois dígitos. A evolução da principal política de financiamento do agronegócio brasileiro nos últimos seis anos retrata a própria transformação da economia do país.

Entre o ciclo 2020/21 e o atual Plano Safra 2025/26, o volume de recursos saltou de R$ 236,3 bilhões para R$ 594,4 bilhões — alta de 151% — em um período marcado pelo choque inflacionário do pós-pandemia, pelo aperto monetário promovido pelo Banco Central. E este salto também é maior que a inflação dos meses de junho que, no calendário governamental, é o período de anúncio do programa.

Enquanto o salto do volume de recursos se consolidava, a inflação junina oscilou ao longo dos últimos seis ciclos. Destaque para 2022/23, momento de safra recorde, mas de IPCA de dois dígitos, que pesou nas projeções econômicas da época e no fechamento dos cálculos públicos.

Plano SafraData do anúncioIPCA acumulado em 12 meses (junho)
2020/21junho/20202,13%
2021/22junho/20218,35%
2022/23junho/202211,89%
2023/24junho/20233,16%
2024/25julho/20244,23%
2025/26julho/20255,35%

"Olhando o histórico, o Plano Safra cresceu mais que a inflação. Só que o fôlego diminuiu. Nesse último ciclo foram R$ 516,2 bilhões, R$ 8 bilhões a mais que no ano anterior, uma alta de 1,5% sobre os R$ 508 bilhões da temporada passada — abaixo da inflação. Traduzindo: o plano ficou parado no lugar", avalia ao CNN Agro Wolney Arruda, CEO da Plantae Agrocrédito.

E tem um fator que pesa mais do que a inflação nessa conta, que é a Selic. Atualmente, depois de três cortes consecutivos, a taxa é de 14,25% ao ano. Mesmo em queda, é juro alto, o que encarece o crédito mesmo quando o volume de recursos sobe, destaca o executivo.

Além disso, o valor dos recursos controlados, isto é, com juro mais baixo foi diminuindo nos últimos seis anos, o que demandou "o funding" do mercado privado.

"É por isso que dá pra anunciar um número gigante e, ao mesmo tempo, o produtor reclamar que está pagando mais caro para tomar dinheiro. O problema nunca foi o tamanho do plano. É que o crédito anda chegando mais caro, e mais difícil de conseguir, na porteira", frisou.

Além disso, por uma mudança estrutural na forma de financiar o crédito rural, hoje cada vez mais dependente de recursos privados, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), e menos do orçamento do Tesouro.

De acordo com os dados do Ministério da Agricultura, ao longo das últimas seis safras, o crescimento dos valores anunciados esconde mudanças importantes na composição do programa.

Se no início da série o foco era ampliar o crédito subsidiado em um ambiente de Selic inferior a 3% ao ano, a escalada dos juros obrigou o governo a redesenhar o modelo.

Com o aumento do custo da equalização — mecanismo pelo qual a União cobre a diferença entre a taxa de mercado e os juros pagos pelos produtores —, o espaço fiscal ficou mais restrito, ampliando a participação de recursos livres captados pelos bancos e do mercado de capitais.

Com os dados de 2020/21 até 2025/26, observa-se que o Plano Safra tenha crescido muito, sua essência permanece a mesma: a maior parte do crédito continua financiando o ciclo produtivo (custeio e comercialização).

Mais de 2/3 dos recursos do Plano Safra seguem destinados ao financiamento da produção de cada safra, segundo dados compilados pelo CNN Agro.

Enquanto uma parcela menor é destinada a investimentos estruturais, como máquinas, armazenagem e irrigação. Investimentos representam cerca de 20% a 30% dos recursos ao longo da série histórica (2020 a 2026).

Às vésperas do anúncio do Plano Safra 2026/27, o desafio permanece semelhante ao dos últimos anos: conciliar a demanda crescente por crédito com um ambiente de juros elevados e restrições orçamentárias, mantendo a competitividade do agronegócio sem ampliar de forma significativa o custo fiscal da política agrícola.

Outra preocupação da cadeia agropecuária é a origem do dinheiro, que também vem mudando bastante. "O Tesouro está saindo aos poucos da posição de financiador principal, e o crédito privado vai ocupando esse espaço: o programa tende a crescer perto da inflação enquanto os instrumentos de mercado ganham peso no financiamento da safra", explicou Arruda.

O dado mais recente divulgado pelo Mapa evidencia o contraste: o estoque de CPR (Cédula de Produto Rural) chegou a R$ 565 bilhões em maio, alta de 13% em 12 meses, e a parcela das LCAs (Letra de Crédito do Agronegócio) direcionada obrigatoriamente ao campo subiu 20%, puxada pela regra que elevou a exigência de 50% para 60%. Mas tem um detalhe que quase ninguém comenta: mesmo com o estoque em alta, as emissões novas de CPR caíram 6% nesta safra.

Ou seja, há robustez nos valores disponibilizados, só que concentrado em menos operações, e quem tem área menor fica de fora, enfatizou Arruda.

"No médio prazo eu enxergo o Plano Safra deixando de ser um programa de crédito e virando um programa de risco: o Estado para de bancar a taxa e passa a garantir a operação, equalizando LCA, montando fundo garantidor, dando lastro. A briga dos próximos anos não vai ser sobre o tamanho do plano. Vai ser sobre quem assume o risco", afirmou ao CNN Agro.

Segundo ele, produtores com garantia e estrutura tendem a captar recursos de forma mais "tranquila" por meio de CPR, Fiagro, ou barter, por exemplo.

Nesse sentido, mais do que descobrir se o Plano Safra será novamente recorde, o mercado estará atento a três respostas: quanto custará o crédito ao produtor, qual será o espaço do Tesouro para subsidiar juros e quanto do financiamento continuará migrando para o mercado privado.

Plano Safra e PIB

Em 2020, o Plano Safra equivalia a cerca de 3% da economia brasileira. Hoje, ele representa algo próximo de 5% do PIB.

O crescimento nominal do Plano Safra foi de 151%, desde o anúncio do plano 2020/21 ao programa do ciclo de 2025/26. Enquanto o PIB nominal cresceu aproximadamente 65%.

O percentual mostra que o Plano Safra cresceu cerca de 2,3 vezes mais rápido que o PIB nominal. Mas por que isso aconteceu? A agropecuária ficou maior e mais cara de ser financiar.

SafraPlano SafraPIB nominal*Plano Safra / PIB*
2020/21R$ 236,3 bi≈ R$ 7,5 trilhões3,1%
2021/22R$ 251,2 bi≈ R$ 8,9 trilhões2,8%
2022/23R$ 340,8 bi≈ R$ 10,1 trilhões3,4%
2023/24R$ 435,8 bi≈ R$ 10,9 trilhões4,0%
2024/25R$ 476,6 bi≈ R$ 11,7 trilhões4,1%
2025/26R$ 594,4 bi≈ R$ 12,5 trilhões4,7%
*Comparação feita com o PIB nominal do ano do lançamento de cada Plano Safra para contextualização econômica.

O aumento decorre de vários fatores:

  • inflação dos custos agrícolas;
  • aumento do preço das commodities;
  • crescimento da produção brasileira;
  • expansão das exportações;
  • necessidade maior de capital de giro;
  • juros elevados e
  • participação crescente de recursos privados.

Nos últimos seis ciclos, o Plano Safra deixou de acompanhar apenas o crescimento da produção agrícola e passou a ganhar participação dentro da economia brasileira.

O volume de recursos mais do que dobrou no período e cresceu em ritmo superior ao do PIB nominal, refletindo não apenas a expansão do agronegócio, mas também o aumento da necessidade de financiamento diante de custos mais elevados, juros altos e maior participação de recursos privados.