O que joaninhas e inteligência artificial têm a ver com o papel higiênico?

Sensores, satélites, inteligência artificial e até joaninhas ajudam empresas de celulose a enfrentar secas, incêndios e pragas para garantir a matéria-prima de produtos do dia a dia.

Kaique Cangirana, da CNN Brasil, São Paulo
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Quem passa pelo corredor de papel higiênico do supermercado dificilmente imagina que, antes de chegar à prateleira, aquele produto já contou com a ajuda de satélites, inteligência artificial, sensores instalados em árvores e até de joaninhas. 

Embora pareçam mundos distantes, a tecnologia aplicada ao cultivo de eucalipto, principal matéria-prima da celulose usada na fabricação de papéis sanitários, papéis de imprimir e escrever e embalagens, tornou-se uma ferramenta para reduzir riscos de quebra na produção diante das mudanças climáticas.

Secas mais intensas, aumento da incidência de pragas e incêndios florestais passaram a ameaçar a oferta de madeira e levaram empresas do setor a investir em um manejo cada vez mais digital.

Na Suzano, maior produtora de celulose do mundo, a estratégia reúne inteligência artificial, melhoramento genético, sensores conectados, monitoramento por satélite e controle biológico de pragas para aumentar a produtividade das florestas e reduzir perdas.

Segundo Douglas Lazaretti, vice-presidente executivo florestal da Suzano, a empresa aposta em três pilares para manter a produção: disciplina operacional, desenvolvimento de novos materiais genéticos e tecnologia aplicada ao manejo.

"Todos os anos incorporamos clones mais produtivos e mais resilientes às nossas operações, desenvolvidos especificamente para cada região onde atuamos", diz à CNN Brasil.

Na prática, isso significa desenvolver árvores capazes de suportar melhor períodos de estiagem, temperaturas elevadas e novas pragas que vêm surgindo com as mudanças climáticas.

Cada região recebe clones diferentes, selecionados conforme características como solo, relevo, regime de chuvas e temperatura. A Suzano mantém um banco genético com mais de 30 mil materiais diferentes e cultiva cerca de 170 clones distribuídos por seus 1,7 milhão de hectares de eucalipto.

 

Inteligência artificial na floresta

A inteligência artificial entra em outra etapa da operação: prever problemas antes que eles apareçam. Imagens de satélite, algoritmos e uma ampla base de dados permitem identificar alterações no desenvolvimento das árvores, sinais de estresse hídrico, focos iniciais de pragas e até regiões com maior risco de incêndio.

"Hoje conseguimos sair de uma atuação reativa para uma atuação proativa e preditiva. Antes que uma anomalia aconteça, conseguimos identificá-la e tomar ações no campo", afirma o executivo.

Essa antecipação tem impacto direto sobre a oferta da matéria-prima. Quanto menores as perdas provocadas por incêndios, pragas ou eventos climáticos extremos, maior a estabilidade da produção de madeira que abastece as fábricas de celulose.

Os incêndios são um dos exemplos dessa mudança. A Suzano utiliza 133 torres equipadas com câmeras inteligentes, cujas informações são cruzadas com imagens de satélite para prever áreas de maior risco. Em 2024, a companhia reduziu em 61% os incêndios registrados em suas áreas de plantio.

Outra tecnologia curiosa envolve o uso de inimigos naturais das pragas. Em vez de ampliar a aplicação de inseticidas, a empresa cria organismos em laboratório para controlar espécies que atacam o eucalipto.

Em 2024, mais de 340 milhões desses agentes biológicos foram liberados em aproximadamente 500 mil hectares, reduzindo o consumo de inseticidas químicos em cerca de 17,1 mil quilos. Em algumas áreas, a joaninha Olla v-nigrum eliminou completamente a necessidade de aplicações químicas.

O monitoramento também acontece dentro da floresta. Sensores instalados nos troncos medem, em tempo real, o consumo de água, o crescimento das plantas e a captura de carbono. Os dados são combinados com imagens de satélite e analisados por inteligência artificial para orientar decisões de manejo e melhorar a produtividade das florestas.

Além de aumentar a eficiência operacional, a digitalização busca reduzir riscos para toda a sivicultura.

"O negócio florestal está se sofisticando e se tornando cada vez mais tecnológico. O uso de dados e inteligência artificial passou a fazer parte da rotina operacional e será cada vez mais importante para elevar a produtividade e tornar nossas florestas mais resilientes", conclui Lazaretti.