BYD considera patrocínio na Fórmula 1 para expandir reconhecimento global
Categoria já conta com fabricantes europeus e norte-americanos, como Ferrari, Mercedes-Benz, Ford e Cadillac

A gigante dos veículos elétricos BYD tem interesse em se envolver com a Fórmula 1 como parte de sua estratégia para fortalecer a marca fora da China, mercado em que já possui forte presença.
No entanto, tornar-se a primeira equipe chinesa da F1 seria um projeto caro, e uma associação com uma equipe já existente também apresenta desafios. Por isso, uma abordagem baseada em patrocínio pode representar um caminho mais simples para entrar na categoria.
"Todo mundo quer estar envolvido com a Fórmula 1", afirmou Ian Moore, analista da Bernstein. "Isso acontece porque ela é a maior plataforma de marketing disponível para as montadoras (OEMs)."
A Fórmula 1, controlada pela Liberty Media, já conta com fabricantes europeus e norte-americanos, como Ferrari, Mercedes-Benz, Ford e Cadillac, da General Motors, que desenvolvem motores ou chassis para as equipes.
Entrar na F1 custa centenas de milhões de dólares
O presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), Mohammed Ben Sulayem, e a própria Fórmula 1 estão abertos à ideia de uma equipe chinesa, desde que ela traga benefícios comerciais e esportivos para todas as partes envolvidas.
A BYD não comentou seus objetivos em relação à categoria.
Caso decida entrar na Fórmula 1, ainda há espaço para mais uma equipe no grid. A BYD teria argumentos comerciais sólidos para ocupar a vaga de 12ª equipe da categoria: é a maior fabricante de veículos elétricos do mundo em volume de vendas, a China abriga o Grande Prêmio de Xangai e conta com 221,1 milhões de fãs da Fórmula 1, segundo a própria organização. Além disso, a empresa pretende produzir localmente, até 2028, todos os carros que vender na Europa.
Ainda assim, a companhia precisaria superar diversos obstáculos.
"Do ponto de vista financeiro, talvez não pareça uma decisão muito sensata gastar tanto dinheiro em um segmento que eles mal conhecem", afirmou à Reuters Felipe Muñoz, analista independente e responsável pela plataforma Car Industry Analysis.
Os gastos com infraestrutura e com um túnel de vento seriam elevados, sem garantia de sucesso. Como exemplo, estima-se que a fábrica e o complexo da Aston Martin em Silverstone, que incluem um túnel de vento, tenham custado entre 150 milhões e 200 milhões de libras esterlinas (de R$ 1 bilhão a R$ 1,4 bilhão). Apesar disso, a equipe somou apenas um ponto na atual temporada.
Uma nova equipe também provavelmente precisaria pagar mais de US$ 450 milhões (R$ 2,3 bilhões) em taxas de diluição, como fez a Cadillac para ingressar na categoria este ano, já que a entrada de novos times reduz a fatia de receita distribuída às equipes existentes.
Outras alternativas também apresentam dificuldades.
Uma delas seria comprar participação em uma equipe já existente. O fundo Otro Capital, acionista minoritário da Alpine, busca vender sua participação de 24%, mas a Renault, controladora da equipe, não pretende abrir mão do controle e precisa aprovar qualquer acordo.
O ex-chefe da Red Bull, Christian Horner, busca retornar à Fórmula 1 e já teve alguns contatos com a BYD, mas a participação da Otro Capital pode se encaixar melhor em seus planos.
Patrocínio pode ser o caminho mais fácil
Uma estratégia focada em patrocínio e fortalecimento de marca pode representar uma alternativa mais viável.
"Entrar na Fórmula 1 apenas como patrocinadora seria a opção de menor risco para a BYD, porque evita as exigências regulatórias da FIA, como comprovar conformidade técnica e de governança", disse à Reuters Nick De Marco, advogado especializado em direito esportivo da Blackstone Chambers.
A BYD poderia, por exemplo, patrocinar uma equipe intermediária ou do fim do grid a um custo inferior ao de uma equipe de ponta, como a Oracle Red Bull Racing, cujo acordo de naming rights com a Oracle está avaliado em US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,5 bilhão) ao longo de cinco anos.
Como comparação, a empresa de software Atlassian possui um acordo de patrocínio principal com a Williams, equipe nove vezes campeã entre os construtores, estimado entre US$ 40 milhões (cerca de R$ 210 milhões) e US$ 60 milhões (cerca de R$ 310 milhões) por ano.
Analistas da Bernstein estimam que o setor automotivo represente apenas 1% do valor anual dos patrocínios da Fórmula 1, enquanto tecnologia responde por 14% e o segmento de luxo por 26%.
A Fórmula 1 não possui atualmente um parceiro automotivo oficial para toda a categoria, como ocorre com o grupo de luxo LVMH, que mantém um acordo de cerca de US$ 100 milhões (cerca de R$ 520 milhões) por ano e expõe diversas de suas marcas ao longo do campeonato.
"Não tenho certeza se essa seria uma opção para a BYD, considerando que ela também é uma montadora", afirmou Moore, observando que um eventual patrocínio da empresa poderia gerar conflitos com fabricantes que já atuam na Fórmula 1.
De Marco, por outro lado, destacou que uma entrada apenas por meio de patrocínio impediria a BYD de demonstrar suas capacidades de engenharia e fabricação.
"Imagino que esse seja justamente o principal benefício que a BYD buscaria obter com essa participação", concluiu.


