Análise: Brics evita fracasso em cúpula, mas ambiguidades limitam o bloco
Reunião de líderes em Nova Délhi teve peso diplomático e conseguiu até promover encontro entre rivais da guerra no Oriente Médio, mas diferenças profundas entre países ficaram expostas em comunicado fraco

A cúpula do Brics, realizada em Nova Délhi, na Índia, mostrou o enorme potencial diplomático do bloco, mas também as suas claras limitações estratégicas.
Os líderes conseguiram evitar o fracasso do encontro, ao aprovarem por unanimidade a Declaração de Nova Délhi, o documento final da cúpula.
Havia um risco real de o documento ser vetado por alguns dos países presentes por conta da rivalidade entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, que estão em lados opostos da guerra no Oriente Médio.
Mais do que garantir a aprovação, a cúpula ainda deu uma prova muito concreta do potencial do Brics quando, logo depois do encerramento da primeira sessão oficial, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, e o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, xeque Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, se reuniram para uma conversa bilateral, justamente para discutir o conflito que os coloca em lados opostos.
Foi o primeiro contato direto entre os dois governos desde o início da guerra.
As negociações diplomáticas que permitiram não apenas a aprovação do texto, mas também essa aproximação entre dois rivais num conflito sangrento, mostram, na prática, o tipo de espaço que o grupo pode oferecer: um ambiente informal e pequeno o suficiente para colocar rivais frente a frente, mesmo em meio à guerra.
E isso não é pouca coisa. O bloco reúne potências econômicas e militares de peso, como a Índia, a China e a Rússia.
O problema é que, para o Brics ter de fato o peso que merece na política internacional, é preciso resolver as suas ambiguidades internas. E ambiguidade é o que não falta.
Para começar, trata-se de um bloco extremamente heterogêneo.
Tem rivais do Oriente Médio de todos os tipos. Irã de um lado da guerra, Emirados Árabes Unidos do outro, com o Egito tentando ficar, de certa forma, em cima do muro.
A Arábia Saudita, uma força militar e econômica da região, até hoje não confirmou se quer mesmo fazer parte do grupo e participa das reuniões só lateralmente, quando participa.
Para acomodar a todos, o texto final do encontro foi muito genérico. Sem criticar ninguém pelo conflito, pediu apenas a "máxima contenção" a todos os lados.
Contradição russa
Uma contradição ainda maior é a Rússia e a invasão da Ucrânia.
O grupo conseguiu aprovar um comunicado (sim, o mesmo comunicado final) condenando guerras e ações unilaterais, sem fazer nenhuma ressalva à invasão da Ucrânia pelos russos.
O país invadido pelos russos e que tem quase 20% do seu território ocupado pelas forças do Kremlin não é sequer citado no documento.
Isso só foi possível graças a outra grande figura, tão ambígua quanto o próprio grupo: a Índia, que conseguiu salvar o encontro, mas insiste em manter um pé em cada um dos grandes fóruns internacionais, sem querer comprar brigas, especialmente com os Estados Unidos.
Essa cautela indiana não é gratuita. Donald Trump já ameaçou impor altas tarifas contra qualquer país do bloco que avance na criação de alternativas ao dólar, e Nova Délhi trabalha para não ser vista como parte de uma frente anti-americana, mesmo que isso signifique conter o ímpeto de Rússia e China dentro do grupo.
No entanto, o dilema da Índia é decidir que peso real dar ao Brics. Afinal, uma coisa é ter presença nos fóruns multilaterais e buscar diálogo com todos. O Brasil, por exemplo, também busca isso com sua participação no G20, no Brics e na ONU, onde defende claramente a reforma do Conselho de Segurança.
Outra, bem diferente, é de fato fazer o esforço para que o Brics avance na prática e ocupe o seu espaço.
Para que isso aconteça, é necessário que os países envolvidos tenham posições muito claras e comprem as brigas necessárias. Às vezes, dentro do próprio grupo.
Os indianos conseguiram evitar o vexame de uma cúpula fracassada. Mas o preço foi um comunicado fraco o suficiente para todo mundo aceitar. Inclusive os americanos, já que Nova Délhi, acima de tudo, não queria provocar ou aborrecer Washington.
E, na política externa, os países que não compram as brigas que consideram necessárias não avançam.
A Presidência do grupo agora passa para a China, a grande rival real dos Estados Unidos. A próxima cúpula, em território chinês, vai mostrar mais claramente para onde o Brics quer ir.



