Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Análise: Guerra na Ucrânia não será decidida no campo de batalha

Moscou e Kiev acumulam milhões de baixas, mas nenhum dos dois lados tem condições, neste momento, de impor uma derrota definitiva ao outro

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A guerra na Ucrânia já dura mais de quatro anos, com milhões de mortos, cidades inteiras destruídas e uma sangrenta linha de frente de mais de 1.200 quilômetros que mal se move.

Apesar de tudo isso, nem a Rússia nem a Ucrânia conseguiram dobrar o inimigo. Pelo contrário, o conflito é cada vez mais marcado por uma mistura de intensos combates no front e ataques de longa distância com centenas de drones.

A conclusão é incômoda, mas cada vez mais clara: é praticamente impossível que esta guerra seja decidida no campo de batalha.

Os dados acumulados ao longo de 2024 e 2025 reforçam essa leitura. Relatórios do ISW (Instituto para o Estudo da Guerra) e do Ministério da Defesa britânico mostram um padrão que se repete.

Os avanços russos no período foram constantes, mas lentos, medidos em poucos quilômetros e obtidos a um custo humano e material extremamente alto.

Em 2026, essa tendência começou a se inverter, com a Ucrânia retomando a iniciativa. Mas o resultado é, na prática, muito similar: avanços lentos, também medidos em poucos quilômetros, a um custo igualmente enorme.

Na prática, trata-se de um impasse. O conflito consome recursos e vidas em escala gigantesca, mas produz ganhos territoriais minúsculos desde pelo menos meados de 2022.

Essa dinâmica levou diversos estudiosos a comparar o cenário atual a uma versão moderna da Primeira Guerra Mundial, na qual as metralhadoras foram substituídas por drones que punem qualquer tentativa de avanço visível.

A avaliação de centros estratégicos como o RUSI (Royal United Services Institute), o mais antigo think tank britânico de defesa e segurança, indica que Moscou aposta na sua capacidade econômica para sustentar o conflito por vários anos, enquanto usa o tempo como ferramenta política para explorar rachaduras no apoio ocidental à Ucrânia.

Kiev, por outro lado, aposta que o aperto econômico de mais sanções contra o Kremlin, combinado com a manutenção do apoio militar da Otan nos níveis atuais, poderia inclinar a balança a seu favor no longo prazo.

Mas o impasse militar só pode ser compreendido quando se leva em conta as condições políticas e, especialmente, econômicas dos países envolvidos.

Para o professor Tássio Franchi, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro e senior fellow do King's College de Londres, guerras desse tipo normalmente são decididas fora do campo de batalha.

"Quem ganha uma guerra não são os exércitos, são os países. Você precisa acabar com a vontade de um país de lutar, com a capacidade de suportar as suas tropas economicamente, em equipamentos, em homens, em alianças políticas", disse ele à CNN Brasil.

"E aí, se a gente olhar para isso, Ucrânia e Rússia têm alianças políticas suficientes, exércitos e aliados que sustentam suas iniciativas militares ainda suficientes, e têm populações que ainda apoiam o conflito. O campo de batalha é importante, mas eu concordo que a guerra não será decidida necessariamente no front", disse ele.

É justamente esse equilíbrio que sustenta a continuidade do conflito. Os dois lados se desgastam sem que nenhum desmorone. A Rússia mobilizou força suficiente para pressionar a Ucrânia, mas não para derrotá-la.

A Europa, por seu lado, destinou uma parcela pequena de sua enorme economia para apoiar Kiev. É o suficiente para evitar a derrota ucraniana, mas não para derrotar o Kremlin.

Fator nuclear

Há, no entanto, um fator que poderia levar ao fim da guerra, mas que, na prática, funciona como uma trava invisível sobre qualquer cálculo de escalada: as armas nucleares que a Rússia possui.

Caso fossem utilizadas, a equação de equilíbrio se romperia e poderia, no limite, levar o Ocidente a também fazer um ataque nuclear contra a Rússia.

Tudo isso, obviamente, teria efeitos catastróficos. Por isso, na avaliação de Franchi, o arsenal atômico russo só seria acionado em um cenário de ameaça existencial real.

"Uma arma nuclear só seria usada no caso de uma ameaça realmente existencial, se a gente tiver tropas ucranianas marchando sobre Moscou. Antes disso, a Rússia vai sustentar uma guerra convencional como tem sustentado nos últimos anos", afirma.

Com o front terrestre travado na guerra convencional, o conflito migrou para outras dimensões. A Ucrânia passou a apostar fortemente em inovação, transformando o conflito em um laboratório de tecnologias militares com destaque para o uso de drones em larga escala. Estimativas apontam que o país é capaz de produzir mais de dez mil unidades por dia, embora os militares ucranianos não confirmem nenhum número estratégico.

Os ataques em profundidade contra o território russo, incluindo a infraestrutura energética, também têm impacto real. Forçam Moscou a redistribuir sistemas de defesa, elevam custos e ampliam a pressão interna. Mas esse efeito, por mais relevante que seja, também está longe de ser decisivo.

Para Franchi, essa oscilação faz parte da lógica das guerras prolongadas.

"A guerra nunca é um ato contínuo de força. Ela é sempre dinâmica, as iniciativas mudam de lado. O que agora a gente está vendo é uma iniciativa mais forte da Ucrânia em conseguir dar certas respostas e ter suas pequenas vitórias no campo de batalha. Mas isso não garante que esse será o mesmo cenário em quatro ou seis meses", disse.

No horizonte, o cenário mais provável não é uma vitória militar de qualquer um dos lados, mas um desgaste progressivo que leve, em algum momento, a uma solução política.

Nos próximos meses, a tendência é de impasse administrado, com a Europa mantendo seu apoio a Kiev e com a Ucrânia ampliando sua capacidade de ataques de longo alcance.

 

Ao mesmo tempo, Putin deve continuar explorando as divisões no Ocidente para enfraquecer o adversário.

Nesse contexto, o papel dos Estados Unidos é determinante. Uma postura menos comprometida da Casa Branca com Kiev, como já sinalizado em diversas ocasiões pela administração Trump, aumentaria a pressão por negociações, mesmo que as condições ainda estejam longe de ser aceitáveis para os dois lados.

O desfecho mais plausível, portanto, seria o de um armistício imperfeito. "O que nós vamos ter, provavelmente, é uma trégua, porque um lado ou os dois lados vão chegar ao modelo de esgotamento. Seja da vontade, seja da capacidade econômica, seja da capacidade militar", diz Franchi.

"Mas essa trégua vai ser seguida de um ressentimento pela perda territorial, de qualquer lado que for, e isso vai alimentar uma instabilidade que pode durar décadas", completou.

A guerra, nesse cenário, não terminaria com uma vitória clara. Acabaria quando os dois lados chegassem à conclusão de que continuar lutando custa mais caro do que parar.

E o campo de batalha deixaria de ser o lugar da decisão final para se tornar apenas o argumento que cada lado leva à mesa de negociação.