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    Américo Martins

    Américo Martins

    Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou 68 países

    Críticas de Lula a Israel impedem Brasil de participar de negociações sobre Gaza, diz diplomata

    Vice-diretor do Ministério das Relações Exteriores israelense afirmou que “declarações antissemitas” colocam o Brasil “do lado do Irã e da Coreia do Norte”

    Críticas de Lula a Israel impedem Brasil de participar de negociações sobre Gaza, diz diplomata
    Críticas de Lula a Israel impedem Brasil de participar de negociações sobre Gaza, diz diplomata

    O Ministério das Relações Exteriores de Israel disse nesta quarta-feira (6) que as recentes críticas feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à ofensiva militar na Faixa de Gaza impedem o Brasil de ter participação nas negociações para encerrar o conflito.

    “Se o Brasil isolar Israel, se tiver preconceitos contra Israel, não pode ser considerado uma potência regional ou mesmo global que possa ter qualquer papel nas negociações [em relação à guerra em Gaza]”, afirmou Jonathan Peled, vice-diretor geral da divisão para América Latina e Caribe do ministério israelense.

    Peled se referia às recentes declarações do presidente Lula, que classificou o que acontece em Gaza de “genocídio” e comparou a violenta ação militar de Israel no território palestino ao extermínio de judeus pelo ditador nazista Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.

    “Isso [a declaração de Lula] é muito, muito lamentável para nós, porque ele está colocando o Brasil, a nosso ver, numa posição muito negativa perante a visão do mundo, porque o Brasil, com tal posicionamento, não mantém uma abordagem neutra ou equilibrada”, disse o diplomata.

    “Está do lado do Irã, está do lado da Coreia do Norte, está do lado de muitos países com os quais [o Brasil] não partilha os mesmos valores”, adicionou.

    Mesmo sem ser perguntado diretamente sobre a questão, o embaixador pontuou que seu país ajudou “o governo brasileiro na evacuação de pessoas de Israel e palestinos com identidade brasileira ou cidadania de Gaza”.

    “E recebemos o que em troca? Declarações antissemitas do presidente Lula. E isso é uma linha vermelha para Israel”, alertou Peled.

    Apesar das críticas, o diplomata ressaltou que os dois países vão continuar a ter relações sólidas porque são duas nações e dois povos amigos.

    Segundo ele, as diferenças podem existir entre os governos, mas deverão ser superadas. Ele afirmou ainda que espera que a crise diplomática entre os dois países volte ao normal em algum tempo.

    Um dos pontos da crise que irritou profundamente o governo brasileiro foi a forma como Israel expressou seu descontentamento com as críticas de Lula.

    O ministro das Relações Exteriores Israel Katz convocou o embaixador brasileiro Frederico Meyer para uma reprimenda pública, no Museu do Holocausto, em Jerusalém.

    Além disso, Katz declarou Lula “persona non grata” em Israel, falando para a TV do país na frente de Meyer em hebraico – idioma que o diplomata brasileiro não domina completamente.

    O episódio levou o Itamaraty a chamar o embaixador de volta a Brasília, uma forma diplomática tradicional de mostrar contrariedade com atos de outro governo.

    Perguntado sobre o episódio, Peled destacou que “talvez esta fosse a única forma de transmitir a mensagem [de descontentamento de Israel]. Talvez se tivéssemos feito de forma mais protocolar a mensagem não teria sido transmitida e não teríamos conseguido a mesma reação do Brasil”.

    “É muito difícil calibrar este tipo de decisões. No final das contas, essas são decisões políticas”, acrescentou.

    Procurado pela CNN, o Itamaraty afirmou que o Brasil já havia se pronunciado sobre as críticas israelenses por meio de notas emitidas nos últimos dias e também pelas declarações oficiais do país na ONU.

    Na sexta-feira passada (1°), o Ministério das Relações Exteriores divulgou uma nota criticando a morte de civis em Gaza, especialmente num episódio em que palestinos famintos morreram ao tentar receber comida de comboios de ajuda humanitária.

    “O governo Netanyahu volta a mostrar, por ações e declarações, que a ação militar em Gaza não tem qualquer limite ético ou legal. E cabe à comunidade internacional dar um basta para, somente assim, evitar novas atrocidades. A cada dia de hesitação, mais inocentes morrerão”, disse a nota.

    “A humanidade está falhando com os civis de Gaza. E é hora de evitar novos massacres”, complementou o Itamaraty.

    Israel pontua que os palestinos famintos morreram pisoteados uns pelos outros depois de terem se aproximado demasiadamente dos caminhões de ajuda humanitária e de tanques israelenses que tentavam protegê-los. Os palestinos dizem que foram alvejados diretamente por soldados israelenses.

    A CNN conversou com experientes embaixadores brasileiros que reagiram ao que eles consideraram uma nova tentativa do ministério israelense de desqualificar as críticas do Brasil e do presidente Lula com relação à violência na guerra.

    Essas fontes afirmaram que Israel está tentando usar o rótulo de “antissemita” para desqualificar as críticas do presidente brasileiro, mas eles afirmam que isso não vai funcionar.

    Além disso, os embaixadores deixam claro que as críticas são dirigidas especificamente às táticas violentas adotadas pelo governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu – e não ao povo israelense ou ao Estado de Israel, uma nação amiga do Brasil desde sua fundação.

    Eles também ressaltaram que essas táticas “não vão calar o Brasil e nem o presidente”, cujas críticas estariam sendo encampadas com mais intensidade pela comunidade internacional – que começa a isolar Israel.