Entenda por que EUA podem intervir no conflito entre Israel e Irã
Teerã tem sido acusada há mais de duas décadas de tentar desenvolver uma bomba atômica, perspectiva gera enorme tensão no Oriente Médio, após quebra de acordo com os americanos
O conflito direto entre Israel e Irã já causou uma enorme destruição em ambos os lados e deixou centenas de mortos e milhares de feridos.
Agora, cresce a possibilidade de ampliação do conflito com a entrada dos Estados Unidos na guerra, ao lado de Israel, para bombardear as instalações nucleares e militares do Irã.
Os americanos já chegaram a deslocar dezenas de aviões militares e jatos de combate para a região, aumentando as tensões no Oriente Médio.
Mas como a situação chegou a esse ponto? Explico abaixo os principais fatos que nos trouxeram até aqui.
Como tudo isso começou?
O Irã tem sido acusado há mais de duas décadas de tentar desenvolver uma bomba atômica. Essa perspectiva sempre gerou enorme tensão no Oriente Médio, onde o país acumula muitos inimigos.
Para Israel, uma bomba nas mãos do regime ditatorial e teocrático dos aiatolás representa uma ameaça existencial — o temor é de que Teerã, ao obter esse armamento, poderia usá-lo para riscar Israel do mapa.
O Irã, por sua vez, afirma que seu programa nuclear tem fins exclusivamente pacíficos.
Como signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, o país alega que enriquece urânio somente para gerar energia.
Mas essa versão é vista com desconfiança por potências ocidentais, que consideram que Teerã está muito perto de alcançar o nível de enriquecimento necessário para fabricar uma ogiva nuclear.
No passado, mais precisamente em 2015, o Irã aceitou um acordo com os EUA, ainda sob a presidência de Barack Obama, junto com Alemanha, Reino Unido, França, China e Rússia, permitindo inspeções internacionais em suas instalações nucleares.
O pacto teve êxito temporário: o programa iraniano foi desacelerado e os riscos de fabricação de uma bomba, reduzidos.
Mas quando Donald Trump assumiu a presidência no seu primeiro mandato, ele rompeu com o acordo — classificando-o como “o pior já feito” — mesmo diante de sua efetividade.
Com a retirada dos EUA, o Irã também abandonou os compromissos e acelerou novamente seu programa nuclear, aumentando as tensões com o Ocidente.

Algum outro país possui armas nucleares no Oriente Médio?
É importante lembrar que Israel é o único país da região que possui armas nucleares, embora nunca tenha confirmado isso oficialmente.
O país também não é signatário do mesmo tratado de não proliferação de armas nucleares.
Isso também preocupa o Irã e outros países da região, que consideram Israel, uma democracia, como uma ameaça aos seus regimes.
Além disso, os ataques israelenses recentes podem ser considerados ilegais sob o direito internacional, já que ocorreram sem mandato da ONU, e sem que Israel tenha sido atacado diretamente pelo Irã.
E por que Israel resolveu atacar justamente agora?
Israel percebeu que o Irã atravessa um momento de grande fragilidade, tanto interna quanto externa.
Internamente, a economia iraniana sofre com inflação elevada e múltiplos problemas causados pelas sanções internacionais — sanções que, em boa parte, respondem justamente à escalada do programa nuclear.
Além disso, o governo dos aiatolás é muito impopular por reprimir constantemente a população e tentar impor sua interpretação radical do Islã ao povo, em especial às mulheres.
Externamente, o Irã viu seus aliados mais próximos na região perderem força.
Desde o início da guerra na Faixa de Gaza, Israel impôs derrotas significativas a grupos como Hamas e Jihad Islâmica (em Gaza), Hezbollah (no sul do Líbano), milícias pró-Irã na Síria e no Iraque, e até os Houthis, no Iêmen.
Esses grupos funcionavam como linha de defesa estratégica para o Irã, atacando Israel em momentos críticos. Mas, após várias derrotas militares, perderam a capacidade de ajudar a defender Teerã.
Outro fator importante é o papel do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que há décadas considera a destruição do regime dos aiatolás como objetivo central de seu legado político.
Ele mantém uma relação próxima com Donald Trump, e contou, no mínimo, com o apoio tácito da Casa Branca para os ataques recentes.
E por que Donald Trump está considerando, agora, colocar os EUA diretamente no conflito?
Trump buscou, nos últimos meses, uma solução diplomática com o Irã.
Sua ideia era negociar um novo acordo para impedir que o país construísse a bomba. Um acordo diferente daquele negociado por Obama, o grande rival político do atual presidente.
Houve diversas rodadas de negociação, mas sem progresso significativo. Os dois lados mantêm posições irreconciliáveis.
Os Estados Unidos exigem que o Irã abandone completamente qualquer programa nuclear — mesmo os civis —, destruindo centrífugas e encerrando o enriquecimento de urânio.
O Irã, por sua vez, sustenta que tem direito a um programa nuclear pacífico, conforme o tratado internacional permite, e rejeita a exigência de abrir mão totalmente do enriquecimento de urânio.
Trump impôs um prazo de 60 dias para um entendimento. No dia seguinte ao fim desse prazo, Israel atacou.
Muitos analistas acreditam que o ataque foi coordenado entre Trump e Netanyahu
Agora, o líder americano afirma que perdeu a paciência com Teerã e exige uma rendição total.
Ele já afirmou que pretende impor uma solução definitiva ao conflito. Chegou a declarar que poderia eliminar o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei — embora tenha dito que isso não seria imediato.

Como poderiam ser os ataques americanos?
Se o objetivo real de EUA e Israel é destruir pela força o programa nuclear iraniano, será preciso atingir as centrífugas protegidas em montanhas e bunkers subterrâneos.
Israel não tem armamentos capazes de cumprir essa missão. Somente os Estados Unidos possuem bombas anti-bunker com capacidade para penetrar essas fortificações — daí a necessidade de envolvimento direto.
Nos últimos dias e horas, os americanos vêm mobilizando aviões e equipamentos para o Oriente Médio, sinalizando que a entrada direta no conflito é uma possibilidade real.
O ultimato já foi dado:
O regime iraniano precisa recuar ou enfrentará consequências sem precedentes,
Quais as outras consequências de uma entrada dos Estados Unidos no conflito?
Caso Trump decida entrar no conflito, o primeiro passo seria destruir as instalações nucleares do Irã com suas bombas anti-bunker.
Isso, inclusive, pode ser considerado ilegal e irresponsável, dado a natureza desses locais e o armazenamento de urânio enriquecido.
Mas é provável que a ofensiva vá além disso, visando também uma mudança de regime — algo que poderia incluir ataques a líderes iranianos, inclusive o próprio aiatolá Ali Khamenei.
O Irã, isolado internacionalmente e com poucos aliados leais, teria grandes dificuldades para resistir. Rússia e China já protestaram contra a escalada, mas dificilmente se envolveriam militarmente.
Muitos países da região, inclusive, estão apoiando discretamente Israel. Arábia Saudita e Jordânia, por exemplo, também não querem que o Irã tenha uma arma nuclear.
Os jordanianos estão utilizando inclusive a sua força aérea para auxiliar na defesa do território israelenses dos ataques com mísseis de Teerã.
Mas uma coisa é certa: uma intervenção americana criaria ainda mais instabilidade no Oriente Médio.
O Iraque é um exemplo claro: mesmo após a queda do ditador Saddam Hussein há mais de 20 anos, o país segue mergulhado em violência, com milícias armadas e um governo que não controla todo o território do país.
Além disso, esse possível ataque marcaria mais um duro golpe na ordem internacional baseada em leis e instituições multilaterais.
Nada do que está sendo feito tem respaldo da ONU ou da legislação internacional.
Se os Estados Unidos atacarem sem autorização legal, a mensagem será clara: a partir de agora, vale definitivamente a lei do mais forte.



