Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Irã: como funciona o enriquecimento do urânio e por que ele preocupa?

Com progressos significativos no ciclo nuclear, Teerã se aproxima do limiar tecnológico para a uma bomba atômica

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Muito se fala sobre a possibilidade de o Irã atingir um nível elevado de enriquecimento de urânio e com isso desenvolver uma bomba atômica. Entretanto, pouco se fala sobre o processo de enriquecimento e como ele representa um desafio de difícil superação.

Para melhor compreender o processo de enriquecimento e o porquê de sua importância, uma breve digressão técnica se faz necessária. O urânio ocorre naturalmente sob a forma de três isótopos: 238, 235 e 234. A diferença entre eles é o número de nêutrons que cada um tem em seu núcleo e isso confere a cada isótopo propriedades nucleares diferentes.

O isótopo 238 é o mais abundante, correspondendo a mais de 99% do urânio encontrado naturalmente. Ele não tem propriedades que possibilitem – ao menos diretamente – seu uso em reatores ou bombas atômicas. Dentre os três isótopos, somente o 235 possui características que possibilitam seu uso em sistemas nucleares (reatores ou bombas, por exemplo). Mas ele ocorre naturalmente apenas com uma proporção menor de 1%. Já o urânio 234 ocorre em proporções muito pequenas e tem um papel secundário ou marginal nos ciclos nucleares.

Por que o plutônio não está no centro do programa iraniano?

Embora seja possível construir bombas atômicas com o uso de plutônio 239 – a Fat Man, lançada em Nagasaki, era feita desse material – esse elemento não ocorre naturalmente. Ele precisa ser produzido em reatores nucleares a partir do urânio 238, utilizando uma tecnologia que o Irã não possui e que é muito monitorada pela comunidade internacional. O urânio natural, por sua vez, é abundante e pode ser enriquecido em urânio 235, em um processo tecnicamente viável com infraestrutura civil, embora demorado.

Como funciona o enriquecimento de urânio?

Esse processo, tão debatido e comentado, consiste em pegar o urânio que ocorre naturalmente e concentrar o isótopo 235 na amostra. Para que ele possa ser utilizado para a construção de uma bomba atômica, o urânio precisa ter um grau de enriquecimento superior a 90%.

A amostra que naturalmente tem menos de 1% desse isótopo precisa passar por um processo que eleve essa proporção a mais de 90%. Em concentrações menores do isótopo 235 (entre 3% e 20%), o urânio pode ser usado em reatores comerciais – para a geração de energia – ou para fins médicos. Passar de um estágio (20%) para outro (90%) é um grande desafio.

Para evitar a proliferação de armas nucleares, foi celebrado no final dos anos 1960 o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), que reconhece que somente EUA, Rússia, China, França e Reino Unido poderiam possuir armas nucleares. Aos demais países, seria permitido apenas o uso civil da energia nuclear. Hoje, sabidamente, há outros países – como a Índia e o Paquistão e talvez a Coreia do Norte – que possuem bombas atômicas.

A adesão a esse tratado é voluntária, mas sujeita a sanções os países que potencialmente possam representar algum risco militar e que não sigam o TNP. A supervisão desse tratado, considerado um dos mais importantes, é feita pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O Irã é um dos signatários.

Em 2015, foi celebrado um acordo denominado de Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês) entre o Irã e os EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha, sob mediação da União Europeia, para restringir o programa nuclear iraniano a fins pacíficos. A contrapartida seria a suspensão gradual de sanções econômicas impostas ao país.

Em 2018, sob a presidência de Donald Trump, os Estados Unidos se retiraram formalmente do JCPOA e restabeleceram sanções severas contra o Irã. Em resposta, o governo iraniano passou a descumprir progressivamente os termos do acordo, elevando os níveis de enriquecimento de urânio acima dos limites originalmente acordados.

Ciberguerra e a sabotagem das centrífugas iranianas

A técnica utilizada pelo Irã para enriquecimento do urânio é baseada no uso de centrífugas que vão separando os seus diferentes tipos de isótopos. É um processo “tecnicamente simples”, embora demorado. Essa forma de enriquecimento esteve no foco de uma ação de ciberguerra que ocorreu há cerca de dez anos.

A possibilidade de que o Irã desenvolvesse armas nucleares, a partir do enriquecimento do urânio, fez com que fosse empregado um vírus de computador para danificar as centrífugas daquele país. Denominado de Stuxnet, esse vírus foi descoberto em 2010, tendo sido projetado para atingir especificamente os equipamentos iranianos.

O Stuxnet alterava sutilmente a rotação dos equipamentos, causando danos físicos sem levantar suspeitas nos sistemas de controle. Acredita-se que a operação tenha sido conduzida por EUA e Israel. O ataque atrasou significativamente o avanço nuclear iraniano e marcou o início da era da ciberguerra contra infraestrutura crítica.

Episódios como o do Stuxnet revelam que, no centro da disputa nuclear iraniana, não está apenas a questão técnica do enriquecimento, mas também o embate geopolítico e militar por controle e segurança. Hoje, com o programa nuclear do Irã novamente no centro das atenções, as tensões com Israel se intensificam: o governo israelense considera inaceitável que Teerã alcance essa capacidade armamentista.

Em um cenário onde algoritmos conseguem sabotar instalações físicas e centrífugas se tornam símbolos de poder estratégico, entender os fundamentos científicos do enriquecimento de urânio é essencial, não apenas para dimensionar os riscos, mas para compreender as escolhas impostas à diplomacia e à segurança internacional.