Maior liquidação de shorts da história do bitcoin
Movimento de forte alta do bitcoin trouxe prejuízos nunca antes vistos àqueles que apostavam na queda da criptomoeda

No mercado de bitcoin e criptomoedas, poucos movimentos são tão reveladores quanto um "short squeeze", termo em inglês que descreve a situação em que investidores apostados na queda de um ativo são forçados a comprar de volta suas posições às pressas, empurrando o preço ainda mais para cima.
Foi exatamente isso que vivemos nos últimos dias. Na última quarta-feira (19), e se estendendo até a quinta-feira (20), o bitcoin protagonizou o maior movimento de liquidação de posições vendidas, os chamados "shorts", desde dezembro de 2020.
Em apenas 24 horas, o mercado de criptomoedas registrou cerca de US$ 3,4 bilhões em liquidações totais, sendo que aproximadamente 92% desse valor veio de posições vendidas.
Você leu corretamente: quase a totalidade das liquidações penalizou quem apostava na queda do bitcoin). O próprio bitcoin liderou o movimento, com mais de US$ 1 bilhão em posições short liquidadas em apenas uma hora, em determinado momento do movimento.
O preço saltou de patamares próximos de US$ 62 mil para acima de US$ 73 mil, rompendo um intervalo de negociação que durava desde 8 de julho, quando o ativo ficou travado entre US$ 62 mil e US$ 67 mil por seis semanas consecutivas.
Importante fazer uma ressalva sobre o tamanho histórico desse evento. Trata-se da maior liquidação especificamente de posições vendidas desde final de 2020, mas não da maior liquidação total já registrada no mercado de criptomoedas.
Esse título ainda pertence ao episódio de 10 de outubro de 2025, quando o bitcoin, partindo de mais de US$ 126 mil, sofreu um colapso que gerou cerca de US$ 19 bilhões em liquidações totais em um único dia.
A diferença entre os dois eventos é significativa: em outubro de 2025, vimos um movimento de pânico e queda generalizada. Agora, em agosto de 2026, vimos o oposto: um movimento de alta tão forte e repentino que pegou os apostadores contra o bitcoin completamente desprevenidos.
Mas afinal, o que motivou essa reviravolta tão abrupta? A resposta passa pela combinação de três fatores. Em primeiro lugar, o Tesouro americano anunciou que vai, no mínimo, dobrar o tamanho das operações de recompra de títulos públicos de longo prazo, elevando o limite de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões por operação.
Esse programa de recompra, técnica que o governo americano utiliza para melhorar a liquidez do mercado de Treasuries, foi interpretado pelo mercado como um sinal de maior injeção de liquidez na economia americana, o que costuma beneficiar ativos de risco como o bitcoin.
Adicionalmente, a inflação americana voltou a surpreender para baixo. O índice de preços ao consumidor referente a julho (CPI), mostrou alta de 3,4% em doze meses, o segundo mês consecutivo de desaceleração, vindo de 3,5% no mês anterior.
Esse dado reacendeu a esperança do mercado de que o Fed (Federal Reserve) tenha mais espaço para adotar uma postura menos rígida nos próximos meses.
Por fim, e talvez o fator mais técnico de todos, a volatilidade do bitcoin vinha se comprimindo de forma consistente ao longo das últimas semanas, com o preço andando de lado dentro de um intervalo cada vez mais estreito.
Esse tipo de compressão costuma anteceder movimentos bruscos, para cima ou para baixo, justamente porque cria-se uma grande concentração de posições apostando contra o movimento que eventualmente acontece.
Foi exatamente isso que vimos: uma faixa densa de posições short concentradas entre US$ 65 mil e US$ 67 mil, que funcionou como combustível para acelerar a alta assim que o rompimento aconteceu.
Diante desse cenário, a pergunta natural do investidor passa a ser: essa foi a confirmação de que o pior já passou para o bitcoin? A resposta honesta é que ainda não podemos afirmar isso com segurança. O bitcoin está em regiões de resistências relevantes.
Romper e sustentar acima dessas resistências de forma consistente é um passo importante, mas ainda não suficiente para cravar reversão de tendência. Adicionalmente, mais de 44 mil bitcoins foram enviados para as corretoras desde o início do movimento, sinal de que parte dos investidores está aproveitando a alta para realizar lucro, o que pode limitar a continuidade do movimento no curto prazo.
Vale destacar também que boa parte dessa alta foi resultado de compra forçada por parte dos vendedores que precisavam encerrar suas posições, e não necessariamente de demanda nova e genuína entrando no mercado à vista.
Historicamente, movimentos construídos sobre liquidações forçadas tendem a ser mais frágeis do que altas sustentadas por fluxo comprador orgânico, e é comum que parte do movimento seja devolvida nos dias seguintes.
Em conclusão, nenhum indicador técnico ou fundamentalista aponta, até o momento, para uma confirmação definitiva de que o fundo do mercado ficou para trás.
O cenário macroeconômico global, como temos discutido extensivamente nas últimas semanas, ainda carrega diversas fontes de incerteza, da situação fiscal japonesa aos rumos da política monetária americana.
Portanto, continuamos com a visão de que o investidor precisa fazer aportes parcelados e recorrentes em bitcoin, sem se deixar levar pela euforia de curto prazo nem pelo medo das últimas semanas.
Disciplina, paciência e gestão de risco continuam sendo as ferramentas mais valiosas em um mercado que, mais uma vez, provou como pode ser volátil e imprevisível.



