À CNN, embaixador do Brasil no Irã: "Cedo para dizer que regime vai cair”
Andre Veras Guimarães avalia que há riscos na estratégia dos Estados Unidos de eliminar as lideranças iranianas e estimular que a população tome o poder
O embaixador do Brasil no Teerã, André Veras Guimarães, disse à CNN, na manhã desta segunda-feira (2), ver riscos na estratégia dos Estados Unidos de eliminar as lideranças iranianas e estimular que a população tome o poder.
“Não adianta matar lideranças e pedir ao povo ocupar”, afirmou. Para ele, “é muito cedo para dizer que o regime cai”.
Ele também relatou haver cerca de 200 brasileiros no país, a maioria mulheres casadas com iranianos já enraizadas no país e que não pretendem deixar o Irã em meio ao conflito.
Veja abaixo a entrevista:
CNN: Qual o cenário nesta segunda-feira em Teerã?
Embaixador André Veras: Os Estados Unidos e Israel estão atacando continuamente e diariamente. E dá para imaginar a capacidade militar americana, principalmente porque houve um trabalho longo e contínuo de inteligência aqui, o que permitiu que mapeassem toda a estrutura iraniana. A cidade está vazia de movimento de pessoas, vazia de carros na rua. E isso chama muito a atenção porque Teerã é onde mais se vê a movimentação da cidade. É uma cidade muito vibrante. O iraniano é muito de rua. Mas o próprio governo pediu que as pessoas deixassem Teerã. Eu recebi mensagem de SMS da polícia para que saísse de Teerã.
CNN: O senhor acredita que o regime deve cair?
Embaixador André Veras: É muito cedo para dizer que cai, mas, se levar em conta o que está acontecendo neste momento, com destruição e morte de lideranças militares e políticas, vai chegar um tempo em que o oxigênio vai acabar. De maneira geral, acho que está começando a haver, por parte de alguns iranianos, um choque de realidade. Eles imaginaram que seria uma promessa do Trump de que eles matam aqui a autoridade e o regime cai. Que haverá uma transição pacífica e feliz, e que o príncipe herdeiro irá retomar o poder e o Império Persa. Mas tudo é incerto ainda. É preciso saber em que momento esse ato dos Estados Unidos e de Israel vai forçar um retorno à negociação. O cenário é de imprevisibilidade e tensão.
CNN: Por que?
Embaixador André Veras: Aqui, além do governo em si, tem a Guarda Revolucionária com cerca de 200 mil militares. E além dela há mais ou menos de 90 a 120 mil homens ligados a ela em forças paramilitares. É um grupo não uniformizado, mas eles carregam armas. Então estamos falando de cerca de 300 mil homens armados. O que me questiono é como seria eventualmente uma tomada do governo pela população se o regime cai com todos esses 300 mil homens armados nas ruas. Teremos um país com 300 mil homens com armas na mão. Aí você fala: vai para a rua tomar o poder?
CNN: Por isso que uma negociação seria um caminho mais aconselhável?
Embaixador André Veras: O que pode acontecer é ausência de poder, sujeito a movimentos insurrecionais. Isso pode acontecer nesse ritmo em que estamos. Não adianta matar as lideranças e dizer para o povo: “Ocupem o seu Estado”, porque eles não têm essa tradição de pegar em armas. Não tem Censo aqui, mas dizem que entre 15% e 20% da população são favoráveis ao regime. São 18 milhões de pessoas, num país de 90 milhões de iranianos. Seis vezes o tamanho de Israel. O Iraque tinha 20 milhões e não conseguiram estabilizar. Até hoje não conseguiram desarmar o Hamas e o Hezbollah.
CNN: Acha que diante disso os EUA poderiam entrar por terra no país?
Embaixador André Veras: Acho que não há possibilidade de atuação militar. Há os exemplos recentes de invasão por terra no Afeganistão e no Iraque que sabemos o resultado. E aqui seria a mesma coisa.
CNN: Há muitos brasileiros morando no Irã?
Embaixador André Veras: São cerca de 200 pessoas. São, na maioria, mulheres que foram para o Japão nos anos 80 e se casaram lá com iranianos e depois vieram para cá.
CNN: Há interesse delas em deixar o país neste momento?
Embaixador André Veras: Não é possível afirmar, mas são pessoas enraizadas aqui. E há impedimentos legais sobre filhos e maridos que não podem sair. E constituíram vida aqui. Há uma legislação que impõe dificuldades em caso de abandono do país. Por outro lado há um grupo de profissionais do futebol que atuam aqui que deixaram o país pela Turquia. Não há muita dificuldade em deixar o país por via terrestre. A dificuldade é por via aérea. E tem pessoas que estão por um curto período, como um atleta de jiu-jitsu, por exemplo, que está tentando sair.
CNN: Qual a situação da embaixada hoje?
Embaixador André Veras: Eles cortaram a internet, só os telefones funcionam. Temos nosso celular de plantão, mas não temos registro de qualquer chamada. Tenho um colega que se dispôs a fazer um plantão físico.
CNN: A embaixada pode ser alvo de um míssil?
Embaixador André Veras: Não há ataque indiscriminado. Até porque, numa análise seguindo o que ocorre no Golfo, os ataques são direcionados às instalações e autoridades militares e da Guarda Revolucionária. Mas esta noite por exemplo meu apartamento tremeu por conta de explosões próximas. Eu até mudei de quarto. Não dormi com segurança. O meu medo não é ser alvo de ataque, é que um ataque próximo possa danificar o prédio. Os prédios aqui têm tradição de arquitetura, são prédios muito bonitos, com muita varanda e muito vidro.
CNN: Teme pela sua vida?
Embaixador André Veras: Trabalhei 40 anos para ser diplomata. Eu tenho que me preparar para estar consciente e com a mente clara para trabalhar. Claro que tenho preocupação e ansiedade, mas tenho que manter a calma. Até para poder passar segurança para minha mulher e meu filho de nove anos que estão aqui comigo.



