Análise: Ao empoderar PT, Lula ignora papel de Pacheco contra bolsonarismo
Presidente avisou ao senador que não o escolheria para a vaga de Luís Roberto Barroso no Supremo
Se há um ponto de virada no governo Jair Bolsonaro, ele ocorreu quando o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), autorizou a abertura da CPI da Pandemia. Foi a partir dali que o incumbente começou a perder a eleição de 2022.
O momento era simbólico: aquele abril de 2021 havia sido o mês mais letal da Covid até então, com 82.266 mortes — 23% a mais que no mês anterior. E Bolsonaro já havia, até aquele momento, soltado algumas das frases que ajudaram o eleitor a associá-lo à indiferença em relação à pandemia. “Não sou coveiro”, “(A morte) é o destino de todo mundo” e “país de maricas” são algumas delas.
A CPI da Pandemia amplificou essa associação e entregou, no ano eleitoral, um presidente que não era favorito à reeleição — o que se confirmou com a vitória de Lula.
À época da abertura da CPI, a pressão do Palácio do Planalto e das redes sociais bolsonaristas contra os senadores que a apoiaram, especialmente contra Rodrigo Pacheco, era grande. A pressão contra Pacheco só aumentou. O então presidente do Senado virou alvo do grupo e do chamado “gabinete do ódio”. Ao mesmo tempo, foi se consolidando como um dos principais agentes a segurar a democracia brasileira e abrir caminho para a vitória de Lula em 2022.
Alguns fatos reforçam esse papel:
- Em agosto de 2021, Pacheco rejeitou convite para participar do desfile militar promovido por Bolsonaro para pressionar o Congresso a votar um projeto que instituiria o voto impresso.
- No mesmo dia, Pacheco aprovou a revogação da Lei de Segurança Nacional, uma herança da ditadura militar, e barrou um pedido de impeachment contra ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), contrariado a base bolsonarista.
- A um mês das eleições de 2022, quando Bolsonaro caminhava para a derrota e o bolsonarismo passou a tonificar as dúvidas sobre a confiança nas urnas eletrônicas, Pacheco destacou, em discurso com observadores internacionais, a eficiência e a transparência do sistema de votação brasileiro e pediu respeito ao resultado final, que deu a vitória a Lula.
Lula venceu, e Pacheco o ajudou a aprovar a PEC da Transição, garantindo ao novo governo caixa para a largada: R$ 145 bilhões para bancar despesas como o Bolsa Família, o Auxílio Gás, a Farmácia Popular e outras políticas públicas populares.
Com uma semana de governo, veio o 8 de janeiro para desestabilizar o governo Lula. Pacheco e outras lideranças prontamente condenaram o movimento.
O senador do PSD afirmou que a minoria golpista não representava o povo brasileiro e não iria impor sua vontade por meio da barbárie, da força ou de atos criminosos. Afirmou ainda que essa minoria “extremista” seria identificada e responsabilizada, assim como seus financiadores e agentes públicos dolosamente omissos. Na agenda legislativa ao longo do Lula 3, votou com o governo.
Na manhã desta terça-feira (18), Lula recebeu Pacheco no Palácio do Planalto para lhe informar que não o escolheria para a vaga de Luís Roberto Barroso no Supremo.
O presidente preferiu o Advogado-Geral da União, Jorge Messias. Filiado ao PT, Lula, segundo aliados, sente mais confiança em nomear alguém dos quadros do partido, ainda que, no currículo, ele não tenha os mesmos serviços prestados contra o bolsonarismo que Pacheco tem.
A reação do Senado deverá ser imediata. Ou, como relatou uma fonte na Casa, Messias caminha para sofrer um “impeachment simbólico” e ter sua nomeação barrada pelos senadores, que defendiam Pacheco, em parte, pela forma como ele blindou o Legislativo de interferências autoritárias e pavimentou o caminho para que o eleito em 2022 tomasse posse e governasse. Mas Lula achou mais importante empoderar o PT.



