Os dez atos do chefe da Abin que levaram ao seu indiciamento, segundo a PF
Na quarta-feira (18), o STF retirou o sigilo do relatório final da Polícia Federal

O extenso relatório de 1.125 páginas em que a Polícia Federal detalha a investigação dedica um trecho especial com 6 páginas no qual detalha dez ações do atual diretor-geral da Abin, Luiz Fernando Corrêa, no sentido atrapalhar as investigações da Polícia Federal sobre a "Abin paralela".
São elas:
- 1) Assédio moral contra a corregedora da Abin para não avançar nas apurações internas com consequente substituição sua, o que acabou levando a remessa da apuração para a Controladoria-Geral da União;
- 2) Encaminhamento à PF de uma lista de quem usava o FirstMile sem nomes de quem realmente utilizava o sistema, o que segundo a PF dificultou a reconstituição da cadeia de comando e a identificação de atores-chave nas ações clandestinas;
- 3) Controle das oitivas conduzidas pela PF de modo a garantir que os servidores não colaborassem com a apuração;
- 4) Declarações para minimizar o escândalo do uso clandestino da ferramenta FirstMile, afirmando que "a montanha vai parir um rato" e para desacreditar a investigação classificando-a como “política". Também teria sinalizado internamente uma articulação com o STF para que o processo fosse remetido à corte e uma linha de estratégia para abrir e controlar uma sindicância interna para mostrar à PF que algo estava sendo feito, buscando substituir a apuração criminal por um procedimento administrativo controlado internamente;
- 5) A proteção de investigados responsáveis, segundo a PF, pela organização que levava adiante a Abin paralela;
- 6) Sinalizações aos servidores e investigados de que haveria uma acomodação política da investigação no STF e que a investigação "não daria nada";
- 7) Demora para entregar dados sobre o FirtsMile. A PF solicitou prazo em 31/03/2023 alegando férias de servidor, enquanto, na mesma data, pedia ao STF a centralização da apuração e internamente diligenciava sobre mesmos logs para identificar "vulnerabilidades”. Os logs originais somente foram remetidos à PF em 11/04/2023, data em que os logs "tratados" foram enviados ao STF, confirmando a intenção de controlar o fluxo de informações e subtrair a análise primária da autoridade policial;
- 8) Encontro fora da agenda oficial com Alexandre Ramagem em 16/06/2023, para tratar da "Operação Rio 06" e "evitar murmurinho”, em período sensível da investigação e próximo a indicações para a CPMI do 8 de janeiro, reforça a suspeita de interesses comuns e alinhamento estratégico com o principal investigado da gestão anterior. Não por menos, houve indicação de servidores diretamente vinculados ao então Diretor-Adjunto;
- 9) Ordem para que o ex-diretor adjunto investigado, Victor Carneiro, fosse deslocado de sua estação de trabalho para que não fosse alvo de uma operação da PF;
- 10) Vazamento para a imprensa de informações contidas em processo sigiloso ao qual Corrêa tinha acesso credenciado e posterior bloqueio para que esse fato fosse apurado pela Corregedoria.
Corrêa acabou indiciado por:
- 1) Impedir ou embaraçar a investigação de infração penal que envolva organização criminosa
- 2) Prevaricação
- 3) Coação no curso do processo.
Para a PF, "a postura da Direção Geral resultou em um clima de coação e desconfiança, desestimulando a colaboração de servidores que detinham informações relevantes". O embaraçamento sistemático exigiu esforço redobrado da equipe e investigação policial para superar os obstáculos criados, retardando o descobrimento dos fatos delituosos ocorridos na ABIN e na consequente perda do acervo probatório posto que não foram preliminarmente identificados a devida posição de determinados sujeitos na presente investigação."
Na Abin, porém, a leitura é de que o indiciamento decorre de uma disputa histórica entre a PF e a Abin por controle de investigações no país e de um interesse da cúpula da PF de derrubar Corrêa. A leitura, porém, é de que ele deve cair, mas não no curto prazo.
Corrêa tem uma relação de longa data com o presidente Lula. Foi seu chefe da Polícia Federal durante seu primeiro mandato.
A CNN questionou formalmente a Abin sobre as acusações e aguarda uma resposta.



