Análise: sem marca no Lula 3, petista tenta vender futuro com pé no passado
Em convenção, presidente fez discurso à moda antiga, empenhado em convencer que tem fôlego para mais um mandato
Foi com um discurso típico dos velhos tempos que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou oficialmente sua candidatura presidencial no domingo (2).
Por mais de uma hora, o petista andou de um lado para o outro no palco cercado pela militância petista na convenção realizada em um centro de exposições na zona norte da capital paulista. Com direito a uma descrição detalhada de sua rotina de atividade física e uma longa fala ao microfone quase sem falhas na voz, Lula, aos 80 anos, prometeu brigar com a velhice num eventual quarto mandato.
O presidente parecia querer mostrar à plateia de militantes petistas (e principalmente às redes sociais) que têm fôlego para mais quatro anos à frente do Palácio do Planalto. Foi um discurso de mais de uma hora, feito bem ao estilo do Lula de antigamente, embora a estética tenha mudado um pouco. Com direito a um show de luzes e uma música com ares de trilha sonora de filme de ficção científica.
No conteúdo, entretanto, o discurso do Lula 3 deixou no ar a ideia de um governo que custa a entregar algo novo a um eleitor que dá sinais de cansaço.
Claro que o presidente não perdeu a chance de exaltar algumas medidas estratégicas de seu terceiro governo, como a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil ou o programa Pé de Meia. Mas fez falta ali, como já dizem há tempos os aliados mais próximos, uma grande marca desta gestão. Assim, falou-se mais de lembranças do passado e promessas para o futuro do que de resultados.
Lula disse que, agora, será a vez do “Lulinha porreta” e não do “Lulinha paz e amor”. Ele prometeu peitar o Congresso Nacional e até as grandes nações estrangeiras que estão, segundo ele, de olho nas riquezas do país.
Mencionou a exploração de terras raras e citou rapidamente os Estados Unidos, entre outros países. Falou até em construir fábrica de drones. E garantiu que vai trabalhar pelas mulheres e também pelos idosos. Tudo para dizer que não quer ser apenas o presidente do Bolsa Família.
As promessas para o Lula 4 vieram embaladas em lembranças sobre a trajetória do menino pobre criado por Dona Lindu, que passou fome na infância e se transformou em líder sindical. O menino Lula, aliás, estava estampado em uma foto impressa na camiseta vestida pela primeira-dama Janja, tirada quando ele tinha 5 anos.
Foram quase 40 minutos em que Lula lembrou grandes momentos de sua vida política. Com direito a alguns escorregões, como a dificuldade de se lembrar do nome do ex-governador de SP Claudio Lembo. O petista até se comparou a Pelé ao dizer que as tantas eleições que disputou valem por Copas do Mundo.
Uma curiosidade é que, embora Lula tenha discorrido longamente sobre companheiros do passado, muitos dos que o acompanharam pelo caminho tiveram um status diferente na convenção de hoje.
Nomes que lá atrás costumavam sentar na mesa de autoridades agora entraram pelo portão lateral do centro de exposições, junto com a militância em geral. Lula avistou um deles na plateia durante o discurso – o ex-presidente do PT José Genoino, derrubado pelo escândalo do mensalão. Pediu uma salva de palmas para o amigo.
Outro que circulava por ali era João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara também abalado pela crise de 2005.
Muito do que foi dito por Lula ali do alto do palanque parecia reproduzir um filme antigo já visto pelos brasileiros, cujo desfecho é conhecido. Afinal, foram promessas ambiciosas para apenas mais quatro anos de mandato.
Ao menos à primeira vista, é difícil imaginar que Lula 4 vai de fato comprar uma briga ferrenha sobre emendas parlamentares com toda a ênfase descrita no discurso. Que vai ter força para mudar a dinâmica entre Executivo e Legislativo. Ou ainda transformar de uma vez por todas a educação brasileira.
Para isso, Lula precisaria ganhar a eleição, ser bem-sucedido em mais quatro anos de mandato e ainda eleger um sucessor. E, sem muito alarde, entre uma lembrança e outra dos velhos tempos, o presidente petista fez um afago nessa direção.
Ao se referir a Fernando Haddad, disse esperar que o ex-ministro da Fazenda se eleja governador de São Paulo e, depois, se quiser, quem sabe, poderá disputar a Presidência da República.



