Débora Oliveira
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Débora Oliveira

Certificada pelo Programa B3 de Formação Continuada em Mercado de Capitais para jornalistas com atuação em grandes emissoras, como SBT, Band e RedeTV, e analista de economia sem economês

Do banco ao supermercado: Como a inadimplência se espalha pela economia

A inadimplência brasileira deixou de ser apenas um problema das famílias endividadas para se transformar em um risco sistêmico para a economia.

O dado divulgado pelo Banco Central nesta quarta-feira (1º), mostrando que a taxa média de inadimplência chegou a 4,7% em maio, maior nível desde o início da série histórica, em 2011, acende um alerta que vai muito além dos balanços dos bancos.

O avanço dos atrasos pode iniciar um efeito dominó capaz de atingir serviços essenciais, comércio e atividade econômica.

Na avaliação da economista Carla Beni, conselheira do Corecon-SP (Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo) e professora de economia da FGV (Fundação Getulio Vargas), o fenômeno segue uma lógica relativamente previsível. A inadimplência não explode simultaneamente em todos os setores. Ela se espalha em ondas.

"O primeiro impacto aparece nos bancos, principalmente no cartão de crédito e no cheque especial. Depois, a inadimplência chega às contas de consumo, como energia elétrica, água e gás.

Na sequência, ela alcança o varejo e as financeiras. Esse é o ciclo que a gente tem", explica a professora.

O diagnóstico ajuda a entender por que o recorde registrado pelo Banco Central merece atenção mesmo em um cenário de mercado de trabalho ainda resiliente.

O desemprego permanece em níveis historicamente baixos, mas a renda das famílias perdeu capacidade de acompanhar o aumento do custo do crédito e do custo de vida.

Segundo Carla Beni, o problema está menos na falta de emprego e mais na deterioração da capacidade de pagamento.

"Ainda bem que o mercado de trabalho continua resiliente. Imagine esse mesmo processo de inadimplência acompanhado por uma forte alta do desemprego. O impacto seria muito maior para as famílias", afirma.

Boa parte dessa pressão vem dos juros elevados. Desde 2022, a economia convive com uma taxa Selic em dois dígitos, o que encarece toda a cadeia de crédito. No caso do cartão de crédito, a situação é ainda mais crítica.

"O crédito mais fácil continua sendo também o mais caro. O rotativo do cartão chega a cobrar em torno de 436% ao ano", destaca a economista.

Esse custo financeiro elevado cria um círculo difícil de se romper. Quanto maior a inadimplência, maior o risco assumido pelas instituições financeiras. Quanto maior o risco, maiores tendem a ser os spreads bancários.

O resultado é um crédito ainda mais caro, restringindo consumo, investimento e capacidade de recuperação das famílias. Mas talvez o dado mais preocupante seja o tamanho da população já inserida nesse processo.

"Quando você olha o mapa da inadimplência da Serasa, nós estamos hoje com cerca de 50% da população adulta negativada. Esse é o ciclo, infelizmente, com a contaminação disso por toda a economia", alerta.

Na prática, a sequência descrita pela professora ajuda a antecipar onde poderão surgir os próximos focos de fragilidade econômica.

Depois dos bancos, empresas de utilities começam a enfrentar aumento dos atrasos nas contas básicas. Em seguida, o varejo tende a sentir uma desaceleração nas vendas e uma piora na inadimplência dos crediários, reduzindo margens e pressionando os resultados das empresas.

Outro fator que amplia esse risco é o avanço das apostas esportivas no orçamento das famílias. Carla Beni chama atenção para pesquisas que mostram consumidores reduzindo gastos essenciais para direcionar recursos às plataformas de apostas justamente no momento em que o governo tenta ampliar renegociações por meio do Desenrola Brasil 2.0.

"O programa é importante porque retirar uma família da inadimplência melhora não apenas a economia, mas também a saúde mental. Mas o aumento das apostas acontece em um momento muito delicado e pode dificultar esse processo."

Mais do que um número recorde divulgado pelo Banco Central, a inadimplência funciona hoje como um alerta da atividade econômica.

Se esse ciclo continuar avançando para serviços essenciais e comércio, o impacto deixará de ser apenas financeiro para atingir consumo, investimento, arrecadação e crescimento nos próximos meses.

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