Dia das Crianças: 35% dos que planejam presentear têm contas atrasadas
Pesquisa mostra que 16% ainda não sabem de onde virá o dinheiro e presentes mais caros podem ampliar aperto até o Natal

O Dia das Crianças chega com uma conta difícil de fechar: 35% dos consumidores que pretendem presentear já têm pagamentos atrasados, e 16% ainda não sabem de onde virá o dinheiro para a compra. Os dados são de uma pesquisa da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e do SPC Brasil, feita com a Offerwise nas 27 capitais.
Com alguns presentes mais caros, fica menor a margem para acomodar a compra. Trocar o produto por outro mais barato pode ajudar a aliviar o gasto. Parcelar a compra distribui o pagamento, mas leva parte da despesa para os meses em que Black Friday e Natal disputam espaço no orçamento já apertado.
A inflação ajuda a entender a dificuldade na escolha. O IPCA divulgado nesta sexta-feira (9) subiu 0,82% em setembro e acumulou 4,58% em 12 meses. Mas, entre os presentes, os preços seguem caminhos bem diferentes.
Um levantamento do CECON (Centro de Estudos em Conjuntura Econômica) da FECAP, baseado no IPCA-15 de setembro, mostra alta de 4,38% na cesta de presentes no Brasil em 12 meses. O resultado ficou ligeiramente abaixo da inflação geral de 4,47% daquela mesma base, anterior ao IPCA fechado divulgado nesta sexta.
Essa média esconde diferenças que pesam na decisão. Consoles de videogame, por exemplo, ficaram 13,52% mais caros, e chocolates em barra e bombons subiram 12,92%. Brinquedos avançaram 4,02%, enquanto bicicletas recuaram 1,79%.
Para quem tem um limite de gasto, a possibilidade de negociar outra escolha faz diferença. Mas a troca fica mais difícil quando o pedido vem com marca e modelo definidos.
“A busca por uma marca específica, por exemplo, impõe um custo específico aos pais, pois restringe a substituição por outros produtos”, afirma Jobson Monteiro de Souza, professor de Ciências Econômicas da FECAP e pesquisador associado do CECON.
Na pesquisa da CNDL/SPC Brasil, 56% dos potenciais compradores dizem que, se faltar dinheiro à vista ou limite no cartão, escolheriam um presente que caiba no orçamento.
“O comportamento dominante não é de desistência, é de adaptação”, diz Daniel Sakamoto, gerente executivo da CNDL. O levantamento não permite identificar as estratégias específicas dos inadimplentes: esse comportamento se refere ao conjunto dos que pretendem comprar.
O parcelamento aparece nos planos de 41% dos compradores. E 22% dos potenciais compradores aceitariam dividir a compra mesmo sabendo que isso apertaria o orçamento dos meses seguintes.
É nesse ponto que a decisão de outubro pode afetar o fim do ano. Conforme os vencimentos, o consumidor chegará à Black Friday e ao Natal ainda pagando o presente do Dia das Crianças.
Para quem já tem contas atrasadas, assumir novos compromissos pode tornar mais difícil colocar os pagamentos em dia.
Sakamoto vê espaço para um fim de ano melhor em vendas, mas alerta para o risco de agravamento das dificuldades financeiras. Jobson espera preços próximos dos níveis atuais até o Natal, com possibilidade de descontos na Black Friday.
A pesquisa, realizada entre 31 de agosto e 8 de setembro, retrata planos de compra. A disposição de presentear está ali. A dúvida é quanto espaço restará no orçamento depois de concretizar esses planos.
Para o varejo, o efeito em cadeia pode aparecer nas próximas datas: a venda de outubro pode consumir recursos que estariam disponíveis em novembro ou dezembro. Para as famílias, o desafio é fazer o presente caber no bolso sem carregar o aperto até o Natal.



