Análise: Com ICE, parte dos Estados Unidos descobriu o medo do Estado
Excessos da polícia de imigração fazem com que parte dos americanos tenha medo do próprio governo, uma lição que países como o Brasil já sabem de cor

Existe uma cena do clipe de “I Ain't Mad at Cha”, de Tupac Shakur, que ficou gravada no imaginário de quem cresceu nos anos 90: o rapper, de terno branco, sobe aos céus como um mártir baleado.
A morte real de Tupac, ocorrida poucos dias após o lançamento do clipe, transformou a cena em profecia. Mas o que talvez interesse mais hoje é o que o vídeo capturava sobre a América daquele momento: uma comunidade inteira que havia aprendido, de forma lenta e brutal, a ter medo de quem existe para protegê-la.
Essa aprendizagem nunca foi uniforme. Por décadas, o terror cotidiano de uma batida policial, de um carro que para do lado errado, de um uniforme que aparece na hora errada, foi experiência de uns e teoria de outros.
Para uma parcela significativa da América branca e de classe média, a polícia era um serviço público como o correio: chato, burocrático, mas essencialmente benigno. A força do Estado era o que mantinha o caos do lado de fora.
O governo de Donald Trump, com sua aposta ostensiva no ICE como instrumento de pressão política, está redistribuindo esse medo de maneira inédita. O
Immigration and Customs Enforcement nunca foi uma instituição exatamente gentil, mas sua visibilidade atual, sua onipresença retórica, sua disposição declarada de agir em igrejas, escolas e hospitais, está produzindo um efeito que vai muito além da política migratória.
Está produzindo uma experiência de Estado que muitos norte-americanos nunca tiveram. Trata-se da sensação de que a força pública pode ser uma ameaça direta à sua própria vida, ou à vida de alguém que amam.
Para quem cresceu no Brasil, isso ressoa de forma imediata, às vezes até mesmo física. As forças de segurança brasileiras nunca foram um serviço público neutro para todos. São instituições que carregam em si a memória da ditadura, os contornos de uma violência racializada, a ambiguidade permanente entre proteção e terror.
A cumplicidade ordinária que torna o terror possível raramente aparece na farda; às vezes aparece no rosto de alguém que você conhece. Depende, literalmente, de onde você mora e de como você parece, se uma viatura na esquina vai te fazer sentir seguro ou fazer seu coração acelerar.
Essa ambiguidade é a nossa herança normal. Aprendemos a viver nela.
O que está acontecendo agora nos Estados Unidos é a introdução forçada dessa ambiguidade a uma parcela da população que nunca precisou habitá-la. E há algo de profundamente revelador nesse processo.
Não porque o sofrimento desses cidadãos seja novo para o mundo, mas porque expõe a ficção que sustentou a democracia norte-americana por tanto tempo: a ideia de que o Estado de direito protege a todos por igual, de que a farda é um símbolo de ordem e não de poder.
Tupac sabia que essa ficção tinha um endereço. Sabia que ela morava em determinados bairros, tinha determinadas cores, frequentava determinadas escolas.
O que “I Ain't Mad at Cha” e tantas outras músicas daquela geração registravam era exatamente o custo de viver fora dessa ficção, o peso de crescer sabendo que o Estado pode te matar e provavelmente não vai responder por isso.
Agora, de forma muito mais visível e midiática, essa experiência está se espalhando. Famílias que nunca pensaram duas vezes ao ver uma viatura são introduzidas à dúvida. Comunidades inteiras estão vivendo, em tempo real, o questionamento sobre se é seguro abrir a porta.
Não há conclusão fácil nessa observação. Não se trata de acolher os recém-chegados a uma experiência histórica com qualquer senso de pertencimento reivindicado, nem de equiparar trajetórias que possuem dimensões e histórias profundamente distintas.
Trata-se, antes, de reconhecer que o que sempre foi verdade para muitos simplesmente permanecia fora do campo de visão de outros - e que experiências autoritárias têm uma capacidade particular de ampliar esse campo. De tornar perceptível o que sempre esteve presente.
A América está, de forma abrangente, em pleno século XXI, aprendendo a reconhecer a ambiguidade que se esconde por trás do medo daquele que deveria, em tese, proteger. Países como o Brasil já percorreram esse caminho há muito tempo. E sabem, por experiência, como ele costuma se desdobrar.



