Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do CEBRI e do Inter-American Dialogue. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

Análise: EUA e Israel não lutam a mesma guerra no Irã

Países combatem o mesmo inimigo com definições opostas de sucesso — e essa fratura importa

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Quarenta dias de guerra conjunta contra o Irã produziram uma das cenas mais reveladoras da relação entre os Estados Unidos e Israel: poucas horas após Trump anunciar o cessar-fogo de duas semanas, Netanyahu já contestava seus termos, e seus militares lançavam o maior ataque ao Líbano desde o início da campanha, matando centenas, até o presidente americano ligar pessoalmente para pedir contenção.

Não foi um incidente diplomático. Foi a síntese de uma fratura estrutural que a guerra expôs sem deixar margem para eufemismo: Israel e os Estados Unidos combateram o mesmo inimigo com objetivos fundamentalmente distintos, e agora colhem os frutos dessa incompatibilidade.

O primeiro ponto de ruptura é o desalinhamento estratégico. Trump entrou na guerra com um mandato implícito de resultado rápido e custo controlado. Destruir capacidade nuclear e de mísseis, reabrir o Estreito de Ormuz, sair antes de se tornar refém do conflito. O presidente declarou vitória repetidamente e chegou a afirmar, de forma inexata, que o exército iraniano havia sido destruído; retórica que serve ao consumo doméstico, não à realidade estratégica.

Israel opera em outra frequência. Desde o 7 de outubro de 2023, a doutrina operacional israelense convergiu para um objetivo que vai além de degradar capacidades: é desmantelar o sistema. Não apenas os mísseis iranianos, mas os proxies, a arquitetura de projeção de força regional, e se possível o próprio regime. Netanyahu foi explícito: o cessar-fogo provisório "não é o fim da campanha", mas uma "estação no caminho para alcançar todos os nossos objetivos".

Para os Estados Unidos, o cessar-fogo é o destino. Para Israel, é uma parada.

O segundo ponto é a lógica existencial que orienta a percepção israelense. Para o público norte-americano, esta foi uma guerra com começo, meio e - agora - um possível fim negociado em Islamabad. Para o israelense médio, ela é mais um capítulo de uma ameaça que não tem prazo de validade.

O Irã com capacidade nuclear não é, em Israel, um problema geopolítico abstrato, é uma ameaça de extinção percebida como tal há décadas. Essa lógica existencial explica por que um cessar-fogo que Washington apresenta como conquista soa como uma vitória prematura ou incompleta para Israel.

O líder da oposição israelense Yair Lapid chamou o acordo de um dos maiores "desastres diplomáticos de toda a história" de Israel, acrescentando que Netanyahu "falhou politicamente, falhou estrategicamente e não cumpriu nenhum dos objetivos que ele mesmo estabeleceu" - e Lapid não é um crítico da guerra, mas um de seus entusiastas. A insatisfação não vem do pacifismo; vem da sensação de que a guerra terminou no momento errado, por razões alheias ao interesse israelense.

O terceiro ponto, e o mais consequente, é a diferença na definição de vitória. Para os EUA, vencer significa parar a escalada, preservar estabilidade regional mínima e sair com os ativos intactos. O critério é de contenção. O problema foi interrompido, o custo foi administrável, a região não explodiu de forma incontrolável.

Para Israel, vencer significa eliminar a capacidade de ameaça futura e isso inclui o Hezbollah no Líbano tanto quanto o programa nuclear iraniano. Com o regime iraniano ainda no poder, o programa balístico potencialmente reconstruível em curto prazo e 440 quilos de urânio enriquecido a 60% ainda em mãos de Teerã, a vitória norte-americana não é a vitória israelense. É, no máximo, uma vitória parcial que compra tempo, mas não resolve o problema estrutural que Israel entende como seu verdadeiro horizonte de risco.

O paradoxo desta aliança é que ela foi militarmente mais eficaz do que estrategicamente coerente. Dois países coordenaram operações complexas por quarenta dias sem ruptura aberta, e ainda assim nunca alinharam o que estavam tentando ganhar.

A disputa sobre se o Líbano estava ou não incluso no cessar-fogo, com Paquistão e Irã sustentando que sim, Israel e Estados Unidos discordando entre si sobre os próprios termos que ajudaram a negociar - não foi um mal-entendido. Foi a manifestação final de objetivos que nunca foram reconciliados.

O cessar-fogo em Islamabad pode se consolidar ou colapsar. O que não vai desaparecer é a assimetria de fundo: de um lado, uma potência que trata a contenção como vitória e o custo controlado como sucesso; do outro, um país que enxerga em cada pausa não uma conquista, mas uma oportunidade perdida. Enquanto essa diferença não for nomeada com clareza, qualquer aliança entre os dois seguirá produzindo o mesmo resultado: cooperação tática perfeita, e estratégia compartilhada nenhuma.