Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do CEBRI e do Wilson Center. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

Análise: Por que os EUA querem mudança de regime no Irã

Para os Estados Unidos, derrubar o regime iraniano significaria neutralizar simultaneamente a maior ameaça a Israel, desarticular o eixo China-Rússia no Oriente Médio, garantir o controle das rotas energéticas globais e encerrar 45 anos do único desafio anti-americano que sobreviveu desde a Guerra Fria

Arte da bandeira dos Estados Unidos junto da bandeira do Irã
Arte da bandeira dos Estados Unidos junto da bandeira do Irã  • Manoel Augusto Moreno/Getty Images
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Há momentos em que a franqueza analítica se impõe sobre o eufemismo diplomático. Este é um deles.

Os Estados Unidos têm, evidentemente, interesse estratégico em uma mudança de regime no Irã. Não se trata de promover democracia — esse verniz retórico já se desgastou em demasia após Iraque, Líbia, os equívocos da Primavera Árabe e tantos outros. Trata-se de poder, segurança nacional e reordenamento geopolítico. E convém dizer isso claramente.

O regime iraniano representa, desde 1979, o principal desafio ao sistema de alianças norte-americano no Oriente Médio. Não é um desafio qualquer. É estrutural, ideológico e militarmente sofisticado.

Teerã construiu, ao longo de quatro décadas, uma arquitetura de influência que se estende do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico — o chamado "eixo de resistência" —, articulando milícias, governos e movimentos que contestam a presença militar dos Estados Unidos na região.

Hezbollah no Líbano, milícias xiitas no Iraque e Síria, Houthis no Iêmen, apoio tático ao Hamas: trata-se de uma estratégia de guerra híbrida que permite ao Irã projetar poder sem assumir os custos diretos de um conflito convencional.

Para Israel, aliado estratégico inegociável de Washington, o Irã representa a maior ameaça existencial desde sua fundação. A perspectiva de um Irã nuclearizado alteraria irreversivelmente o equilíbrio de poder no Levante.

Os Estados Unidos toleram potências nucleares aliadas; não toleram uma potência nuclear hostil, fora do sistema de contenção ocidental, no coração do Oriente Médio. A mudança de regime surge, nesse contexto, como a uma solução definitiva para neutralizar o programa nuclear iraniano.

Há, ainda, a dimensão energética. O Irã detém a segunda maior reserva de gás natural e a quarta maior reserva de petróleo do mundo.

Além disso, controla, indiretamente, o Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo global. Sua capacidade de disrupção sobre os mercados energéticos é imediata e devastadora.

Um Irã alinhado ao Ocidente — ou, no mínimo, não-hostil — reconfiguraria completamente o mercado global de energia, reduzindo a dependência europeia e asiática de fontes russas e estabilizando preços. Mas isso só ocorre mediante transformação política interna.

A questão transcende o Oriente Médio. O Irã é hoje peça-chave no eixo China-Rússia, fornecendo petróleo barato a Pequim e drones militares a Moscou.

Membro do Brics+ e da Organização de Cooperação de Xangai, atua como plataforma de contestação à hegemonia norte-americana em pleno território que Washington considera sua zona de influência histórica.

Enfraquecer o regime iraniano significa, simultaneamente, enfraquecer os dois principais adversários estratégicos dos Estados Unidos na competição por poder global.

Por fim, há o fator simbólico, que jamais deve ser subestimado em análise geopolítica. Desde a Revolução Islâmica de 1979 e a crise dos reféns na embaixada norte-americana em Teerã, o Irã representa a revolução antiamericana que sobreviveu.

Derrubar esse regime seria não apenas uma vitória estratégica, mas uma mensagem de poder, um encerramento histórico de 45 anos de desafio direto à ordem liderada por Washington.

Seria ingênuo, contudo, imaginar que os Estados Unidos não tentaram isso antes. Tentaram — por sanções, sabotagem, pressão militar indireta, apoio a dissidências.

O regime iraniano mostrou-se notavelmente resiliente, sustentado por estruturas de poder profundas (a Guarda Revolucionária, o clero, redes clientelistas) e por uma narrativa de resistência nacional que ressoa mesmo entre setores não-religiosos da população.

O que pode estar mudando agora é a conjunção de fatores: fragilidade interna do regime após protestos de 2022-2023, desgaste econômico acelerado, cálculo israelense cada vez mais assertivo, reconfiguração das alianças regionais e, sobretudo, a percepção norte-americana de que uma janela de oportunidade histórica pode estar se abrindo.

Para Washington, a mudança de regime em Teerã é o objetivo estratégico mais consequente no Oriente Médio desde a queda de Saddam Hussein.