Análise: EUA aproximam mundo de uma nova ordem regida pela “Lei da Selva”
Ataques do governo Trump à Venezuela reforçam modelo de poder em que o mais forte prevalece

Em meio às reações sobre o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro, um alto diplomata brasileiro comentou que o Brasil deve manter o diálogo aberto com o governo de Donald Trump porque é preciso ter em mente que "agora é a 'Lei da Selva'".
O conceito foi citado também pelo embaixador brasileiro Benoni Belli nesta terça-feira (6), durante a reunião do Conselho Permanente da OEA (Organização dos Estados Americanos) sobre a Venezuela. Ele afirmou que agressões militares conduzem a um mundo em que a "lei do mais forte" prevalece sobre o multilateralismo.
Belli disse que, se o multilateralismo se perder, "a força do argumento cederá lugar ao argumento da força", e as relações se transformarão em subordinação.
"Assistiremos ao colapso da ordem internacional erigida após a Segunda Guerra. A desordem que ocupará o vácuo será ainda mais injusta, violenta e opressiva, pois tenderá a ser regida pela lei da selva, sem qualquer tipo de contenção", pontuou.
O mundo construído no pós-guerra, com o surgimento de organismos multilaterais e a resolução de conflitos pelo diálogo está sendo substituído por um cenário em que líderes autocráticos esgarçam os limites do aceitável e rasgam as cartas que regeram o direito internacional nas últimas décadas.
Na coletiva de sábado (3) após os ataques, Donald Trump mencionou 20 vezes a palavra "petróleo" e nenhuma vez "democracia".
Se antes os líderes buscavam formas de justificar agressões perante a comunidade internacional — ainda que muitas delas fossem risíveis —, na Lei da Selva não há mais pudor para mascarar os interesses em jogo.
Trump fala abertamente que o petróleo da Venezuela deve beneficiar os interesses americanos e, se o novo governo venezuelano não cooperar, irão instalar um que o faça.
"Nem pretexto os EUA usam mais, é força bruta mesmo para se apossar de recursos naturais", disse um diplomata brasileiro à reportagem.

O modelo de lei do mais forte se escancarou com a Venezuela, mas já havia se manifestado antes com a invasão da Ucrânia pela Rússia. E, se depender do governo Trump, mais está por vir.
Stephen Miller, um dos principais assessores de Trump, afirmou nesta segunda-feira à CNN que a Groenlândia pertence legitimamente aos Estados Unidos e que o governo americano poderia tomar o território semi-autônomo da Dinamarca, se quisesse.
Depois de ser questionado várias vezes pelo âncora Jake Tapper se descartaria o uso da força militar, Miller disse: “Ninguém vai enfrentar militarmente os Estados Unidos por causa do futuro da Groenlândia”.
Miller afirmou abertamente que agora vale a lei do mais forte. “Vivemos em um mundo real, Jake, que é governado pela força, que é governado pelo poder”, destacou. “Essas são as leis de ferro do mundo desde o começo dos tempos", adicionou.
As ameaças não param por aí. Trump também afirmou que a Colômbia é governada por um homem doente, que produz e vende cocaína aos EUA e disse que Gustavo Petro "não vai continuar fazendo isso por muito tempo".
Sobre o México, o republicano disse que “é preciso fazer algo em relação ao México” e que os cartéis de drogas são “muito fortes e governam o país”, o que é uma ameaça direta aos Estados Unidos.
O conceito de Lei da Selva já havia sido retratado em 2018 no livro "A selva cresce: América e nosso mundo em perigo", do historiador e comentarista de política externa americano Robert Kagan.
Em um trecho, o autor diz que a ordem liberal é "frágil e impermanente" e "tendemos a encarar o nosso mundo como algo garantido".
Kagan afirma que vivemos por tanto tempo dentro da "bolha da ordem liberal" que não conseguimos imaginar outro tipo de mundo. "Vemos todas as suas falhas e desejamos que fosse melhor, mas não nos ocorre que a alternativa mais provável seria muito, muito pior".
As últimas ações do governo Trump aumentam o risco de estourar a "bolha da ordem liberal" de vez. E o mundo pode estar mais perto de descobrir essa realidade alternativa, citada por Kagan, em que o equilíbrio das relações dá espaço a uma nova ordem em que o país mais forte tem a última palavra.



