Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do CEBRI e do Inter-American Dialogue. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

Violência política nos EUA é sintoma de tensões internas na democracia

Morte de Charlie Kirk, ativista pró-Trump, expõe a fragilidade institucional e o avanço da aceitação da violência política em meio à polarização extrema nos EUA

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A morte de Charlie Kirk, figura emblemática do conservadorismo norte-americano, recoloca os holofotes sobre uma questão cada vez mais inquietante: por que os Estados Unidos têm assistido a uma escalada de violência política tão intensa nos últimos anos?

O episódio não é isolado. Trata-se de mais um capítulo em uma longa lista de ataques a políticos, jornalistas e lideranças civis que, em diferentes pontos do espectro ideológico, se tornaram alvos de um ambiente político marcado por ódio, medo e ressentimento.

A violência política não surgiu do nada. Ela é expressão de tendências estruturais que, há anos, corroem os alicerces da democracia norte-americana.

O primeiro desses fatores é a polarização extrema. Democratas e republicanos não apenas divergem em termos programáticos; eles passaram a se ver como inimigos existenciais.

Pesquisas recentes mostram que cresce o número de cidadãos que acreditam que o partido adversário representa uma ameaça à sobrevivência do país.

Esse afastamento partidário e afetivo diminui a possibilidade de compromisso e alimenta a legitimação de posturas radicais.

Outro elemento central é a retórica inflamatória que se tornou corriqueira tanto no discurso de líderes políticos quanto na comunicação mediada por redes sociais.

Termos como “roubo da eleição”, “inimigos internos” e “guerra cultural” não são meros recursos retóricos; eles corroem a confiança em instituições e normalizam a ideia de que a violência pode ser necessária para restaurar a ordem.

Quando eleições, tribunais e parlamentos são vistos como capturados, aumenta a aceitação de “fazer justiça com as próprias mãos”.

Acesso a armas

A isso se soma um traço particular da sociedade norte-americana: a onipresença das armas de fogo. Os Estados Unidos têm mais armas do que habitantes, e o acesso facilitado a rifles e outras armas sofisticadas amplia a letalidade dos ataques politicamente motivados.

A cultura da Segunda Emenda, muitas vezes associada ao direito de resistir a um governo “tirânico”, conecta-se de modo preocupante à lógica de polarização política.

Não se pode ignorar, ainda, o papel da radicalização online. Plataformas digitais funcionam como incubadoras de ódio, acelerando processos de extremismo.
Fóruns como os que alimentaram teorias conspiratórias como o QAnon ilustram como algoritmos privilegiam conteúdos polarizadores e criam câmaras de eco em que discursos violentos se tornam normais.

Esses processos ganham densidade porque dialogam com questões raciais, culturais e identitárias que atravessam a história norte-americana.

Do movimento Black Lives Matter à ascensão do discurso “anti-woke”, passando pela difusão da teoria conspiratória do “Great Replacement”, as disputas em torno da divers

idade social e da imigração intensificam divisões e tornam certos grupos minoritários alvos preferenciais da violência.

Impacto da economia

A dimensão econômica também pesa. Desigualdade e ansiedade social são combustíveis de ressentimento. A desindustrialização, a precarização do trabalho e crises sucessivas – da recessão de 2008 à pandemia de Covid-19 – deixaram marcas profundas.

Nesse contexto, elites políticas e midiáticas encontram terreno fértil para apontar “inimigos fáceis”: imigrantes, elites culturais e partidos rivais.

Importa notar que essa não é uma anomalia totalmente nova. A tradição de violência política nos Estados Unidos é longa: de Lincoln a Kennedy, passando por Martin Luther King Jr., o recurso à violência como linguagem política tem precedentes que continuam a ecoar.

O problema é que, no presente, os mecanismos de contenção parecem frágeis. Falta uma legislação federal específica contra terrorismo doméstico; figuras públicas locais muitas vezes contam com pouca ou nenhuma proteção; e as agências de segurança enfrentam o dilema de monitorar extremismo sem violar liberdades civis.

“Lobos solitários”

Por fim, a opinião pública mostra sinais alarmantes. Pesquisas recentes indicam que uma parcela não desprezível dos norte-americanos já aceita a possibilidade de que a violência política seja “justificada” em certas circunstâncias.

Esse dado, ainda que minoritário, é suficiente para criar um ambiente propício à ação de “lobos solitários” ou de grupos organizados.

A morte de Charlie Kirk deve, portanto, ser entendida como um sintoma, não como uma exceção.

É reflexo de uma democracia que enfrenta tensões internas profundas, em que polarização, radicalização e ressentimento se retroalimentam.

A grande questão é se os Estados Unidos conseguirão fortalecer instituições e reconstruir algum grau de confiança mútua antes que a espiral de violência corroa de forma irreversível os pilares de sua vida democrática.