Fernanda Pressinott
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Fernanda Pressinott

Comanda o CNN Agro. Atua há mais de 25 anos em economia e agronegócio, com passagens pelo Valor Econômico, Globo Rural, Isto É e como comentarista na Globo News. Tem MBA pela FIA, Insper e FGV.

Newcastle pressiona ações da MBRF e coloca exportações da JBS sob atenção

JPMorgan avalia impacto limitado e temporário, como em 2024; MBRF caiu 4,11% na bolsa, enquanto JBS recuou 1% em Nova York

A confirmação de um foco da doença de Newcastle em uma granja comercial de perus em Santa Catarina atingiu as ações dos grandes frigoríficos brasileiros e elevou a preocupação com as exportações de aves. A MBRF, fornecedora de marcas como Sadia e Perdigão, caiu 4,11% em 19 de outubro, para R$ 18,29. Os papéis da JBS negociados em Nova York recuaram 1%, para US$ 12,90.

A reação foi mais intensa na MBRF porque o foco sanitário foi identificado em um fornecedor exclusivo da companhia, segundo informações obtidas pela Bloomberg News. O produtor de perus abastece a unidade da empresa em Chapecó (SC), voltada à produção de aves para exportação.

A ligação direta com o fornecedor aumenta a exposição da MBRF ao episódio, mas não significa que toda a produção da companhia esteja comprometida. O impacto dependerá das medidas sanitárias aplicadas à operação e, principalmente, da abrangência das restrições impostas pelos compradores internacionais.

JPMorgan prevê impacto limitado para MBRF e JBS

Apesar da reação negativa das ações, o JPMorgan avalia que os efeitos financeiros sobre as duas companhias tendem a ser limitados e temporários, possivelmente menores que os observados no episódio de 2024.

Na ocasião anterior, as restrições comerciais provocaram uma queda de aproximadamente 100 mil toneladas nas exportações brasileiras de carne de frango durante o período de embargos, equivalente a cerca de 25% dos embarques mensais. Segundo o banco, os volumes se recuperaram após a retirada das restrições, sem impactono  Ebitda, indicador de resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, de JBS e MBRF.

Para o JPMorgan, a experiência anterior indica que a duração dos embargos será determinante. O banco também considera que a identificação rápida do foco e a adoção de restrições regionais por parte de alguns importadores podem limitar os efeitos econômicos.

O JPMorgan estima que Santa Catarina represente entre 10% e 20% das exportações de frango da MBRF e da Seara, operação de aves da JBS. Se as restrições ficarem concentradas em áreas específicas, a exposição será menor do que em um embargo nacional.

China é o principal ponto de atenção

A principal incerteza para as empresas está na reação dos compradores internacionais, especialmente da China. De janeiro a setembro de 2026, o país importou cerca de 420 mil toneladas de carne de frango brasileira, aproximadamente 10% das exportações nacionais no período.

Segundo Ricardo Santin, presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), o protocolo comercial com os chineses prevê a suspensão das exportações brasileiras de carne de aves após a ocorrência de Newcastle. A partir desse procedimento, as autoridades chinesas definem se as restrições serão nacionais ou limitadas ao estado ou à região afetada.

A decisão chinesa pode determinar a dimensão do impacto financeiro. Uma restrição localizada tende a afetar menos embarques; um bloqueio nacional e prolongado aumentaria a necessidade de redirecionar volumes para outros destinos, com risco de pressão sobre preços e margens.

O que diferencia as duas empresas

Para a MBRF, o foco em um fornecedor ligado à unidade exportadora de Chapecó acrescenta um risco operacional específico. A companhia também está exposta a eventuais restrições mais amplas às exportações brasileiras de aves, independentemente da localização do foco.

Na JBS, o impacto direto se concentra na Seara. A diversificação geográfica e entre proteínas do grupo ajuda a diluir o efeito no resultado consolidado, mas não elimina a exposição da operação brasileira de frango a embargos comerciais.

Por enquanto, não há estimativa pública consolidada de perdas em reais ou de revisão do EBITDA das duas empresas provocada especificamente por Newcastle. A avaliação do JPMorgan é que o episódio pode gerar volatilidade de curto prazo nas ações, sem alterar de forma relevante a perspectiva estrutural para os grupos, desde que as restrições sejam localizadas e temporárias.