Fernanda Pressinott
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Fernanda Pressinott

Comanda o CNN Agro. Atua há mais de 25 anos em economia e agronegócio, com passagens pelo Valor Econômico, Globo Rural, Isto É e como comentarista na Globo News. Tem MBA pela FIA, Insper e FGV.

Por que a transição energética ameaça o enxofre para fertilizantes

Estudos indicam que a redução do uso de combustíveis fósseis e o controle da poluição podem diminuir a oferta de enxofre, insumo essencial para fertilizantes e para a produção de alimentos.

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A transição energética, considerada um dos principais caminhos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, trouxe um efeito colateral pouco conhecido: a escassez de enxofre, matéria-prima essencial para a produção de fertilizantes.

O alerta aparece em estudos que mostram uma relação direta entre a descarbonização da economia e a oferta global do elemento químico, fundamental para a agricultura. A preocupação é que, à medida que o mundo reduz a produção e o consumo de combustíveis fósseis, também diminua a principal fonte de obtenção de enxofre utilizada atualmente.

Embora o tema ainda seja pouco explorado como um problema estrutural para a agricultura, ele se torna fundamental de ser observado com os conflitos geopolíticos envolvendo o Estreito de Ormuz. Em entrevista à CNN Internacional, Ahmed El-Hoshy, em maio, o CEO da Fertiglobe afirmou que cerca de 47% do enxofre comercializado no mundo passa pela região, destacando a importância do insumo para a produção global de fertilizantes.

Hoje, mais de 80% do enxofre comercializado no mundo é recuperado durante o processo de dessulfurização do petróleo e do gás natural, segundo estudo publicado em 2022 na revista científica The Geographical Journal, da Royal Geographical Society, assinado por pesquisadores da University College London (UCL) e de outras instituições. Ou seja, trata-se de um subproduto da indústria de combustíveis fósseis.

"O enxofre sempre foi visto como um resíduo valioso da cadeia do petróleo. Com a transição energética, essa lógica pode mudar", concluem os autores do estudo, que analisa os impactos da descarbonização sobre a oferta global do insumo.

Segundo os pesquisadores, a rápida redução da atividade da indústria de petróleo e gás poderá provocar um déficit significativo de enxofre nas próximas décadas, justamente em um momento em que a demanda tende a crescer.

Insumo estratégico para a agricultura

O enxofre é considerado um macronutriente secundário para as plantas, mas desempenha papel fundamental no desenvolvimento das lavouras. Ele participa da formação de proteínas, aminoácidos e enzimas, além de aumentar a eficiência do aproveitamento do nitrogênio pelos cultivos.

De acordo com a International Fertilizer Association (IFA), a deficiência do nutriente pode comprometer a produtividade mesmo quando outros fertilizantes, como nitrogênio, fósforo e potássio, são aplicados corretamente.

No Brasil, culturas como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e café estão entre as que mais demandam reposição de enxofre.

A preocupação aumenta porque os solos tropicais brasileiros possuem baixa oferta natural do nutriente e apresentam elevada lixiviação, o que torna a adubação sulfurada praticamente indispensável em muitas regiões produtoras. Essa característica é amplamente documentada por pesquisas da Embrapa, especialmente em estudos sobre fertilidade dos solos do Cerrado.

O outro efeito da redução da poluição

Há ainda um segundo fenômeno que ajuda a explicar o aumento da importância do enxofre para a agricultura.

Durante boa parte do século passado, parte do nutriente chegava aos solos por meio da chuva. Isso ocorria porque as emissões industriais de dióxido de enxofre (SO₂), provenientes principalmente da queima de combustíveis fósseis, eram muito superiores às atuais. Ao retornar à superfície, esse enxofre acabava funcionando, involuntariamente, como uma forma de fertilização.

Com o avanço das políticas de controle da poluição e a redução das emissões, essa deposição atmosférica caiu drasticamente.

No fim, a melhora da qualidade do ar fez com que os produtores passassem a depender cada vez mais da aplicação de fertilizantes sulfurados para repor o nutriente retirado pelas colheitas. Esse efeito foi demonstrado em estudo publicado na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, que aponta a queda da deposição atmosférica de enxofre como um dos fatores por trás do aumento da demanda por fertilizantes sulfurados.

Competição com a economia verde

A preocupação não está restrita ao agronegócio. O enxofre também é utilizado na produção de ácido sulfúrico, insumo indispensável para a mineração de cobre, níquel, lítio e outros minerais considerados estratégicos para a transição energética.

São matérias-primas utilizadas em baterias, veículos elétricos, painéis solares e turbinas eólicas.Na avaliação dos pesquisadores da University College London, isso pode criar uma disputa crescente pelo insumo entre agricultura e mineração.

O estudo estima que, caso a descarbonização avance rapidamente sem novas fontes de produção de enxofre, o mundo poderá enfrentar um déficit anual de 100 milhões a 320 milhões de toneladas de ácido sulfúrico até 2040, dependendo da velocidade da transição energética.

Brasil acompanha o cenário

Embora não exista uma escassez global de enxofre neste momento, o mercado entrou em uma fase de maior atenção. Relatórios da International Fertilizer Association (IFA) mostram que a demanda mundial por fertilizantes sulfurados deve continuar crescendo nos próximos anos, impulsionada tanto pela expansão da produção agrícola quanto pela redução da deposição natural de enxofre nos solos.

O Brasil aparece entre os países mais sensíveis a esse cenário por depender fortemente da importação de fertilizantes e por possuir uma agricultura altamente intensiva em nutrientes. Além disso, culturas como soja e milho ocupam áreas de solos naturalmente pobres em enxofre, exigindo reposição constante do nutriente.